Por que o cientista chinês que diz ter editado genes de bebê causou revolta entre pesquisadores

Alegação de geneticista chinês gera dúvidas e controvérsia na comunidade científica.

Por Por Michelle Roberts - Editora de Saúde da BBC News

Um pesquisador chinês levantou dúvidas e repulsa na comunidade científica ao afirmar ter trabalhado na criação de bebês humanos geneticamente editados.

O professor He Jiankui disse que duas meninas gêmeas, nascidas há algumas semanas, tiveram seus DNAs alterados enquanto ainda eram embriões, para evitar que contraíssem o vírus HIV.

A declaração dele – filmada pela agência de notícias Associated Press – não foi confirmada por outros pesquisadores. Integrantes da comunidade científica disseram que a ideia de editar genes de bebês humanos é "monstruosa".

Procedimentos como este são proibidos na maioria dos países.

Futuras gerações

A edição de genes poderia, em tese, evitar a transmissão de doenças hereditárias ao deletar ou modificar conjuntos de genes problemáticos em embriões.

Mas especialistas temem que as modificações no genoma de embriões humanos possam causar problemas – não só para o indivíduo em questão, mas também para seus descendentes.

Muitos países, inclusive o Reino Unido e o Brasil, proíbem a edição do genoma humano para fins de reprodução assistida.

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No caso britânico, cientistas podem pesquisar a edição genética em embriões descartados durante o processo de reprodução in vitro – desde que o embrião seja destruído em seguida, e não dê origem a um bebê.

No Brasil, a Lei de Biossegurança, de 2005, proíbe qualquer experimento envolvendo edição genética de embriões humanos, independentemente de serem descartados ou não. A lei proíbe completamente a "engenharia genética em célula germinal humana, zigoto humano e embrião humano".

'Projetando bebês'

He Jiankui estudou na universidade de Stanford, nos EUA, e trabalha em um laboratório na cidade chinesa de Shenzhen, no sul do país. Ele alega ter usado as ferramentas de edição genética nos embriões das duas meninas gêmeas, chamadas de Lulu e Nana.

No vídeo, ele alega ter eliminado um gene chamado CCR5, para tornar as garotas resistentes ao vírus HIV, caso algum dia elas entrem em contato com ele.

Ele diz que o objetivo de seu trabalho é criar crianças que não sofrerão com doenças, e não produzir bebês "projetados" para ter olhos de determinada cor ou alto quociente de inteligência (QI).

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"Eu entendo que meu trabalho é controverso – mas acredito que as famílias precisam desta tecnologia e estou disposto a aceitar as críticas que receberei por isto", diz ele na gravação.

'Altamente tratável'

Apesar disto, várias organizações, inclusive um hospital ligado ao caso, negaram qualquer envolvimento no experimento.

A Universidade do Sul de Ciência e Tecnologia, de Shenzhen, disse desconhecer o projeto de pesquisa de He, e afirmou que conduzirá uma investigação a respeito.

Outros cientistas da área disseram que, se a alegação for verdadeira, He foi longe demais ao realizar experimentos em embriões saudáveis sem uma justificativa plausível.

"Se a alegação for falsa, é um erro de conduta científico, profundamente irresponsável. E se for verdadeira, continua sendo um erro de conduta", diz o Robert Winston, professor emérito do Imperial College de Londres (Reino Unido).

"Se isso for considerado ético, é porque a percepção deles (chineses) de ética é muito diferente daquela do resto do mundo", diz Dusko Ilic, especialista em células-tronco do King's College de Londres.

Ilic argumenta que a infecção por HIV hoje é tratável – e se for mantida sob controle com o uso de medicação, a probabilidade de ser transmitida ao bebê pela mãe é quase nula.

Arriscado demais

Para Julian Savulescu, especialista em ética da Universidade de Oxford, o experimento é "monstruoso". "Se for verdade, trata-se de uma experiência monstruosa. Os embriões eram saudáveis, não tinham qualquer doença conhecida".

"A edição genética ainda é uma técnica experimental, e é bem comum que provoque mutações 'colaterais', capazes de gerar problemas genéticos ao longo da vida, inclusive câncer", diz ele.

"Este experimento expôs crianças saudáveis aos riscos da edição genética sem trazer qualquer benefício real", avalia Savulescu.

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A edição genética de bebês humanos pode ser justificada algum dia, dizem cientistas, mas são necessários mais testes e comprovações antes que seja permitida.

"Nós sabemos ainda muito pouco sobre os efeitos de longo prazo. E a maioria das pessoas concordaria que fazer experimentos deste tipo em humanos, com a finalidade de evitar uma doença tratável, só para aumentar nosso conhecimento sobre o assunto, é moralmente e eticamente inaceitável", diz Yalda Jamshidi, uma especialista em genética humana da Universidade de St. George, em Londres.

"Independentemente dos resultados obtidos por ele sobreviverem ou não ao escrutínio da comunidade científica, nós, como sociedade, precisamos pensar seriamente e rapidamente sobre se e quando estamos dispostos a aceitar os riscos que vêm com qualquer nova terapia. Particularmente com aquelas que podem afetar as futuras gerações", diz ela.

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