O triunfo das nulidades

Por fabiosaraiva

diego-casagrandeA garota tem 12 anos e é muito inteligente e estudiosa. A nota que predomina em provas e no boletim é o 10. No entanto, há alguns dias ela foi flagrada colando junto aos colegas de turma. Tirou zero na prova e foi repreendida pela escola. Surpresos, os pais deram uma dura e ela relatou: “Na verdade, eu estava passando cola. Na minha turma quase todo mundo cola. Eu era uma exceção. Já estavam rindo da minha cara e me excluindo dos grupos no recreio. Tem muita gente que tira nota baixa. Ou eu ajudava alguns ou minha vida na turma iria se tornar um inferno” revelou ela, que demonstrava arrependimento. Os pais, se por um lado ficaram solidários com a filha, por outro ficaram absolutamente preocupados com o destino e as escolhas que ela fará daqui para frente.

Na semana passada escrevi aqui sobre a abdicação da capacidade de pensar, abordada pela filósofa Hannah Arendt em seus estudos. Quando isso acontece, o cidadão se anula perante o pensamento majoritário ou o próprio poder institucionalizado. Há nisso algo de muito perverso que já chegou, por vias tortas, às salas de aula brasileiras. Por razões culturais históricas e pregação ideológica contundente, ser vencedor no Brasil de hoje desperta inveja. Ser o melhor na sala de aula não é muito diferente.

Em nosso país somos ensinados a acreditar desde sempre que se alguém não deu certo na vida, se alguém não consegue chegar ao pódio, sempre existe um culpado, um responsável. E o culpado é, pasmem, quem chegou ao pódio, o vencedor. A tal “culpa da sociedade” pelas mazelas que assolam o mundo e países em desenvolvimento como o nosso.

Houve pressão, claro, mas a garota também se sentiu legitimada a dividir seus conhecimentos – de forma condenável – para alguns colegas de turma. Ao ser a melhor, a mais destacada em um grupo social que não valoriza o mérito, ela acabou punida e excluída. Para se reabilitar fez o que fez, levando malandros nas costas, até que foi descoberta. Há também um baixo padrão ético e moral que assola parte considerável da sociedade brasileira em todas as camadas sociais. Se o negócio é levar vantagem a qualquer custo, quem não entra no esquema acaba passando por trouxa.

De tanto ver triunfar nulidades e a desonra, teremos vergonha de ser honestos, profetizou Rui Barbosa. Estamos chegando lá.

Diego Casagrande é jornalista profissional diplomado desde 1993. Apresenta os programas BandNews Porto Alegre 1a Edição, às 9h, e Ciranda da Cidade, na Band AM 640, às 14h.

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