Maior ciclovia do ABC pede ajuda

Faixa que liga Centro ao Pedroso desaparece em trechos sem tinta e traz insegurança em faixas conflituosas

Por Vanessa Selicani - Metro Jornal ABC
Ciclista e morador de rua na avenida Queirós dos Santos
Maior ciclovia do ABC pede ajuda

São 14h da quarta-feira e um morador de rua se esparrama na faixa vermelha observando o vai e vem na região central de Santo André. Ele está em um dos trechos mais conflituosos da maior ciclovia do ABC. Pela calçada da avenida Queirós dos Santos, ciclistas dividem espaço com pedestres a todo instante. O fluxo parece ainda não se entender, mesmo um ano e meio após a chegada da faixa vermelha.

Os riscos de acidente no uso misto da ciclovia são apenas um dos problemas encontrados pela reportagem do Metro Jornal, que percorreu os 10 quilômetros de extensão na semana passada.

A faixa cruza Santo André do Centro até o Parque do Pedroso. Ela é bastante utilizada por quem vive na periferia da cidade e precisa acessar as estações de trem e ônibus, que estão na outra ponta do percurso.

Para quem mora no Pedroso, o caminho inicial é o mais complicado. A ciclovia desaparece após o trecho de mata do parque. A tinta bastante desgastada é praticamente invisível. O percurso na estrada do Pedroso precisa ainda dividir espaço com o estacionamento de carros, que não foi extinto após a criação da ciclovia.

“Aqui ninguém respeita. Quem usa a ciclovia mesmo são as motos, para fugir das lombadas. Outro dia um menino de 14 anos foi atropelado nela por um motociclista”, conta o funcionário de uma fábrica, que pediu para não ser identificado.

Para quem vence a insegurança no Pedroso, a avenida Mário Toledo de Camargo é mais um teste de risco antes do Centro. Há muita sujeira neste trecho de via, que é o mais estreito entre os 10 quilômetros. Poucos ciclistas são vistos ali. Nem a prefeitura  parece respeitar a trajetória. Em frente ao Estádio Bruno Daniel, uma obra do município apagou a faixa vermelha.

Até chegar ao Centro, o ciclista ainda enfrenta caminho com mais pinturas em calçadas, próximo ao Carrefour, um trecho bem conservado até a Firestone e, por fim, a conflituosa Queirós dos Santos.

“Tem que ficar atento. Os ciclistas passam (na calçada da Queirós) xingando a gente. Uma amiga minha foi atropelada e se machucou. Andamos aqui porque vamos até o trem. É mais fácil”, conta a auxiliar de produção Fabiana Pereira, 28 anos, uma das pedestres que prefere se arriscar andando na ciclovia.

 

Manutenção em 2018
Apesar dos problemas, Santo André é hoje a cidade da região que mais tem vias para ciclistas. De acordo com a prefeitura, são 22 quilômetros. São Caetano afirma ter 3 quilômetros e São Bernardo, a maior em território, possui 6.

O panorama proposto por Santo André era ainda mais audacioso. A ciclovia Pedroso-Centro era parte de um projeto que previa 50 quilômetros de via no município até o fim deste ano.  A maior delas ligaria as avenidas dos Estados e Presidente Costa e Silva, com extensão total de 12,5 quilômetros.

O idealizador do projeto era o então secretário de Mobilidade Paulinho Serra (PSDB), que agora é o prefeito. Hoje no comando da cidade, a meta parece ter sido esquecida. 

Questionada pela reportagem, a Prefeitura de Santo André não informou se construirá novos trechos. Em nota, a administração municipal disse que os serviços de manutenção da sinalização de trânsito seguem cronograma já estabelecido. “No caso desta ciclovia, a previsão de manutenção é o 1º semestre de 2018”, afirma o Executivo.

Análise
‘Problema é político, não financeiro’
A diretora da associação sem fins lucrativos Ciclocidade, Aline Cavalcanti, afirma que a expansão das ciclovias foi politizada nos últimos cinco anos. O movimento para mais espaço às bikes cresceu durante a gestão do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), entre 2013 e 2016. “É uma pena que a criação de ciclovias tenha ficado taxada como de um partido, quando na verdade ela deveria ser uma política pública.”

Para a ciclista, muitas das vias exclusivas criadas nos últimos anos, como a de Santo André, estão abandonadas. “O que a gente percebeu é que priorizar pedestres e ciclistas tem a ver com vontade política, não com recurso financeiro. Muitos políticos não querem conflito com os carros”, afirmou.

Apesar do atual cenário de estagnação, Aline diz acreditar que a discussão no passado ajudou mais pessoas a optar pela bike. “A periferia sempre usou esse meio de locomoção, porque é mais barato. Mas a expansão das ciclovias fez muita gente da classe média também trocar o carro pela bicicleta.”

 

Arte bike Santo André

 

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