Presidente da Sabesp considera falta de água em São Paulo como "pontual"

Por Tercio Braga

Três dias após as eleições, a presidente da Sabesp, Dilma Pena, admitiu nesta quarta-feira, pela primeira vez, que algumas regiões da cidade atendidas pelo sistema Cantareira estão sofrendo com falta de água pontual.

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“Existe, sim, uma diminuição da pressão noturna que atinge, em média, 1% ou 2% da população. Quando a maioria das pessoas está em repouso, não tem porquê as redes ficarem pressurizadas como ficam durante o dia, às 14h, ao meio-dia”, afirmou.

Dilma depôs na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Sabesp da Câmara Municipal. Segundo ela, não há racionamento. “Essa é a medida mais simples para se tomar quando existe evento extremo ou de seca nos mananciais, mas a Sabesp preferiu não adotá-lo para não penalizar os mais pobres.” A presidente da Sabesp disse que a estratégia adotada pela companhia de saneamento é a mais adequada para proteger e preservar a população da região metropolitana.

Questionado sobre as declarações, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) afirmou que “nada mudou”. “O que eu disse e a situação que existia antes da eleição, eu não altero uma vírgula”, declarou.

Nesta quarta, o nível do sistema Cantareira voltou a cair, atingindo 5,6% – a pior marca da história.

O MP (Ministério Público) e o MPF (Ministério Público Federal) afirmaram ontem que a Sabesp retirou, durante todo o período de crise hídrica, mais água do sistema do que o máximo permitido por determinação da ANA (Agência Nacional de Águas) e do DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica).

De acordo com os promotores, em documento de 2004 a ANA e o DAEE estipulavam limites para a captação em períodos de seca, mas isso não ocorreu.

A alegação da Sabesp  de que a falta de água é pontual é contestada por moradores.

A reportagem do Metro Jornal percorreu nove bairros da capital. Em todos eles, moradores relataram que a interrupção no abastecimento ocorre desde abril. “Estava fazendo uma progressiva no cabelo do cliente e a água acabou. A saída foi pedir um balde emprestado para a vizinha, porque precisava retirar o resíduo do produto do cabelo do cliente”, diz Joel Costa, 45 anos, cabeleireiro, que mora no Jardim Romano.

Em nota, a Sabesp afirmou que existe diferença entre falta de água pontual, causada por motivos específicos, e falta d’água generalizada.
“Como já foi esclarecido em várias oportunidades, problemas pontuais podem ocorrer em imóveis sem caixa d’água, o que descumpre a norma nacional, ou com caixa de tamanho inadequado para a quantidade de pessoas que vivem no local, por vazamentos ou por gatos na rede que abastece a região, por exemplo”, diz a nota.

 

Análise: Recuperação do sistema levará 2 anos

O sistema Cantareira deve levar pelo menos dois anos para se recuperar, segundo especialistas ouvidos pelo Metro Jornal. Para o professor da Poli-USP José Mierzwa, se o período de chuva deste ano ficar dentro da média dos últimos dois anos, como prevê a meteorologia, há motivos para preocupação porque, em abril, quando começar a estiagem, os reservatórios estarão com nível muito baixo. “Agora o que dá para fazer é economizar e torcer para chover”, diz Mierzwa.

De acordo com a professora de ecologia da Unimep Sílvia Regina Gobbo, São Paulo está à beira de um colapso.  “Tiramos mais água do que podíamos e agora o governo depende de chuva, o que não é possível prometer”. Segundo ela, as projeções indicam que a recuperação do sistema levará pelo menos dois anos. “Principalmente no interior do Estado, a seca pode gerar, inclusive, retração econômica.”

Samuel Barreto, do Movimento Água para São Paulo, diz que a luz amarela acendeu nos sistemas Cantareira e Alto Tietê no ano passado, mas nada foi feito. “Daqui a 10 anos, o consumo de água vai ser bem maior do que hoje. É preciso olhar além da crise e rever a política de recuperação e preservação das áreas de mananciais.

 

Montagem com imagens de moradores da capital que dizem sofrer com a falta d’água sobre o solo ressecado da represa Atibainha, que integra o sistema Cantareira Montagem com imagens de moradores da capital que dizem sofrer com a falta d’água sobre o solo ressecado da represa Atibainha, que integra o sistema Cantareira

Veja relatos de moradores sobre a falta de água:

“A água acaba todos os dias às 23h. A minha cozinha, que recebe água da caixa d`água, fica ok. Já a do banheiro, que recebe água da rua…”, afirmou Ronaldo Athayde, 34, técnico em informática – morador do Imirim, na zona norte de SP.

