Você foge da tristeza?

Doces, drogas, bebidas e séries podem trazer alívio emocional, mas apenas momentaneamente

Por Carolina Senna

Acontece aquela situação inesperada (ou indesejada), vem um incômodo, às vezes raiva…depois vamos caindo no desânimo até que bate a tristeza. Esse pode ser um dos caminhos internos emocionais para se acessar o sentimento de tristeza, mas não é o único. Cada um tem sua forma particular de chegar a ela. Existem inúmeras maneiras de lidar com o sofrimento, mas uma bem comum é a de buscar o alívio. Em outras palavras, a fuga.

Quando começam os incômodos, a mão nervosa pega o celular e vai para alguma rede social se distrair. Quando o sentimento aperta, tomamos um vinho, um chope… (preencha a lacuna com sua opção preferida) ou caímos naquela comida gostosa, no famoso chocolate, quem sabe…

Por que descontamos nossa tristeza na comida?

Vários dos alimentos campeões de alívio emocional, como doces, massas, bebidas e queijos, são chamados de opioides (sim! De onde também vem a palavra ópio). Essas comidas contém substâncias que alteram temporariamente as funções do nosso cérebro, nosso humor e nossa percepção das situações. São alimentos que estimulam as mesmas regiões que são ativadas por drogas mais pesadas, dando a sensação de alívio e prazer imediatos.

Fazemos a primeira vez, aquele sentimento ruim dá uma folga para o nosso corpo, que é programado para buscar o prazer. Então fazemos de novo, mais essa vez e novamente…até que vira um vício alimentar.

Filmes e séries tão populares hoje em dia também trazem essa fuga da realidade e dos sentimentos. Ao nos transportarmos para a narrativa, muitas vezes colocamos para fora algumas emoções através do personagem com o qualnos identificamos. Choramos, sentimos raiva, medo…e, de certa forma, isso alivia nosso estado mental. Além disso, por algumas horas nos esquecemos dos nossos desafios pessoais, das nossas dores e dificuldades que aquela situação ou incômodo trouxeram.

Conta corrente emocional

A vida segue e acreditamos que assim dá pra aturar, seguir o barco. O que esquecemos é que tem uma conta corrente emocional sendo reabastecida cada vez que nos distraímos e fugimos dos sentimentos. Explico melhor: as situações que mais nos incomodam, em geral, acontecem por ativar dores anteriores. Em determinado momento da vida, em geral na infância, você “se machucou” emocionalmente e isso ficou guardado em você. Quando acontece algo que desperta sentimentos similares ao que vivenciou naquele momento original, aquele machucado dói novamente.

Vou dar um exemplo: na escola, você viveu alguma situação de rejeição que te marcou. A partir dali, situações que te lembrem rejeição despertam emoções similares ao que vivenciou naquela época, só que com o acúmulo de todas as rejeições similares que você passou ao longo da vida.

Então, se o abandono é algo que você teme e, por exemplo, recebe uma crítica negativa no trabalho, sua mente pode categorizá-la como rejeição às suas ideias ou até uma possível rejeição maior, como uma demissão. Você automaticamente se sente mal e daí podem derivar o medo, a frustração, a raiva ou até a reatividade. Você nega a situação, diz que o outro está errado, pois não quer se aproximar da crítica, já que ela te leva para um caminho muito triste para você, que é o da rejeição.

Ainda seguindo com nosso exemplo: digamos que, nesse dia, você vai pra casa mal, chega lá e pensa: Foi um dia difícil! Mereço um drink, um bolo, isso ou aquilo… Com esse mecanismo, vem o alívio. E, no dia seguinte, você pode retornar melhor, ou vai seguindo com outras coisas que te dão prazer, até que esquece a situação e passa para outra.

O que aconteceu é que você alimentou a conta corrente da rejeição dentro de você. Aquele machucado que vem desde a infância não teve oportunidade de ser reconhecido e tratado. Ele, na verdade, cresceu e agora a rejeição é ainda pior, ela pode levar à demissão, que pode ativar outros medos ligados até ao instinto de sobrevivência, sustento etc.

Os riscos de não viver a tristeza

Pra quem não sabe, hoje a Organização Mundial de Saúde considera a depressão uma epidemia global. São mais de 300 milhões de pessoas, em todo mundo, diagnosticadas com a doença. Mas o número é muito maior, pois um dos pontos chave da depressão é que, muita vezes, não é reconhecida até por profissionais de saúde. E pessoas comuns confundem com tristeza, desânimo e até frescura.

Existem inúmeras raízes para a depressão e ela pode ser explicada até do ponto de vista químico do corpo. Mas uma das causas que ressalto é a seguinte: são dores guardadas durante anos. Machucados emocionais que foram crescendo, sendo alimentados nos pequenos ou grandes desafios do cotidiano, até que uma situação extrema traz o estopim.

