Por que um "jejum tecnológico’ deveria estar entre suas resoluções de Ano Novo

No Brasil, as pessoas chegam a ficar nove horas por dia conectadas à internet. Um terço tempo é usado nas redes sociais.

Por Pablo Uchoa - BBC World Service

Nós todos sabemos que cenouras e brócolis são bons para a saúde, mas você passaria um dia inteiro só comendo isso? Qualquer coisa em excesso pode ter efeito negativo, mas nós frequentemente nos sentimos bem quando usamos equipamentos de tecnologia.

Em um dia normal, os usuários de internet gastam em média seis horas e meia online, segundo levantamento feito em 34 países pela empresa de dados GlobalWebIndex.

No Brasil, por exemplo, assim como na Tailândia e nas Filipinas, as pessoas chegam a ficar nove horas conectados, segundo a pesquisa.

Um terço deste período é gasto apenas em redes sociais.

Mas, com tanto tempo de uso, o que a tecnologia pode causar ao nosso cérebro? O impacto à saúde física e mental já foi objeto de diversos estudos científicos.

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Shimi Kang é um dos principais especialistas canadenses em saúde mental de crianças e adolescentes. Seu foco de estudo são os vícios.

"A tecnologia está cada vez mais ligada a problemas como ansiedade, depressão e distúrbio de imagem corporal. Distúrbios provocados por vício em internet se tornaram um diagnóstico médico comum", disse à BBC.

Mas, assim como há diferentes tipos de comida, existem também vários tipos de tecnologia – e, se nós quisermos ter uma relação saudável com eles, precisamos entender seus impactos em nosso cérebro e em nossa saúde.

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Como o cérebro reage à tecnologia?

Kang diz que o cérebro "metaboliza" a tecnologia, normalmente liberando seis diferentes tipos de substâncias neuroquímicas no corpo: serotonina, endorfina, ocitocina, dopamina, adrenalina e cortisol.

Portanto, nem toda experiência com tecnologia é a mesma.

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Tecnologia tóxica e lixo

"Tecnologia saudável é algo que poderia dar a nós um metabolismo com serotonina, endorfina e ocitocina", diz Kang.

Alguns exemplos são aplicativos de meditação, criatividade e de conexão de pessoas – esses nos ajudam a conhecer outras pessoas.

"Digamos que exista um aplicativo de criatividade e seu filho ame fazer vídeos com ele. O problema é que as pessoas passam seis, sete horas por dia fazendo isso. Um aplicativo como esse não seria uma coisa ruim, como Candy Crush, porque ele liberaria dopamina. Mas você precisaria tomar cuidado para não passar dos limites", diz Kang.

A especialista argumenta que a "tecnologia junk" só ajuda a autodestruição. Ela compara esse tipo de ferramentas com "junk food", que comemos normalmente quando estamos estressados.

"Eu diria que são como as coisas tóxicas com as que devemos nos preocupar: pornografia, cyberbullying, videogames viciantes projetados como máquinas caça-níqueis, ou mesmo se envolver com discursos de ódio."

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Dieta tecnológica

Segundo Kang, para dar certo, uma pessoa que faça dieta tecnológica saudável deve se manter longe de qualquer ferramenta "tóxica". Ela diz, no entanto, que é possível furar o regime de vez em quando, desde que seja com moderação.

Funciona como uma dieta comum. Todos nós somos aconselhados a evitar alimentos processados ​​e bebidas açucaradas, mas geralmente damos um desconto e comemos uma pizza ou pipoca em uma noite de sexta-feira.

Da mesma forma, não há muito problema em olhar o Instagram de vez em quando ou ficar alguns minutinhos jogando videogame, diz a especialista.

Por outro lado, se você é diabético ou tem propensão a ter a doença, seu médico terá uma recomendação mais rigorosa sobre controlar o consumo de açúcar.

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O mesmo vale para a tecnologia, diz Kang.

"Se sua família tem pessoas com histórico de vícios, ansiedade, depressão ou problemas de administração do tempo, por exemplo, é melhor tomar cuidado, porque você tem mais chances de se converter em um dependente de tecnologia tóxica", diz.

Os adolescentes, em particular, são mais vulneráveis ao vício tecnológico e já existem pesquisas suficientes para identificar quem tem mais propensão a ter problemas online.

'Detox digital'

O acesso à internet e os smartphones ainda estão se expandindo pelo mundo, mas já parece haver certa resistência ao estilo de vida constantemente conectado.

Segundo a GlobalWebIndex, 7 em cada 10 usuários de internet no Reino Unido e nos Estados Unidos dizem já ter adotado alguma "dieta" ou uma "desintoxicação digital completa".

Esse "detox" passa, por exemplo, por excluir alguma conta em rede social ou mesmo deletar aplicativos com o objetivo de gastar menos tempo online.

"O uso da tecnologia precisa levar em conta todas as nossas necessidades básicas", diz a especialista Shimi Kang. "Nós precisamos dormir oito ou nove horas por noite, fazer exercícios físicos diários, nos movimentar, nos alongar, sair e tomar alguma luz natural."

"Mesmo que você use o melhor da tecnologia, ferramentas não tóxicas, se você estiver fazendo isso em detrimento de outras atividades humanas básicas, então você tem um problema", adverte.

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