Depósitos e retiradas no banco da praça

Por fabiosaraiva

 

rubem-penzQual é uma das primeiras lembranças que vem à memória quando escutamos a palavra fofoca? A imagem de alguém segredando a outro e, na expressão de ambos, o misto de prazer e espanto. Clima de conspiração pairando no ar: quanto mais inusitado, maior será o rubor nas faces. Porém, o interessante é que se imputa a pecha de fofoqueiro mais a quem fala e menos a quem ouve. Perde-se a noção de que o real fuxico é igual a transação bancária: para passar valores adiante, antes, houve um depósito.

Deve ser a razão de toda fofoca começar com uma pergunta: sabe o que fez o Fulano? Minha teoria é a de que todo fofoqueiro deseja mais receber informações do que passá-las adiante. Afinal, sem novidades não há fluxo. Quando o intrigante pergunta antes de informar, mesmo desejando passar para frente o que sabe, sua estratégia é a de criar uma dívida. Deixar o interlocutor com o compromisso de dar alguma notícia em troca. Assim, mesmo depois de desembolsar conteúdo, ainda sair com lucro.

E a quem o fofoqueiro mais gosta de passar adiante sua notícia? Para aquele que devolverá com juros. Seu ideal é contar uma pequena parte da história e colher o restante da trama, em detalhes. Detalhes sórdidos, de preferência. Cabeludos. Escabrosos. Dar a sorte de topar com alguém que tenha informações privilegiadas e nenhuma discrição. Ou chegar com algo meio sem graça e receber na troca uma verdadeira bomba. Atirar no que ouviu e acertar no que sua orelha não alcançava.

Na mesma lógica, seu desespero é topar com um caloteiro. Quem logo fica excitado em saber o que teria acontecido, mas, na hora de devolver, cala-se. É um desinformado, um alienado, um pulha que tomou a informação e não foi capaz de retribuir minimamente. O que justifica minha teoria: fofoqueiro gosta mesmo daquilo que desconhece. Usa seu capital de giro apenas para fazer render dividendos. É um agiota. E sabemos o destino de quem deixa um agiota em maus lençóis: fará de tudo para punir o embusteiro. Quem sabe fazendo uma fofoca a seu respeito…

Nesse verdadeiro banco da praça, onde informação vale muito, temido é apenas aquele que quebra corrente. O amigo dos desmentidos, o desconfiado, o destruidor de especulações. Esse, não só deixará de passar adiante, como retirará o valor do que o fofoqueiro trazia como precioso. Um segredo: quem quebra a corrente do fuxico é, necessariamente, uma pessoa bem informada. O que ela não é, então? Simples: fofoqueira.

Rubem Penz é escritor, músico, publicitário, baterista e compositor. Autor de “O Y da questão e outras crônicas” e coordenador da oficina literária Santa Sede. Seu site é rubempenz.net

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