“Há três meses, já faltava água durante todas as noites. Há uma semana, começou a faltar água durante o dia também”, afirmou Luiz Carlos, 38, aposentado – morador da Casa Verde, na zona norte de SP.

“Todos os dias, quando chego do trabalho, não tem água em casa. Só consigo tomar banho por causa da caixa d’água, mas, como ela é pequena, às vezes não sobra para fazer comida”, afirmou Filipe Franca, 24, taxista – morador de São Miguel Paulista, na zona leste de SP.

“Há dois meses falta água em casa durante a noite. Normalmente, volta por volta das 6h do dia seguinte”, afirmou Ítalo Severino, 69, aposentado – morador do Imirim, na zona norte de SP.

“Já virou normal. Depois das 21h, não tem mais água há muito tempo. Tive que tomar medidas emergenciais. Por exemplo: estou acumulando roupa suja para lavar apenas uma vez por mês”, afirmou Sérgio de Souza, 63, ajudante de obras – morador da Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de SP.

“Há dois meses, faltava água durante todos os dias. Na sexta-feira, sábado e domingo do final de semana da eleição, a água, surpreendentemente, voltou”, afirmou José Maria, 61, aposentado – morador da Casa Verde, na zona norte de SP.

“São dois problemas: depois de ficar a noite inteira sem água, ela volta pela manhã com muito cloro. Tem muita cor e cheiro, impossível de usar. Aí eu tenho que ferver e, mesmo assim, não dá pra beber”, Graciele de Moura, 24, auxiliar de limpeza – moradora da Casa Verde, na zona norte de SP.

“Falta água todos os dias há, pelo menos, dois meses. Há um mês mais ou menos  comecei a juntar água em balde e galão. Também procuro tomar banho mais cedo, para não ter risco de ficar sem água no meio”, afirmou Vanessa Furlan, 38, dona de casa – moradora da Casa Verde, na zona norte de SP.

“A água sempre acaba às 21h. Volta lá pelas 7h. Só não faltou na última semana, mas nesta segunda-feira acabou de novo e voltou só nesta terça à tarde”, afirmou Douglas Vieira da Silva, 21, ajudante de lava-rápido – moradora do Jardim das Palmas, na zona oeste de SP.

“A minha acaba de noite e tem dia que só volta umas 16h, 17h horas. Nesta terça voltou mais cedo, 14h”, afirmou Maria do Carmo, 45, vendedora – moradora do Jardim Taboão, na zona oeste de SP.

“Se eu não tivesse caixa tinha que fechar a pizzaria. Acaba 21h e só vai voltar umas 9h, 10h, depende do dia”, afirmou Cristina Maria Ribeiro, 30, dona de pizzaria  – moradora do Jardim Taboão, na zona oeste de SP.

“O duro é que, quando eu estou voltando pra casa, sempre vejo gente desperdiçando água. Aqui na comunidade eles desligam, mas nas ruas aqui perto não”, afirmou Edilson Gomes Duarte, 44, garçom – morador do Jardim Taboão, na zona oeste de SP.

“A gente já sabe que vai acabar, então se vira pra encher balde de água”, afirmou Leopoldo Couto, 62, ajudante – morador do Jardim Taboão, na zona oeste de SP.

“Não lavo o cabelo do cliente como antigamente. Hoje faço só o necessário. Muitos clientes já estão conscientes e estão vindo com o cabelo molhado. Assim a gente consegue economizar um pouco”, afirma o cabeleireiro Joel Costa, que trabalha e mora no Jardim Romano, na zona leste de SP.

“Há dois meses, a partir das 20h, já não tem água. Para tentar estocar, fico até oito dias sem lavar roupa. Durante o dia, aproveito para encher um galão de 20 litros. Também temos que tomar banho e lavar a louça só no dia seguinte”, contou a comerciante Maria do Socorro da Silva, moradora do Jardim Romano, na zona leste de SP.

“Durante o dia, guardo água em dois baldes de 50 litros. Além disso, a minha família tenta tomar banhos rápidos. Tudo isso para economizar. Acredito que o governo já deveria ter se programado há muito tempo. A situação está cada vez mais crítica”, afirmou o porteiro Gerson da Lima, morador do Jardim Romano, na zona leste de SP.

“Meu filho foi tomar banho e, de repente, acabou a água. Ele ficou todo ensaboado no banho. Foi então que percebi que tinha lavado roupa no mesmo dia e, por este motivo, a água acabou”, afirmou a diarista Eliane Guimarães, moradora do Jardim Romano, na zona norte de SP.

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