Projeto leva conhecimento, moradia e autoestima para mulheres em Belo Horizonte

Por Metro BH
Reforma coletiva realizada em casas da periferia - Arquitetura na Periferia/Arquivo
Projeto leva conhecimento, moradia e autoestima para mulheres em Belo Horizonte

“Eu costumo dizer que o projeto Arquitetura na Periferia fez pequenas reformas em mim”. Esse relato da faxineira Luciana da Cruz, moradora da ocupação Dandara, na região da Pampulha, reflete o sentimento de muitas outras mulheres que participaram do projeto “Arquitetura na Periferia”, que leva aprendizado, moradia digna e autoestima para moradoras de vilas e comunidades da Grande Belo Horizonte.

A iniciativa consiste em oferecer assessoria técnica à mulheres de baixa renda para melhorar suas moradias por meio de aprendizados práticos de projetos e planejamentos de obras. A ideia partiu da arquiteta Carina Guedes, em seu projeto de mestrado. “Eu queria levar arquitetura para onde não tem. São os locais que mais precisam, onde mais se auto constrói e onde menos se tem recurso”, justifica Carina.

Ao invés de disponibilizar um produto, o projeto oferece aprendizado. “A gente não oferece a reforma, mas sim o conhecimento para que as mulheres possam realizá-las. Isso faz com que elas se sintam mais independentes. Mais que melhoria na moradia, também uma melhoria na autoestima”, explica a arquiteta.

O curso funciona em pequenos grupos, formados exclusivamente por mulheres. Na primeira visita, a equipe avalia as necessidades da casa e instrui as donas sobre estratégias e técnicas arquitetônicas. Em seguida, seguem para a parte prática: ensinam a lidar com alvenaria, hidráulica, reboco, etc. As mulheres participantes, por meio de doações e empréstimos, conseguem fundos para os materiais necessários.

Com autonomia, elas conseguem realizar as obras de acordo com suas necessidades – o que não acontece com grande parte das mulheres durante o processo de reformas. Carina não esconde a emoção e o orgulho ao falar do projeto. “O mais importante para mim é ver a emancipação das mulheres. Não só com a construção dos espaços, mas conseguir planejar, organizar. Além do lado político, por realizar ações onde o poder público não chega”, conta. Atualmente, o Arquitetura na Periferia atende 17 famílias nas ocupações Dandara, na Pampulha, e Eliana Silva, no Barreiro.

Arquitetura que muda histórias
Em 2014, a falta de infraestrutura em casa era um grande problema para a faxineira Luciana da Cruz. “Era um barraquinho pequeno, que mal tinha estrutura para se manter em pé. A única instalação hidráulica era uma torneira a 25cm do chão”, relembra.

Naquele ano, ela foi uma das primeiras agraciadas pelo projeto Arquitetura na Periferia. “Eu já era conhecida na comunidade por outros trabalhos que eu fazia e a Carina me chamou. Achei muito louca a ideia, mas tentei. Pelo desafio mesmo”, conta Luciana.

Em um grupo com mais duas mulheres, elas tiveram aulas em que aprenderam sobre técnicas de arquitetura. Na segunda etapa, já colocaram a “mão na massa”. “A gente aprendeu alvenaria e hidráulica. Foi quando consegui resolver os problemas da minha casa, onde faltava pia e chuveiro”, explica. Depois disso, as mulheres conseguiram um empréstimo para tocarem as obras sozinhas.

Luciana conta que ainda não concluiu as obras da sua casa e tem planos ambiciosos. “A gente vai aos poucos por falta de dinheiro. Mas agora eu já deixei tudo planejado para construir um segundo andar e transformar o quarto em uma loja”, planeja. Luciana quer utilizar o local para um espaço de atendimento para mulheres, unindo todos os trabalhos que presta na comunidade, como um cursinho comunitário, uma cooperativa de aulas de costura, e atendimento médico.

Emocionada, Luciana conta que o projeto teve grande importância para sua vida. “É muito legal ver essa ideia, que não funcionava, se tornando realidade nos lugares que mais precisam. É importante para o empoderamento feminino, para a construção de moradias dignas de quem não tem condição de contratar um serviço”, salienta. Luciana é hoje uma das técnicas responsáveis pelo projeto, ao lado de Carina e outras duas arquitetas, além de uma estudante de engenharia.

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