Apesar de populares, ciclovias são alvo de críticas em São Paulo

Por Tercio Braga
Prefeito tem como uma de suas bandeiras a instalação de ciclovias | Caetano Cury/Rádio Bandeirantes Prefeito tem como uma de suas bandeiras a instalação de ciclovias | Caetano Cury/Rádio Bandeirantes

Enquanto 80% dos paulistanos se dizem favoráveis à implementação de ciclovias na capital, de acordo com pesquisa Datafolha divulgada neste mês, os espaços destinados aos ciclistas tem causado indignação e sido alvo de críticas de parte dos moradores da cidade.

O prefeito Fernando Haddad (PT) estabeleceu como meta de sua gestão a implementação de 400 quilômetros de ciclovias até o final de 2015. Até agora, a cidade já ganhou 78,3 quilômetros desses espaços, e a meta é fechar 2014 com 200 quilômetros implementados.

Apoiadas, além da maioria da população, por urbanistas e especialistas em transporte urbano, as ciclovias geraram de abaixo-assinados a um boletim de ocorrência, registrado no início de agosto por moradores da região de Higienópolis e Santa Cecília, na região central de São Paulo.

O presidente do conselho de segurança de Santa Cecília, Fábio Fortes, foi um dos organizadores do “protesto” registrado no distrito policial do bairro, “para chamar a atenção da prefeitura para o problema”. Apesar de se dizer favorável à implementação das ciclovias, Fortes critica a maneira como a demarcação dos espaços foi feita.

“Há uma litigiosidade por parte da prefeitura. Não houve nenhum diálogo, nenhuma orientação. (…) É um improviso que vai causar prejuízos imprevisíveis à população da região”, afirmou Fortes.

As principais críticas dos moradores são, na sua maioria, decorrentes da retirada de vagas de estacionamento por toda a cidade. Segundo Fortes, com a troca do espaço para estacionamento de carros por ciclovias na região de Santa Cecília, comerciantes têm enfrentado dificuldades para efetuar carga e descarga de mercadorias em seus estabelecimentos. Os lojistas reclamam também que seus clientes não têm mais onde deixar seus veículos.

“Tem muito idoso, portador de deficiência física e cadeirante aqui na região. Como essas pessoas fazem para entrar e sair do carro? Pra chegar e sair de casa?”, questionou Fortes. “Não houve diálogo, ninguém viu nossas especificidades.”

Coletividade

Trecho de ciclovia inaugurado na região central de São Paulo | Rivaldo Gomes/Folhapress Trecho de ciclovia inaugurado na região central de São Paulo | Rivaldo Gomes/Folhapress

Apesar das críticas dos moradores, porém, o conceito que deve prevalecer nesses casos é o da coletividade e do benefício para um número maior de pessoas, de acordo com o arquiteto e professor do Departamento de Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP), Alexandre Delijaicov.

“Não há como implementar um projeto deste sem causar impactos individuais. (…) Se um morador ou um comerciante tem sua realidade alterada por conta disso, ele precisa arrumar uma solução. A rua é propriedade do povo. Não tem cabimento deixar carros estacionados”, disse o especialista.

O diretor de planejamento da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), Tadeu Leite Duarte, endossa a opinião do professor da USP, mas diz que a realidade pode ser adaptada em alguns casos. “Caso haja alguma solução, ela pode ser feita sem problema algum. Mas, quando não há o que fazer, sobressai o interesse coletivo e a pessoa afetada tem de se adaptar à sua nova realidade”, afirmou.

Falhas

Outra crítica apresentada são as falhas presentes em algumas ciclovias instaladas recentemente. Na via da Avenida Politécnica, na zona oeste da capital paulista, o espaço foi pintado ao redor de árvores e postes, em um trecho na calçada e, por isso, ciclistas dividem espaço com pedestres. Na zona leste, uma ciclovia foi pintada onde param ônibus do transporte urbano. Em muitos pontos não há espaço para que o ciclista deixe sua bicleta.

“As faixas sempre têm que estar à direita. Os veículos mais pesados (como os ônibus) andam à esquerda, e os mais leves à direita. É neste espaço que devem estar as ciclovias”, afirmou Delijaicov”.

Segundo Leite, a CET avalia mudanças nesses pontos, para tentar evitar que o espaço para coletivos e bicicletas conflitam. As hipóteses avaliadas são a mudança da localização dos pontos de ônibus, ou, caso isso não seja possível, fazer um contorno por trás dos pontos. Enquanto isso não ocorre, a recomendação é que as pessoas aguardem o coletivo se retirar ou desçam da bicicleta e a empurre, como pedestre, na calçada, para ultrapassar o obstáculo.

Medidas

Ciclovia na zona leste | Willian Kury/Rádio Bandeirantes Ciclovia na zona leste | Willian Kury/Rádio Bandeirantes

Seguindo orientação do secretário de Trânsito de São Paulo, Jilmar Tatto, a CET tem implementado as ciclovias seguindo os estudos feitos por seus especialistas, que, segundo Leite, por cerca de 18 meses analisaram quais pontos que receberiam esses espaços. Entre os pontos analisados estão a topografia, os pontos de ligação e interesse na região e também o impacto que a mudança causará.

De acordo com o próprio secretário, não há condição de diálogo e consulta com cada local que receberá uma ciclovia na cidade, medida que divide opiniões.

“Se fôssemos nos reunir e discutir com cada localidade, demoraríamos mais 30 anos para implementar as ciclovias e nesses 30 anos ficaríamos sofrendo pela falta de ação”, disse Leite. “Tem que ser feito. Caso seja possível alguma adaptação, que se faça, mas, do contrário, vale o bem coletivo”, afirmou Delijaicov.

Para Forte, porém, a sensação é de que a prefeitura “nega a participação popular no processo”. “É uma cortina de fumaça. Uma bandeira política. A prefeitura propagandeia as ciclovias e não fiscaliza as calçadas que estão horríveis em toda a cidade. Os problemas de verdade não são solucionados”, criticou. “Como ficam os idosos? Como ficam os cadeirantes, que tiveram seu embarque e desembarque atrapalhados? O ciclista é o ser mais importante da cidade?”

Estrutura

Projeto de ciclovia na região da Paulista | Reprodução Projeto de ciclovia na região da Paulista | Reprodução

Entre os ajustes que podem ser feitos para amenizar o impacto reclamado por moradores, a prefeitura estuda a criação de espaços destinados especificamente a carga e descarga, em áreas específicas, a no mínimo 80 centímetros de distância da ciclovia. A medida já foi adotada na Rua Coronel Xavier de Toledo em caráter experimental.

Em Santa Cecília, os moradores pedem que haja a destinação de espaços desse tipo, com tempo determinado, o que, de acordo com a CET, pode ser feito.

“Nada impede um cadeirante, um idoso, de sair do carro usando o espaço da ciclovia. Basta o motorista ligar o pisca-alerta, sinalizar, e usar o espaço só para essa operação especial. (…) Tenho certeza que os ciclistas aguardam, ou até mesmo ajudam no desembarque”, disse Leite.

A respeito das críticas sobre a falta de espaços para deixar as bicicletas, a CET afirmou que 8 mil paraciclos serão instalados em pontos da cidade, principalmente nas ligações com terminais de ônibus e outros modais de transporte.

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