'Governo perdeu o timing para vacinação da febre amarela', diz infectologista

Por Fabíola Salani / Metro Jornal São Paulo

Presidente da Sociedade Brasileira de Dengue/Arbovirose e infectologista do Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos, Artur Timerman, 64 anos, avalia que toda a população do país vai precisar ser imunizada contra a febre amarela, porque o Brasil tem condições para a propagação do vírus. Leia trechos da entrevista.

Quem precisa tomar a vacina contra a febre amarela?

Todo mundo que não tem contraindicação. Na verdade, vai chegar um momento que vai precisar toda a população do Brasil tomar. Faz um ano e meio que a doença está aí. Agora, é preciso priorizar os locais que estão com  transmissão ativa da doença, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia. A partir daí, eu avalio que é necessário estender para o resto do Brasil, porque o país tem todas as condições de estabelecer a transmissão do vírus.

Mas para toda a população?

Essa é uma norma inclusive corroborada pela OMS [Organização Mundial da Saúde], que indica que regiões onde está havendo surto – e por surto entenda-se um caso em humano –, deve se vacinar toda a população.

Então a vacinação tinha que ter começado antes em algumas áreas?

Perdemos o timing, nós como sociedade. A maior responsabilidade é das autoridades de saúde, que certamente estavam advertidas que a febre amarela era problema iminente, que iria se agravar como está se agravando. Há um ano e meio, desde julho de 2016, está se relatando morte de primatas, bugios, saguis, em periferia de cidades. Se estudar um pouco de febre amarela, você vai ver que a morte de primatas em geral é um alerta que nos indica que a doença está se aproximando das cidades. No tipo de urbanização que temos, os limites entre o que é urbano e não urbano são muito tênues De repente, decretaram que Mairiporã é região silvestre. Até pouco tempo era uma cidade satélite de São Paulo. Mas não é problema só de região silvestre.

Mas havia estoque para essa vacinação em massa?

Isso nunca nos foi explicitado. Qual o estoque de vacina, a capacidade de produção. O presidente da BioMaguinhos deu entrevista dizendo que produziu 66 milhões de doses no ano passado e vai fabricar 40 milhões neste ano. Como foram usadas essas 66 milhões de doses?

A vacina fracionada tem a mesma eficácia da padrão?

Todas as evidências científicas se baseiam no uso da dose plena da vacina. Quando se estuda vacina, tem estudos de indução de anticorpo e de redução de indicidência da doença quando se aplica a vacina, que é a eficiência clínica. Onde está o estudo com a eficiência clínica? Mas ela (a dose fracionada) é melhor do que não se imunizar.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) usou a dose fracionada no Congo (país africano)…

Porque era uma situação de emergência. Agora qual a eficácia clínica, estudo que compara a redução da doença em populações vacinadas com a dose inteira e a dose fracionada? Não existe esse estudo. A própria OMS não vai emitir certificado de viagem internacional para quem tomar a dose fracionada.

Quais outras formas de evitar a febre amarela que não a vacina? Qual a opção a mais eficiente? Há pessoas que não podem tomar a vacina.

É bom enfatizar a importância de usar repelentes. Os mais eficientes são à base de icaridina e IR 35. O mais baratos, à base de DEET, são menos eficientes, duram menos tempo na pele, têm que ser aplicados a cada duas horas. Os outros duram quatro horas. E é importante que se aplique o repelente em cima do filtro solar.

A vacina de clínica particular é tão boa quanto a oferecida na pública?

Sim, uma é tão eficiente quanto a outra.

Toda a população de SP terá dose

A diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo, Regiane de Paula, disse que “é mito” que a eficácia da dose fracionada da vacina contra febre amarela não seja igual à da dose integral. “Eu participei abertura do trabalho, ele demonstra com dados que vacina é eficaz em um período de oito anos e há estudos em andamento superior a esse período.”

Segundo a diretora, o certificado internacional de vacinação não é emitido com a dose parcelada porque não daria tempo para mudar o protocolo mundial neste momento.

Paula afirmou que, ainda neste ano, toda a população do Estado será imunizada, mas que a prioridade é para quem mora, trabalha ou frequenta cidades com circulação do vírus ou por onde ele possa passar.

Ela pontua que em Mairiporã, agora epicentro da doença, as doses começaram a ser aplicadas em agosto do ano passado, quando não havia nem macacos mortos em decorrência da febre – eles são os “sentinelas”, avisam da circulação do vírus na região. “Nós avaliamos que, pelo caminho que estava percorrendo, ele chegaria ali.

O Ministério da Saúde afirmou ao Metro Jornal que a dose fracionada é “segura e eficaz” e que a vacina oferecida na rede pública, produzida pela Fiocruz, tem certificação internacional para ser fracionada.

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