À moda da casa? As receitas brasileiras creditadas a outros países

Por Eduardo Ribeiro e Wilson Dell’Isola - Metro São Paulo

“A culpa é minha e eu coloco em quem quiser”, já disse Homer Simpson. E é mais ou menos isso que nós fizemos aqui no Brasil com várias comidas que compõem parte da nossa cozinha: criamos e atribuímos a outros povos. Na verdade, os gentílicos, também chamados de adjetivos pátrios, são usados para identificar a origem das coisas. Só que em muitas das vezes o negócio não existe no país em questão. Então pegue um pedaço de torta holandesa – que não tem na Holanda –, uma xícara de soda italiana – jamais vista por lá – e conheça algumas das lendas criadas por essa  globalização gastronômica.

Pão francês

O nosso pãozinho francês, que em algumas regiões é chamado também de pão de sal ou cacetinho, simplesmente não existe na França. A “confusão” começou no início do século 19. Na época, o pão comum no país era um com miolo e casca escuros. Só que, quando a elite do Brasil, que era recém-independente, viajava a Paris, voltava descrevendo o pão do lugar – a baguete – aos seus padeiros, que tentavam reproduzir a receita. E dessa gastronomia oral nasceu o que podemos chamar de pão francês brasileiro.

Pão Francês Arte: Priscila Belavenute

Palha italiana

Genuinamente brasileiro. Assim pode ser descrito o famoso doce feito com brigadeiro e pedaços de biscoito. Ou você acha que os italianos inventariam uma receita feita com ingrediente de dulçor tão elevado como o brigadeiro, surgido no sul do Brasil? É inclusive daquelas bandas que vem também a palha italiana, chamada assim porque se trata de uma espécie de releitura do doce italiano salame di cioccolato (salame de chocolate). O original é feito com massa de chocolate, manteiga e ovos, acrescido de pedaços de biscoito, nozes, amêndoas e avelãs. Por aqui, demos aquela simplificada: trocamos a massa e utilizamos somente os pedaços de biscoito para o toque especial.

Palha Italiana Arte: Priscila Belavenute

Paleta mexicana

No México, não existem picolés iguais às “paletas” que vemos aqui, em receitas como morango com recheio de leite condensado. Lá, a original é vendida nas ruas e é feita só de fruta e água ou leite. As variedades mais populares são flor de hibisco, tamarindo, queijo com frutas vermelhas e arroz com leite. Essa coisa de rechear o sorvetão com brigadeiro foi ideia nossa e faz com que a paleta deixe de ser vista como tal pelos mexicanos. É como se chegássemos ao México e de repente encontrássemos uma “coxinha brasileira” com recheio de feijão ou guacamole.

Paleta Mexicana Arte: Priscila Belavenute

Sorvete napolitano

O sorvete napolitano não reproduz direito as cores da bandeira da Itália (vermelho, branco e verde) e muito menos é tradicional na cidade de Nápoles. Esse nome apenas vem do fato de que foi um napolitano, vivendo nos Estados Unidos, quem criou a mistura: morango, creme e chocolate. A intenção era mesmo homenagear a terra natal, porém o colorante verde causou alergia em alguns consumidores. Decidiu trocar pelo chocolate. Aí ficou assim mesmo, capisce!?

Sorvete Napolitano Arte: Priscila Belavenute

Arroz à grega

Não adianta ir para Atenas ou Mykonos com o desejo de comer um “autêntico arroz à grega”. Por um motivo simples: não existe lá nas terras de Aristóteles. Mas, descobrir a origem do prato, que no Brasil é muito popular, é praticamente um exercício de filosofia. A palavra “arroz” pode até ter origem grega (oryza), mas o modo de preparar, geralmente com ervilha, cenouras e passas, não é. O que se sabe é que a culinária do país preza pelo grande número de ingredientes, que geralmente resultam em pratos coloridos, como… o nosso arroz à grega. Ah, o churrasquinho grego, sim, existe. Mas não vem acompanhado com suco artificial.

Arroz à Grega Arte: Priscila Belavenute

Lanche americano

Este famoso lanche de padoca surgiu em nossas terras tropicalientes, nos anos 1940, quando os donos da lanchonete Salada Paulista, em São Paulo, se propuseram a incrementar o misto-quente, outra criação da casa, que já fazia sucesso. Daí, acrescentaram alface, ovo e bacon. O “americano” do nome faz menção à dupla de ovo e bacon, combinação que é a cara do café da manhã na terra do Tio Sam. Engraçado é que, tempos mais tarde, o bacon deixaria de fazer parte da receita.

Lanche Americano Arte: Priscila Belavenute

Bife à parmegiana

Apesar de atribuirmos o famoso bife à milanesa – esse sim de Milão mesmo – com molho e queijo a Parma, na Itália, a cidade não tem nada a ver com isso. Ele é, na verdade, resultado da influência italiana sobre a culinária paulista. Não há registros de quem seja o consagrado autor desta proeza, mas reza a lenda que o nome se deu pelo uso do parmesão, que aí sim é um queijo oriundo lá da cidade. Outros atribuem ao fato de, pelo menos entre os italianos – e há muitos por aqui –, o termo parmegiana ser usado para coisas feitas em camadas.

Bife à Parmegiana Arte: Priscila Belavenute

Pizza portuguesa

No Brasil surgiram várias versões de pizza jamais vistas no resto do mundo. Uma delas, inclusive, ganhou o nome só por ter sido supostamente inventada por um português que morava aqui. Daí que, em vez de se chamar “pizza do português”, virou “pizza portuguesa” mesmo. Conta-se que quando os primeiros imigrantes italianos chegaram, eles tinham o costume de assar os discos nos fornos das padarias portuguesas. Um tal portuga, muito do criativo, teria aproveitado a deixa e criado uma cobertura com ingredientes disponíveis no mercado local: ovos, cebola, azeitona, ervilha, queijo e presunto. Brasilzão afora, existem combinações ainda mais turbinadas. Mas que faz sucesso, faz, ó pá!

Pizza portuguesa Arte: Priscila Belavenute

Gentílicos: a regra!

Também conhecidos como adjetivos pátrios – quando usados na condição de adjetivo –, os gentílicos são uma classe de palavras que definem algo de acordo com o seu local de origem. Segundo sua etimologia, o termo vem do latim “gentilitius” que por sua vez provém de “gens”, que significa família ou tribo.

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