No exemplo que dei aqui, essa pessoa pode encarar uma demissão ou uma rejeição amorosa e isso ser, literalmente, a gota d’água para o machucado estourar. A partir desse ponto, aquela tristeza guardada, aquelas dores de anos, não conseguem mais voltar pro casulo. E você mergulha no que hoje reconhecemos com depressão. O objetivo desse artigo não é falar especificamente da depressão, mas mais do que acontece antes dela. Se quiser identificar os primeiros sinais de depressão, veja aqui.

Como não entrar nessa armadilha?

Um dos principais caminhos para identificar essas dores originais e limpar aos poucos seus machucados, antes desvirarem grandes problemas é o autoconhecimento. Palavra grande que retrata um processo longo e quase um estilo de vida pautado em se “re-conhecer” constantemente e voltar ao amor-próprio. Falo em “re-conhecer” com essa grafia, pois esse caminho envolve a identificação e o reconhecimento de algo que somos e nunca paramos pra pensar. Mas também traz descobertas das próprias facetas que não estavam às claras.

Partes nossas que escondemos de nós mesmos por serem doídas ou inconscientes. Ainda no exemplo anterior, a pessoa em questão pode ser reativa a críticas e isso fazer com que ela acabe se tornando perfeccionista na profissão, se desgastando, trabalhando além do necessário. Em muitos casos, esses excessos podem levar a quadros de estafa mental e física. Essa pessoa não faz por mal, pelo contrário, sua motivação aparente é de crescer/melhorar/evoluir. Mas no inconsciente, o que a está movendo é o medo da rejeição.

Então, quando falamos em autoconhecimento, muitas vezes parece meio abstrato e distante, pois, como falei, é quase um estilo de vida. Aproveito e trago aqui vão algumas dicas práticas para te ajudar a lidar com as tristezas e incômodos da vida:

1 – Reconheça que você pode se sentir triste

Uma das motivações para buscarmos a fuga dos sentimentos é a percepção de que estamos errados. De que todas as outras pessoas estão bem ou pelo menos a maioria está. Recentemente escrevi um post no meu perfil do Instagram sobre isso, em que lembro às pessoas de não compararem seu interior ao que vêem nas redes sociais. Afinal, se fosse diferente não viveríamos uma epidemia de depressão mundial. Então, para começar reconheça que você é normal e que pode se sentir assim.

 

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2 – Valide seu sentimento

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3 – Faça uma harmonização interior

Se estiver difícil de lidar com o sentimento, uma forma simples de harmonizar o interior é fazer uma meditação guiada. Gravei essa de limpeza energética, justamente para esses momentos e você pode ouvir aqui. Outra opção é fazer exercícios de respiração profunda que ativam a as terminações nervosas da base do pulmão e mandam o sinal para o cérebro de que seu sistema nervoso pode se acalmar. Para isso, basta inspirar profundamente, levando o ar primeiro para a região do umbigo, depois preencher até o peito e soltar lentamente. Faça por 10 vezes pelo menos.

4 – Busque uma terapia

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Alguns que eu particularmente já fiz e recomendo são: sessões de aromaterapia, limpeza com radiestesia, body talk, reiki, constelação familiar e até acupuntura. Na primeira sessão você perceberá se é algo pontual ou se vai precisar de mais alguns encontros para trabalhar aquela questão. A escolha é sua, afinal é o seu caminho de autoconhecimento.

5 – Recolha-se no sentimento (aceite o luto)

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Permitir sentir a tristeza, chorar, ficar deitada, não fazer nada, ficar só… ir para algum lugar em meio a  natureza. Quando vivemos essas tristezas, temos medo de entrar em depressão e queremos logo sair disso, mas é um luto necessário. Um choro guardado de anos que precisa sair. É normal.

Sabedoria ancestral

Os antigos celtas relacionavam períodos do ano a oportunidades interiores. No inverno, por exemplo, era visto como um momento de recolhimento. Época de olhar pra dentro e até permitir que a tristeza venha. Sabendo que ela precisa ser vivida e sentida para não alimentar aquela conta corrente emocional nociva.

Estamos no mesmo barco

Por aqui, vivi dias como esse recentemente e senti tudo que as pessoas relatam. Achei que estava entrando em depressão e tive vários sentimentos misturados. Me senti perdida e com medo do futuro. Mas a cada dia acolhi o sentimento que vinha à tona e mantive minha rotina de meditação e fiz muito auto-reiki. E foi num processo terapêutico profundo que acessei o centro dessa minha questão. Depois de alguns dias de acolhimento, ir ressurgindo melhor. Não porque não estava mais com os sentimentos ruins, mas porque estava começando a liberar os machucados originais que me foram tocados quando a situação externa aconteceu.

Por isso, não falo em tese. Falo por experiência, vivência. Abrace a tristeza e os muitos invernos que surgem ao longo do ano. Permita-se sentir e curar as dores essenciais que podem estar te bloqueando de viver uma vida mais espontânea, livre e feliz.

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Carolina Senna

Sócia-fundadora do Personare e diretora da empresa há 14 anos. Nesta trajetória, passou a entender a fundo as causas e consequências dos grandes males da "vida moderna", como estresse e depressão.

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