Dois anos após a tragédia de Mariana, moradores da região se reinventam

Por Letícia Orlandi/Metro Vitória
Moradores observam estragos causados após rompimento da barragem da mineradora Samarco, no subdistrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG) - Folhapress
Dois anos após a tragédia de Mariana, moradores da região se reinventam

Daquele dia 5 de novembro de 2015, resta a lembrança da passagem de um volume de lama que trouxe até carros e caminhões pelo leito do rio Doce. Por onde passaram, os rejeitos de mineração da barragem de Fundão, pertencente à empresa Samarco, em Mariana (MG), tiraram 19 vidas, destruíram três localidades e acabaram com o ofício de muitas pessoas ao longo dos 650 km de rio.

Para retomar a vida, dois anos depois, muitos moradores dessas regiões precisaram se reinventar. Após se recuperarem do abalo psicológico e do abatimento depois da mudança na vida, um grupo de mulheres resolveu se unir para mudar de vida, por meio da culinária e do artesanato, graças a uma cooperativa.

As cozinheiras Maria Claudiana da Costa e Rosângela Santos Silva, que moram em Gesteira, no município de Barra Longa (MG), viviam do trabalho na lavoura. Com o rompimento da barragem, além de ver parte da cidade completamente destruída
– e a agricultura, não recomendada em função da passagem da lama –, elas perderam também a fonte de renda.

"Perdi todo o meu trabalho de bordado, levado pela lama na casa de uma colega em Barra Longa (MG). E, depois disso, ela não teve mais condições de trabalhar”. Adelina Coelho, 52, produtora rural

E foi com o cardápio das quentinhas que normalmente levavam para o trabalho na roça que elas ficaram conhecidas na região: feijão tropeiro com fubá torrado no lugar da farinha, torresmo, couve rasgada e ovo caipira, tudo feito no fogão à lenha.

“Não imaginávamos que a nossa comida do dia a dia faria tanto sucesso. Nossa confiança está de volta. Tínhamos um tesouro na mão e não valorizávamos. Esse é o valor da nossa comunidade, passado de geração para geração’. conta Maria Claudiana da Costa.

Outro quitute que já rendeu encomendas é o doce de leite mole, que era feito pela família somente em datas especiais, como o Natal. Ele é servido em um canudo de farinha, também feito inteiramente pelas mulheres da família, desde o molde de madeira para dar forma ao doce até a própria massa.

Segundo Mara Fantini, restauradora da Fundação Renova, o trabalho nessa região é de resgate imaterial e de valorização da cultura das comunidades afetadas pela passagem da lama.

Faz sucesso também a gelatina de cachaça, feita com a bedida de alambiques da região. E não é só a cachaça que é produzida na localidade: todos os demais ingredientes utilizados nos produtos são cultivados ali. Com o fubá, por exemplo, as mulheres de Gesteira fazem o angu tolo, uma espécie de polenta doce.

"Na hora que a lama passou, pensei que íamos ficar ainda mais sozinhos, pois já éramos isolados. Quando vi a nova ponte pronta e o ônibus passando, me emocionei, pois percebi que a minha vida voltou” 

Maria Claudiana da Costa, cozinheira, ao lado de demais participantes de cooperativa de mulheres em Gesteira (MG)

Além da culinária, a cooperativa das mulheres de Gesteira também produz colheres de pau e os mais diversos bordados.

Depois de passar por essa localidade, a lama chegou ao centro de Barra Longa, levando para o rio tudo o que tinha nas casas próximas ao leito. Em uma delas, estava todo o trabalho em bordado da produtora rural Adelina Coelho, 52. Abalada, ela não retomou a produção e agora vende produtos como biscoitos, manteiga e açúcar mascavo, além de ajudar na propriedade do marido, que tem 50 cabeças de gado.

A quase 500 quilômetros dali, já na foz do rio Doce, em Regência, Linhares, no norte do Espírito Santo, a chegada dos rejeitos de minério 17 dias depois também interrompeu uma atividade tradicional da vila: a pesca.

"Pesco desde os 15 anos e criei dez filhos como pescador. Minha atividade e meu lazer acabaram. Com o projeto de criação de tilápias, vamos mudar de profissão. Doze famílias vão voltar a trabalhar com peixe”

Leone Carlos, 70 anos, presidente da Associação de Pescadores de Regência

Com a proibição da prática na foz do rio Doce há dois anos, o presidente da Associação de Pescadores de Regência, Leone Carlos, 70, resolveu concretizar uma ideia antiga: a de criação de peixes em tanques.

No projeto, prestes a ser iniciado, 12 tanques serão usados na criação de tilápias e camarão da malásia. A previsão é de vender 300 quilos de peixe e crustáceos mensais por tanque, o que Leone Carlos — que lida com peixes desde os 15 anos — considera um alento. Além de financimento do Banco do Brasil, a piscicultura em Regência passou a ter apoio da Fundação Renova.

Cada reservatório vai ser de responsabilidade de um pescador que aceitou tocar o projeto. No total, Regência tem 96 famílias que dependem da pesca. “Não vai envolver todas as famílias, mas já é um começo. Em dois ou três meses, vamos ter peixe de cativeiro”, conta Leone.

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