'Pacientes de fora de SP nos procuram', diz coordenador do projeto Redenção

Por Eliane Quinalia
Leon Rodrigues/ Secom
'Pacientes de fora de SP nos procuram', diz coordenador do projeto Redenção

Coordenador do projeto Redenção, de tratamento de usuários de crack, Arthur Guerra diz que o programa ainda não está pronto, mas sua divulgação está atraindo pessoas de fora da cidade e mesmo do Estado atrás do tratamento. Leia trechos da entrevista concedida ao Metro Jornal.

Na semana passada houve reunião de avaliação do programa. Quais etapas já foram implantadas? Quais os próximos passos?
Houve várias reuniões. O Redenção não está totalmente pronto ainda. Ele precisa ser amadurecido. Hoje temos um cenário de pessoas usando crack de forma gravíssima, nunca vi nada tão grave na medicina. Na área da saúde, precisamos oferecer tratamento a essas pessoas com dignidade, que inclua abstinência ao uso de drogas quando for da vontade do paciente, desintoxicação, internação para que a pessoa fique semanas sem contato com a droga e retorno para a família.

O que já está em ação?
Já está sendo feita a abordagem a pacientes, o encaminhamento deles aos Caps [Centros de Atenção Psicossocial], as desintoxicações e internações hospitalares. Equipes da Secretaria da Saúde vão a hospitais acompanhar esses pacientes, verificar a condição de saúde deles, se têm outras comorbidades. E a Secretaria de Desenvolvimento Social os está encaixando no programa Emprego Novo, eles saem do hospital ou do tratamento e são encaminhados a uma atividade. Mas o programa como um todo não está pronto ainda. Temos coisas para refinar.

O que falta implantar?
Existe um número razoável de  pessoas que não querem se tratar, esse é um desafio. Existe outra situação complexa: nós oferecemos o tratamento, mas, se não houver inibição da venda de drogas, nosso tratamento fica, digamos, romântico. Achamos bom quando existe inibição na venda de drogas. Precisamos do apoio da segurança, sabemos que as pessoas usam drogas, não adianta oferecermos todo o tratamento possível se elas continuam tendo acesso muito fácil a drogas.

Quais outros desafios vocês têm que enfrentar?
O programa Redenção virou referência. Quanto mais oferecemos atendimento, mais pessoas aparecem, inclusive de outras cidades paulistas e até de outros Estados. Semana retrasada chegou ao ‘fluxo’ uma pessoa com uma malinha de rodas. Perguntei de onde ele vinha, era de Vitória (ES). Depois apareceu um  rapaz com mochila, perguntei de onde era:  de Piracicaba (SP). Vêm para tratamento, acho correto, e nós somos SUS, não podemos nem devemos negar atendimento.

O programa de metas prevê a criação de 2 mil vagas para tratamento de usuários de drogas e álcool. Serão vagas em hospitais da rede ou clínicas conveniadas, para internação prolongada ou curta?
É um orgulho grande para mim e minha equipe estar no programa de metas, significa que essa gestão assumiu essa questão da Cracolândia de  forma séria. Estamos contratando leitos, já temos 270 contratados. Vamos buscar ambientes como comunidades terapêuticas para os pacientes que não tiverem comorbidades, não estiverem usando drogas. Para os com comorbidades, leitos hospitalares para tratar HIV, tuberculose, sífilis, hepatite.

Quais as etapas de abordagem aos usuários de crack pelo programa?
Nove equipes dos ‘consultórios de rua’ fazem a primeira abordagem. Cada uma delas tem nove profissionais: um médico, um psicólogo, um enfermeiro, um assistente social e cinco agentes de saúde. O primeiro contato é feito de forma amistosa, pessoal, o agente se aproxima do paciente e vai tentar manter contato visual inicialmente e em seguida conversar.

Hoje, metade não quer se tratar. Para a metade que aceita, o segundo passo é o encaminhamento ao Caps, onde um enfermeiro e o médico o examinam e oferecem a terceira etapa: você gostaria de ficar sem a droga? É uma parte importante do tratamento, a pessoa pode ser encaminhada a um serviço de saúde.

A internação é a única forma de tratamento?
Ela é uma das formas previstas. Muitos pacientes não têm quadro gravíssimo, podem seguir o tratamento via ambulatório. Há a possibilidade de lidar com paciente que não queira parar de usar droga. Então, ele é tratado seguindo o sistema de redução de danos.

Mas, nesse caso, o programa contempla tirá-lo do ambiente chamado ‘fluxo’ ou mantê-lo ali?
Eu penso que é necessário tirar do ‘fluxo’. O programa de antes [Braços Abertos] considerava a vida dele no ‘fluxo’ e ali teria a redução de danos, nós pensamos diferente. A ferramenta pode ser usada, mas com ele no ‘fluxo’ a eficácia é menor.

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