Tragédia de Santa Maria completa um ano e deixa lições

Por fabiosaraiva
Cartazes colados em frente à boate lembram as vítimas | Gabriela di Bella/Metro Cartazes colados em frente à boate lembram as vítimas | Gabriela di Bella/Metro

Nesta segunda-feira completa um ano da maior tragédia gaúcha. O incêndio tirou a vida de 242 jovens gaúchos que saíram à noite para se divertir em uma boate, em Santa Maria. E o que mudou depois da tragédia?

Dias após o acontecimento, familiares e amigos, tentaram encontrar os responsáveis. No Rio Grande do Sul, descobriu-se brechas nas leis que limitavam o poder de fiscalização do  Corpo de Bombeiros.

Após um ano, mudanças no funcionamento das casas noturnas tornaram-se uma exigência de toda a população gaúcha. E elas não demoraram a aparecer. Em Porto Alegre, nos meses seguintes, uma força-tarefa foi a campo, para fiscalizar e interditar dezenas de casas noturnas.

Em dezembro, foi sancionada uma nova lei estadual para prevenção de incêndios. À frente da comissão formada para elaborar as novas normas, o deputado estadual Adão Villaverde (PT) explica que a lei traz mudanças de conteúdo, de critérios, de rigor e de justiça. “Antes, para uma fábrica de gelo e uma de fogos de artifício, as exigências da lei eram as mesmas. Na nova, cada estabelecimento é exigido de acordo com o seu risco. Se possui um potencial de incêndio baixo ou alto, se recebe público ou não”, detalha o autor do projeto.

Sancionada pelo governador Tarso Genro, a lei agora aguarda regulamentação por parte do Corpo de Bombeiros, em que detalhes minuciosos serão definidos. Em caso de descumprimento, as sanções serão mais rigorosas. “Primeiramente uma advertência, depois multa, interdição e finalmente o embargo da edificação. Os bombeiros agora têm o poder de multar e interditar. Antes, eles não podiam fazer isso”, observa o deputado.

No RS, 589 locais destinados à reunião de pessoas foram interditados depois do que aconteceu na boate Kiss. Destes 589, 210 nunca mais reabriram as portas. Das 197 casas noturnas de Porto Alegre, 78 foram preventivamente fechadas. Apenas 56 estavam adequadas com o que manda a lei. Houve ainda 63 casas que sequer procuraram o Corpo de Bombeiros para tentar restabelecer suas atividades.

“Os bombeiros agora têm o poder de multar e interditar. Antes eles não podiam fazer isso”, Adão Villaverde, autor da lei

“O processo criminal está em sua tramitação regular, normal, de uma forma bastante célere, mas célere no sentido de efetivo. Não uma celeridade demasiada, mas uma celeridade que propicia que as partes proponham todas as provas que sejam necessárias”, Ulysses Fonseca Louzada, juiz da 1ª Vara Criminal de Santa Maria

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Bombeiros foram para o banco dos réus

Ao aceitar ajuda de jovens que estavam na boate, no socorro às vítimas do incêndio, a equipe do Corpo de Bombeiros também passou a integrar a lista de responsáveis pela dimensão que tomou o incidente. Foram meses de explicações. A corporação se uniu, mas também acabou no banco dos réus.

O comandante do Corpo de Bombeiros de Porto Alegre, tenente-coronel  André Krukoski, explica que a fiscalização em casas noturnas não era prioridade para os bombeiros gaúchos já que comércio, indústria e até moradias tinham maior número de casos de incêndio e de óbitos que os estabelecimentos noturnos. Após a Kiss, tudo mudou.

“Depois de Santa Maria, quase 100% das mortes passaram a ser provenientes de casas noturnas, então redirecionamos o foco de prevenção e fiscalização”, detalha o comandante.

Krukoski enfatiza a falta de poder que os bombeiros possuíam para interditar os estabelecimentos irregulares, o que a nova lei, sancionada em dezembro, altera substancialmente.

“A interdição era muito difícil. Somente era possível em casos de risco iminente de incêndio ou de desabamento, mas se tivesse os itens mínimos de segurança, a interdição já não era possível”, lamenta.

 

Vídeos de segurança passaram a ser  exibidos na capital Vídeos de segurança passaram a ser exibidos na capital | Gabriela di Bella/Metro

Placar eletrônico contra superlotação

Além das regulamentações exigidas em lei para as casas noturnas, como extintores, saídas de emergência e lotação máxima, algumas casas gaúchas inovaram para oferecer segurança aos frequentadores.

Em Santa Maria, um placar informando a quantidade de pessoas presentes nos estabelecimentos deverá ser instalado. É o que determina a nova lei contra a superlotação em casas noturnas, sancionada este mês no município. Estabelecimentos de diversão noturna com aglomeração de pessoas têm quatro meses para instalar o placar eletrônico informando a quantidade de pessoas presentes no local em tempo real.

