Falta de manutenção em viadutos e pontes de São Paulo coloca população em risco

Por Metro Jornal
Por cima do viaduto Fepasa, do acidente que provocou a morte da juíza, só passam trens. Por isso, o elevado é de responsabilidade da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) - André Porto/ Metro
Falta de manutenção em viadutos e pontes de São Paulo coloca população em risco

Há pouco mais de uma semana na capital, um caminhão 16 centímetros maior que um viaduto tentou passar embaixo da estrutura e acabou se chocando contra o teto. Um pedaço de concreto se desprendeu e caiu sobre um carro, matando uma juíza de 46 anos.

Os 16 centímetros, apenas metade de uma régua escolar, acenderam o alerta de que a imprudência somada aos problemas destas passagens elevadas podem fazer com que esse não seja um incidente isolado.

De janeiro a outubro deste ano, de acordo com a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), 26 caminhões se chocaram contra pontes e viadutos. Em 2016, foram outros 34 acidentes do tipo.

O número pode parecer pequeno, mas o risco é alto quando se sabe que muitas das 185 pontes e viadutos da cidade estão em más condições de manutenção.

Segundo estudo do Sinaenco (Sindicato Nacional da Arquitetura e da Engenharia Consultiva), divulgado em setembro, pelo menos 73 deles têm problemas que vão de manchas de infiltração a fissuras, passando por marcas de impacto de veículos e danos na estrutura que expõem armações enferrujadas e lajes corroídas.

A Prefeitura de São Paulo fez levantamento semelhante e elegeu 15 pontes e viadutos para receberem manutenção com prioridade. Uma licitação para obras chegou a ser lançada sem setembro, mas foi barrada neste mês pelo TCM (Tribunal de Contas do Município) e ainda não há previsão de quando as obras serão iniciadas.

Na semana passada, o Metro Jornal percorreu pontes e viadutos da capital e verificou que marcas de batidas estão por toda a parte. Nas marginais Pinheiros e Tietê, as pontes mais baixas sofrem com os caminhões.

Sob a ponte Eusébio Matoso, em Pinheiros, zona oeste, cabos de aço tortos apareciam no lugar do concreto que foi destruído em colisões. As placas de sinalização estavam amassadas.

Na ponte Freguesia do Ó, zona norte, o estrago no concreto era ainda mais aparente. Muitos caminhões mais altos passavam rentes à estrutura, de 4,4 metros de altura, que também apresentava um buraco em um dos pilares, marcas de mofo e rachaduras.

Fora das marginais, o viaduto General Olímpio da Silveira, sobre a avenida Pacaembu, na zona oeste, foi o que mais aparentava problemas. Com 3,8 metros de altura, as marcas de raspadas e batidas de veículos altos se estendiam por todo o teto. O viaduto também tinha muitas marcas de rachaduras, além dos diversos cabos de aço rompidos.

O professor de engenharia do Mackenzie Henrique Dinis explica que não são apenas as batidas que causam o desgaste das construções. “As infiltrações se acumulam há décadas. Muitos viadutos mais antigos, que são ocos, estão piores por dentro do que por fora.”

Para o engenheiro e diretor do Sinaenco Gilberto Giuzio, falta ação para a manutenção dos viadutos e pontes de São Paulo. “É necessário aumentar o orçamento para reparos dessas obras. Quanto mais se espera para arrumá-las, mais caro fica”, explica.

Giuzio afirma que casos como o do acidente que matou a juíza podem se repetir. “Os problemas não farão as estruturas entrarem em colapso. Porém, riscos menores, como de queda de concreto, são reais.”  

‘Velhos e sem manutenção’

“A maioria das pontes e viadutos de São Paulo foi construída nas décadas de 1960 e 1970 e não recebeu manutenção adequada até os dias de hoje.” Apesar de ainda atual, essa conclusão do MP (Ministério Público) é de 2007 e consta em acordo assinado com a prefeitura.

Naquele ano, a promotoria e o município firmaram um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) em que a prefeitura se comprometia a realizar obras de manutenção em ao menos 50 pontes e viadutos pelos próximos 10 anos. O acordo não foi cumprido e o MP entrou na Justiça em 2014 para cobrar a multa – avaliada em R$ 35 milhões, mas que se for atualizada passa hoje dos R$ 54 milhões.

Em maio, a atual gestão propôs realizar obras nas 15 pontes e viadutos que julgou prioritárias em troca da suspensão da multa. O MP não aceitou e pediu que a prefeitura comprove as boas condições de manutenção das outras pontes e viadutos. A negociação segue.

Outra ideia do atual governo, de que propor que empresas reformem as pontes das marginais em troca da exploração da publicidade também foi barrada.

A prefeitura afirmou que realiza vistorias periódicas em pontes e viadutos e que retomou neste ano programa permanente de recuperação, que diz que estava abandonado. 

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