Menos de um mês após incêndio, Cerrado ressurge na Chapada dos Veadeiros

Por Raphael Veleda - Metro Brasília
Raphael Veleda/Metro
Menos de um mês após incêndio, Cerrado ressurge na Chapada dos Veadeiros

Com a ajuda das chuvas dos últimos dias, o verde já retoma boa parte dos cenários que o fogo tingiu de preto há menos de um mês no maior incêndio da história do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Os brotos são mais evidentes na vegetação rasteira, mas também estão presentes em árvores atingidas pelo incêndio que perdurou durante o mês de outubro e destruiu 66 mil hectares de vegetação, que representam 28% da universidade de conservação.

O ressurgimento do cerrado é visto por quem vive na região como esperança de solução de um problema que surgiu no rastro do desastre ambiental: o impacto no turismo, que é base da economia da região.

Desde o incêndio, apesar de terem havido dois feriados, as reservas em pousadas e em campings chegaram a registrar uma queda de até 80% em relação a antes do fogo. O sumiço dos turistas (leia relatos abaixo) motivou empresários da região a patrocinar a ida de um grupo de jornalistas de Brasília para o local, com o objetivo de mostrar que as atrações turísticas seguem acessíveis. “A maneira como o incêndio foi noticiado assustou muito as pessoas”, lamenta a empresária Giovani Tokarski, 77, sócia de uma pousada em São Jorge, povoado que fica ao lado do parque. “Acabou ficando uma coisa meio sensacionalista, disseram que a fumaça causou problemas respiratórios, mostraram fotos de animais queimados que não eram daqui, eram de Portugal. As pessoas tiveram boas intenções, mas fizeram parecer mais dramático do que a verdade”, avalia ela.

Tatu Chapada dos Veadeiros Tatus bebês órfãos foram trazidos para o zoo de Brasília / Tony Winston/Agência Brasília

Investigações

Apesar de a recuperação das plantas ficar clara para olhos não especializados, o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Biodiversidade),  gestor do parque, estima que alguns pontos atingidos, como as matas na beira de rios, podem demorar um ano ou mais para recuperar a plena saúde.

A Polícia Federal investiga a origem do incêndio. Denúncias apontam para a ação de agricultores insatisfeitos com a ampliação do parque – de 65 mil hectares para 240 mil – decretada pelo presidente Michel Temer em junho deste ano.

Fluxo de turistas despenca

Distrito de Alto Paraíso (GO), o povoado de São Jorge tem uma população de aproximadamente 700 pessoas, quase todas envolvidas de alguma forma na economia do turismo. Em feriados, o local chega a receber quase cinco mil pessoas, segundo os moradores, lotando pousadas e campings. “O impacto está sendo muito grande. Já dá uma diminuída nas visitas com a chegada da chuva, mas nada parecido com isso, o turista ficou com medo de vir”, avalia o vendedor de pedras e cristais Nissinho, que monta sua barraca na rua principal há mais de uma década. “As pessoas ficaram achando que a beleza acabou. Minha clientela caiu 60%”, relata Alexandre Chaves, dono de uma risoteria.

chapada São Jorge estava praticamente deserta no último sábado / Raphael Veleda/Metro

Até as reservas para o fim do ano, que, de acordo com os empresários, costumam estar esgotadas, estão disponíveis – e ficando até 30% mais baratas.

Vindos de São Paulo, os comerciantes Ana Lúcia, 35, e Geraldo Castro, 32, quase desistiram da viagem de quatro dias. “Olha, só viemos porque remarcar a passagem sairia muito caro, mas estávamos assustados”, diz Ana, que conheceu a região há dez anos e sonhava voltar. “Mas não nos arrependemos. Claro que há resquícios do fogo, mas é até uma oportunidade de ver essa força que a natureza tem, o cerrado principalmente, de ressurgir das cinzas”, completa Geraldo.

Quando conversaram com a reportagem, os dois eram os únicos clientes de um restaurante com música ao vivo na entrada do povoado. “Olha, é até mais agradável curtir a cidade vazia. Fomos ao parque e não tinha fila, nada, mas entendo que é complicado para quem vive do dinheiro dos turistas, está muito vazio”, afirma Ana.

Paulistas e  cariocas são a maioria dos turistas que visitam a Chapada dos Veadeiros, seguidos por brasilienses e goianos. 

Visita ao Parque Nacional continua deslumbrante

Fechado durante o incêndio que lhe queimou um quarto da área, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros está funcionando normalmente, sem áreas interditadas por causa dos estragos. O carvão está presente am vários pontos da trilha, mas não atrapalha o passeio. “O encanto do nosso paraíso está intacto. O fogo à primeira vista é só destruição, mas, para o cerrado, também significa renovação”, afirma o guia João di Trindade, 56.

Ele atuou como voluntário no combate às chamas e também acha que a tragédia foi pintada com cores fortes demais. “Nos lugares que passei, não vi animais mortos, nem soube de mortes”, afirma.

Uma equipe do Zoológico de Brasília que foi enviada para fazer resgates durante o combate ao fogo não encontrou bichos mortos ou feridos e atuou apenas treinando voluntários. Dias depois, foram resgatados uma arara ferida e dois filhotes de tatu que estavam bem, mas haviam se perdido da mãe. Eles foram trazidos para o hospital veterinário do Zoo.

Fora do parque, mas um dos principais pontos turísticos da região, o Vale da Lua mostra mais sinais de destruição, mas nada que impossibilite a visita – e o deslumbramento. 

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