Em Porto Alegre, casas noturnas como o “Opinião” apostaram em outras inovações. A casa buscou uma ideia utilizada nas salas de cinema e passou a exibir um vídeo no início das festas e antes de cada show, em que são mostradas as localizações dos extintores de incêndio, dos brigadistas e das saídas de emergência.

“Como as pessoas estão aguardando os shows voltadas para o palco, aproveitamos esse momento para mostrar o vídeo enquanto todos estão atentos”, conta o diretor da casa, Cláudio Favero.

 

Incêndio começou por volta das 2h30  Incêndio começou por volta das 2h30

Relembre o caso – Santa Maria em chamas

Na madrugada do domingo, 27 de janeiro de 2013, um incêndio na cidade de Santa Maria, a 300 km de Porto Alegre, chamou à atenção do Brasil e do mundo, ao provocar a morte de 242 jovens. A tragédia aconteceu durante uma festa universitária na casa noturna Kiss, quando um dos músicos da banda “Gurizada Fandangueira”, acendeu um artefato pirotécnico que encostou no teto da boate.

O fogo começou por volta das 2h30 e se espalhou rapidamente pela espuma de proteção acústica do forro, gerando uma fumaça escura e tóxica, que levou a maioria das vítimas a óbito por asfixia.

O local tinha espaço para receber até 691 pessoas, mas estima-se que, no momento do incêndio, o público era de mais de mil pessoas. A festa da noite tinha o nome de “Agromerados” e reunia estudantes dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária e Zootecnia, da Universidade Federal de Santa Maria.

Doze pessoas respondem na Justiça pelo caso. No processo criminal, são réus os dois sócios da boate e dois músicos da banda, entre eles o vocalista, responsável por acender o artefato no palco. No processo militar do Corpo de Bombeiros, são mais oito réus. Até hoje ninguém foi condenado pela tragédia. Todos respondem em liberdade.

 

Cinco associações reúnem familiares e amigos após um ano da Kiss

Para refletir sobre a maior tragédia da história do Rio Grande do Sul, a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria realizou o 1o Congresso Internacional Novos Caminhos, no final de semana, em Santa Maria. Ao longo do ano, cinco entidades foram formadas por familiares das vítimas em busca de apoio mútuo. Acompanhe.

1) Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria
“No sétimo dia de falecimento dos nossos filhos, eu estava na igreja e me deu uma vontade enorme de falar, então eu disse para as pessoas que nós poderíamos criar algo para unir os familiares.”
Adherbal Ferreira, pai de Jennefer Ferreira, 22 anos

 

2) Santa Maria do Luto à Luta
“‘Luto à Luta’ foi um movimento criado por pais na época que abriram a CPI da Câmara Municipal de Vereadores para apurar possíveis irregularidades da administração. Começamos a acompanhar o trabalho e vimos que os vereadores estavam fazendo aquilo tomar uma trajetória totalmente errônea e nós, como pais, nos sentimos na obrigação de fazer algo para tentar reverter aquela situação.”
Flávio da Silva, pai de Andrielle da Silva, 22 anos

 

3) Para Sempre Cinderelas
“A minha filha e as amigas faziam um serviço em creches, tratavam crianças carentes, arrecadavam coisas para levar lá. As meninas faziam as entregas sempre no anonimato. Depois da tragédia ficaram doações e a gente ficou sem saber o que fazer por causa do acontecido. Estávamos os pais reunidos para um dar apoio ao outro e surgiu a ideia de dar continuidade àquilo que as meninas faziam.”
Flávio da Silva, pai de Andrielle da Silva, 22 anos

 

4) Associação Ahh… Muleke!
“A Associação é composta por famílias de quatro jovens e tem um caráter social. O nome era uma frase que o Vinícius sempre falava, foi criada para homenagear ele, mas estamos abertos, convidamos outros pais. Mesmo nos momentos mais difíceis ele sempre dizia: ‘Ahh… muleke, o show não pode parar.’ A gente não tem o direito de ficar parado.”
Ogier Rosado, pai de Vinícius Rosado, 26 anos

 

5) Mães de Janeiro
“O movimento foi criado um dia que a gente foi fazer um protesto. Reunimos umas mães e criamos ‘As Mães de Janeiro’ para fazer esses protestos, dar apoio umas às outras. A gente faz a limpeza da frente da boate, faz as cestas básicas. Não conseguimos nos reunir muito seguido ainda, mas queremos criar um movimento ainda maior.”
Jaqueline Malezan, mãe de Augusto Gomes, 18 anos

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