Pesquisa da USP descobre como impedir estresse de causar cabelos brancos

Por Metro Jornal com Agência Fapesp

Você já parou para notar como algumas pessoas ganham cabelos brancos muito cedo? Em grandes cidades como São Paulo, é comum ver jovens adultos em seus 20, 30 anos com vários fios claros na cabeça. Às vezes, depois de um período estressante em nossas vidas, podemos nos deparar com uma cabeleira grisalha que, há pouco tempo, não costumávamos ter.

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Isto é porque não apenas a idade ou a genética influenciam na rapidez com que nossos cabelos perdem sua coloração: o stress também pode nos render uma cabeça branca. Mas como?

Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), da Universidade de São Paulo (USP) investigaram como funciona o processo de embranquecimento dos fios através do estresse agudo.

“Há muito se diz que o estresse faz o cabelo ficar branco. Mas, até o momento, essa afirmação não tinha base científica. Comprovamos neste estudo que o fenômeno de fato ocorre e identificamos os mecanismos envolvidos. Além disso, descobrimos uma forma de interromper o processo do branqueamento por estresse”, revela Thiago Mattar Cunha, integrante do CRID, à Agência Fapesp.

A pesquisa foi conduzida em parceria com a Harvard University, sob coordenação da professora de Biologia Regenerativa Ya-Chieh Hsu. Os resultados acabam de ser divulgados na revista científica internacional Nature.

Mattar Cunha explica como a descoberta surgiu. "Fazíamos um estudo sobre dor em camundongos da linhagem Black-C57, cuja pelagem é negra". Após aplicar durante semanas uma toxina que induzia uma sensação de dor intensa no animal, obteve-se uma mudança inesperada: "um aluno de doutorado observou que os animais estavam com os pelos completamente brancos”.

O experimento foi repetido algumas vezes, até que o grupo da USP se convenceu de que o embranquecimento dos fios havia de fato sido causado pela aplicação da substância.

Sistema nervoso
O cientista explicou que o sistema nervoso simpático guarda uma relação íntima com o estresse. Essa divisão do sistema nervoso autônomo – composta por inervações que correm ao lado da medula espinhal – controla as respostas do organismo a situações de perigo iminente.

Por meio de uma onda de adrenalina e cortisol, o sistema nervoso faz o coração bater mais rápido, a pressão arterial subir, a respiração acelerar e as pupilas dilatarem, entre outros efeitos.

“Depois de injetarmos a toxina nos camundongos, tratamos os animais com um anti-hipertensivo capaz de inibir a neurotransmissão. Observamos que o processo de embranquecimento capilar foi bloqueado pelo tratamento”, pontua Thiago Mattar Cunha.

Em outro experimento, a neurotransmissão foi interrompida pela remoção cirúrgica das fibras simpáticas dos roedores. Também nesse caso, a despigmentação capilar não ocorreu nas semanas que seguiram o procedimento para indução da dor.

Estudo em Harvard
Durante um período como professor visitante na universidade norte-americana, Thiago Mattar Cunha descobriu que um grupo de Harvard havia feito descobertas parecidas com a pesquisa brasileira.

Àquela altura, os pesquisadores já sabiam que o estresse associado à dor, de algum modo, causava nos camundongos o “amadurecimento” precoce das células-tronco melanocíticas existentes dentro do bulbo capilar. São elas as responsáveis pela geração de células produtoras de melanina (melanócitos), pigmento que colore os fios.

“Quando somos jovens, essas células encontram-se em um estado indiferenciado, como todas as células-tronco. À medida que envelhecemos, vão gradualmente se diferenciando e, quando o processo se completa, param de produzir os melanócitos. Demonstramos que uma ativação simpática intensa faz com que o processo de diferenciação progrida muito mais rapidamente. Ou seja, em nosso modelo, a dor acelerou o envelhecimento das células-tronco melanocíticas”, explica o cientista.

“O impacto prejudicial do estresse que descobrimos está além do que eu esperava”, afirma a docente Ya-Chieh Hsu, coordenadora do grupo em Harvard, à Agência Fapesp. “Depois de apenas alguns dias, todas as células-tronco melanocíticas foram perdidas. O dano é permanente”, acrescenta a professora.

Bloqueando o processo
Segundo os pesquisadores, a descoberta chama atenção para efeitos colaterais negativos de uma resposta evolutiva protetora. “O estresse agudo, particularmente a resposta de luta ou fuga, é tradicionalmente visto como benéfico para a sobrevivência de um animal. Mas, neste caso, o estresse agudo causou o esgotamento permanente das células-tronco”, enfatiza à Agência Fapesp Bing Zhang, pós-doutorando no laboratório de Hsu e primeiro autor do artigo.

Quando os pesquisadores repetiram o procedimento para indução da dor e, ao mesmo tempo, trataram os animais com um inibidor da enzima CDK, observaram que o processo de diferenciação da célula-tronco melanocítica foi prevenido, assim como o embranquecimento dos pelos.

“Esse dado indica que a enzima CDK participa do processo e pode, portanto, ser um alvo terapêutico futuramente. Se algum dia esse alvo vai chegar a ser usado na clínica ainda é cedo para saber, mas vale ser mais bem explorado”, afirma o pesquisador.

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