Morador do Riacho Grande tem 55% mais doenças ligadas a água

Por Vanessa Selicani / Metro Jornal ABC
Água esverdeada na Prainha do Riacho Grande é sinal de poluição - André Porto/Metro
Morador do Riacho Grande tem 55% mais doenças ligadas a água

Viver próximo à represa Billings compromete a saúde dos moradores por conta da poluição das águas. A conclusão está no Plano Municipal de Saneamento Básico elaborado pela Prefeitura de São Bernardo e publicado neste ano. De acordo com o documento, a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Riacho Grande atendeu no ano passado índice 55% superior de pessoas com doenças transmitidas pela água do que a média da cidade toda. A unidade de saúde alcançou taxa de 100 casos a cada mil moradores na análise de incidência do problema, a maior delas medida no município.

A UPA Baeta Neves, por exemplo, tem o menor valor: 35. Atrás da UPA Riacho Grande aparece a UPA Silvina/Ferrazópolis, com 67. A média da cidade é 64 (veja abaixo todos os valores).

O Plano Municipal de Saneamento Básico faz relação direta dos dados com a qualidade na represa e o saneamento na cidade. “O problema de poluição do manancial, do abastecimento precário e da deficiência na coleta e no tratamento do esgoto estão diretamente relacionados com a quantidade de casos atendidos nas UPAs. Mais que o custo financeiro desses atendimentos está o custo social, com claros prejuízos à qualidade de vida da população”, diz trecho do documento. As doenças transmitidas por meio hídrico citadas no plano têm como principal sintoma a diarreia.

A professora de saúde e meio ambiente da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) Marta Marcondes afirma que os dados ainda precisam de estudo mais aprofundado, mas que é evidente que moradores da região do Riacho e pós-balsa têm relação próxima com a represa. “A Billings é utilizada como área de lazer, muita gente pesca ali também. A partir dos dados da prefeitura, é preciso agora verificar de onde são essas pessoas, como elas se relacionam com a represa e de onde é a água que elas recebem”, disse.

A professora coordena desde o primeiro semestre deste ano o projeto “Águas que Curam: um novo olhar sobre o reservatório Billings”, que leva mensalmente equipe multidisciplinar da USCS para estudar a saúde da população no entorno da represa.

Os primeiros resultados também indicam interferência da poluição da água na saúde da população. Exames de fezes realizados em 190 moradores do bairro Taquacetuba, no pós-balsa, indicaram presença de parasitas intestinais vindos de fontes hídricas em 99% dos casos. “É triste isso. Estamos realizando oficinas com os moradores sobre como usar a água e higienizar os alimentos.” O estudo quer chegar a 300 pessoas pesquisadas até o próximo ano e analisar a qualidade da água dos poços utilizados para abastecimento na região.

Para a professora, a população deveria ser advertida sobre os riscos. “Os frequentadores da represa precisam ser informados sobre a poluição da água e seus riscos. Diarreia e vômito são problemas sérios e podem levar à morte pessoas mais frágeis, como crianças e idosos.”

Casos de doenças transmitidas pela água ABC

Sabesp diz monitorar qualidade 

A Sabesp, companhia estadual responsável pelo saneamento em São Bernardo, disse em nota garantir a qualidade da água fornecida. Os moradores do Riacho Grande são abastecidos pela Estação de Tratamento de Água Rio Grande e os do pós-balsa, por dois poços artesianos. “Toda a água fornecida pela Sabesp atende aos rigorosos padrões de qualidade exigidos pela Portaria 2.914 do Ministério da Saúde”, afirmou a Sabesp.

Prainha tem qualidade péssima desde 2013

Em fins de semana de calor intenso, é comum ver a prainha do Riacho Grande, próxima à barragem da via Anchieta e à Estação de Tratamento de Água da Sabesp, lotada de banhistas. O local onde até 2 mil pessoas se banham em dias movimentados é um dos mais poluídos da Billings.

O Relatório de Qualidade das Águas Interiores da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) indica qualidade péssima para a prainha desde 2013. Em 2011 e 2012, quando a condição era considerada um pouco melhor, a classificação era como ruim. Entre outubro e novembro deste ano, ela foi considerada imprópria para banho por conta da grande quantidade de Escherichia coli, bactéria encontrada no intestino humano e que chega à Billings por conta do esgoto sem tratamento despejado ali.

A Cetesb foi questionada pela reportagem sobre a ausência de placas indicando a qualidade da água para banhistas na represa, como acontece no litoral. Mas, até a conclusão desta reportagem, não houve retorno.

O Metro Jornal mostrou em reportagem especial em 29 de setembro a forma como a ocupação irregular e o despejo do rio Pinheiros em dias de chuva tem interferido na qualidade da água na Billings. A Prefeitura de São Bernardo iniciou em setembro ofensiva contra as ocupações irregulares. A gestão municipal diz que em breve haverá também implantação de sistema de coleta de esgoto na região da represa. 

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