Especialistas e comunidade ajudam na recuperação das três igrejas impactadas pela lama de Mariana

Por Letícia Orlandi/Metro Espírito Santo
Na fachada de igreja em Gesteira (MG), a marca da lama - Chico Guedes/Metro ES
Especialistas e comunidade ajudam na recuperação das três igrejas impactadas pela lama de Mariana

No caminho dos mais de 40 milhões de m3 de lama que saíram da barragem de Fundão, em Mariana (MG) em direção ao rio Doce, há dois anos, havia três igrejas: Capela Nossa Senhora das Mercês, em Bento Rodrigues; Capela de Santo Antônio, Paracatu de Baixo e Capela Nossa Senhora da Conceição, em Gesteira (Barra Longa/MG). Ao serem atingidas pelos rejeitos de mineração, todo o material que estava dentro dos templos foi levado pela lama. Para recuperar as imagens e os mais diversos itens, profissionais realizam um trabalho de arqueologia, um verdadeiro garimpo do patrimônio cultural e religioso das três comunidades atingidas, procurando imagens, peças do altar e os objetos que compunham as capelas nos primeiros 100 km do caminho da lama, até a Usina de Candonga, em Minas Gerais.

A recuperação do acervo das três igrejas, em Bento Rodrigues, Gesteira e Paracatu de Baixo, impactadas pelos rejeitos de mineração, é feita em parceria com especialistas e comunidade. Ainda em novembro de 2015, foi iniciado um trabalho, após recomendação do MPMG (Ministério Público de Minas Gerais), para resgate das peças e retirada de rejeitos das capelas. Foram contratadas duas empresas: uma de arqueologia e uma de patrimônio cultural.

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Depois de dois anos, 2.200 peças das três capelas já foram retiradas da lama, e o trabalho de garimpo continua. A catalogação das peças e o trabalho de recuperação são realizados num prédio discreto na cidade de Mariana. E o trabalho de busca pelas peças no leito do rio também segue.

Segundo Mara Fantini, restauradora e especialista em programas socioambientais da Fundação Renova — instituição criada para gerir ações de recuperação de danos causados pelo desastre da lama –, ainda há locais com acessos muito difíceis e com risco de vida. Mara relata que o trabalho é exaustivo, mas os profissionais continuam andando nas margens dos rios, incansavelmente.

Entre as peças guardadas na chamada Reserva Técnica estão altares internos, microfones, tecidos de altar, recipientes de água benta. Há também objetos curiosos, como garrafas pet, papéis de bala e sacos de biscoito, além de toalhas e outros panos das igrejas. A restauradora explica que, mesmo parecendo descartáveis, esses itens foram guardados, pois passaram a ter outro significado para a comunidade depois da passagem da lama. “A comunidade se enxerga naqueles objetos. Tudo o que estava na igreja recebeu outro valor”, explica. Das igrejas afetadas, a com material mais relevante, segundo a restauradora, é a de Bento Rodrigues, de 1718. Entre os itens mais valiosos está uma imagem de Cristo, de autoria de Francisco Vieira Cerpas, contemporâneo de Aleijadinho, que estava em Paracatu.

Mara conta que a imagem de Jesus foi achada num bloco de lama e levou mais de dois meses para ser retirada. Após um tempo, foi achada a última parte da peça, agora completa e passível de ser restaurada. Outra peça que está sendo trabalhada é a imagem de Nossa Senhora do Rosário, de Bento Rodrigues, em tons de azul e folha de ouro.

O destino dos materiais vai ser decidido pela comunidade. “Será que ela vai querer que sejam restauradas? Ou vai preferir que essas peças fiquem com as marcas dessa tragédia?”, questiona Mara.

A imagem de São Bento, o padroeiro da cidade devastada pela lama, ainda não foi encontrada. Entre os moradores, acredita-se que São Bento se jogou na lama para salvar seus filhos…

Especialistas com imagens encontradas Especialistas com imagens encontradas / Chico Guedes/Metro ES

 

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