Alunas de escolas públicas são alvo de bullying no Facebook

Por lyafichmann
Vítimas têm entre 13 e 15 anos | André Porto/Metro Vítimas têm entre 13 e 15 anos | André Porto/Metro

Pelo menos 40 garotas entre 13 e 15 anos estão sendo hostilizadas em vídeos divulgados no Facebook. Alunos de escolas estaduais da região de São Miguel, na zona leste, criaram um “Top 10” ofensivo contra colegas de classe.

São vídeos com o nome completo e fotos das jovens, ligando-as à práticas sexuais. As publicações foram retiradas da rede social 24 horas depois, mas o estrago já estava feito. Os vídeos foram compartilhados por mais de 150 usuários e se espalharam pela internet.

“Tiraram do Facebook, mas está no celular de todos os alunos da escola. Quando a gente passa, começam a rir e colocam a música do vídeo bem alta”, diz a adolescente C.O., de 13 anos. “Não quero mais voltar para a escola. Vão me zoar para sempre.”

Entre as trilhas sonoras dos “Top 10” das escolas Tide Setúbal, Carlos Gomes, Raul Pilla e Astrogildo Arruda está o funk “Boquinha de Aparelho”, do Mc Brinquedo, que faz referência a sexo oral.

Segundo o advogado Diego Almeida, especializado em direito digital, a divulgação desses vídeos tem agravantes nos âmbitos civil e criminal. Algumas das garotas registraram BO (Boletim de Ocorrência), mas até agora a polícia ainda não identificou nenhum dos responsáveis pela divulgação.

O cyberbullying também está afetando o cotidiano das famílias das vítimas. Em entrevista ao Metro Jornal, a avó de uma das garotas afirma que ficou “apavorada”. “Queremos que quem fez isso seja preso”, diz.

A.F., de 14 anos, afirma que soube do vídeo ao chegar na escola. “Chorei muito porque não entendi o motivo de terem feito isso. Apesar de ser vítima, acabei sendo suspensa da escola, por uma semana, por brigar com uma colega que estava me zoando.”

S.S., de 14 anos, afirma que passou a receber até ameaças de estupro no Facebook. “Se eu tivesse dinheiro, queria sair do país”. Todas as meninas reclamam da falta de apoio das escolas.

“Fomos conversar com a diretora. No começo, ela disse que ia fazer uma reunião, mas depois falou que devíamos nos dar mais valor e que o melhor era abafar o caso para não sujar o nome da escola”, diz B.R., de 15 anos, que estuda no Tide Setúbal.

Procurada pelo Metro Jornal, a diretora da escola confirma que conversou com as alunas, mas nega ter dito que queria “abafar o caso”.

A Secretaria da Educação diz que não pode responder pelo o que os alunos fazem fora do horário de aula e ressalta que o uso de celular é proibido nas escolas.   A Pasta afirmou, ainda, que fará uma reunião geral com os pais dos alunos das  escolas.

Entre os estudantes, os vídeos das “Top 10” viraram o assunto principal. E para muitos, a culpa é das próprias meninas que, segundo eles, não sabem se comportar. O jovem A.M., de 16 anos, afirma que gostou dos vídeos. “Você viu as fotos que elas postam no Facebook? São danadas”. O colega K.C., de 15 anos, diz que elas “merecem”, mas que, se fosse com sua irmã, não iria gostar.

Enquanto a reportagem conversava com as vítimas em frente ao Tide Setúbal, eles foram assediadas por quatro homens um Corsa preto. Assustadas, elas se despediram e  entraram correndo na escola.

meninas-bullying Trechos dos vídeos publicados no Facebook

Levantamento feito em 36 escolas particulares de 14 Estados do Brasil aponta que 73% dos professores já detectaram problemas de relacionamento entre alunos por conteúdos publicados em mídias sociais.  O cyberbullying é percebido por quase 64% dos educadores.

A pesquisa “Este Jovem Brasileiro”, que entrevistou 300 pais, 60 professores e 4 mil estudantes (95% entre 13 e 16 anos), foi divulgada no dia 21 de agosto, mesmo dia em que o primeiro vídeo foi postado.

Segundo 59% dos professores, os alunos não têm noção dos riscos a que estão expostos na internet. Por isso, agem na rede de forma inadequada. Para 20% dos docentes, os pais não estão preocupados com esta questão.

Entre os alunos, 37% disseram que já agiram de modo ofensivo com alguém na internet.

Análise – ‘É possível encontrar os responsáveis’*

O caso tem agravantes no âmbito civil e criminal. É um absurdo. E é possível identificar e punir os responsáveis. Se as vítimas entrarem na Justiça, conseguem, com certeza, uma indenização.

De acordo com a lei, cabe ressarcimento porque o vídeo infringe o direito do uso de imagem. Independentemente da situação, ele deve ser autorizado por quem está exposto.

No âmbito criminal, existem os crimes contra a honra, em que se enquadram a injúria, a calúnia e a difamação. No caso delas, trata-se de uma injúria, porque fere o caráter das vítimas. São ofensas vexatórias.

Existem maneiras judiciais para identificar os responsáveis por isso. Se as meninas quiserem, devem entrar com uma ação contra o Facebook, pedindo para que o juiz ordene os fatores técnicos para identificar o usuário. Em aproximadamente 30 dias será possível encontrar o responsável.

Os juízes levam em consideração fatores externos para definir o valor da indenização. A escola não pode ser responsabilizada, mas é comum que ela puna os alunos responsáveis, desde que identificados.

*Diego Almeida – Advogado especialista em direito digital

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