O dilema ético envolvendo a criação de bebês geneticamente editados

Episódio envolvendo pesquisador chinês que alterou o DNA dos embriões de duas gêmeas sem o conhecimento da universidade em que leciona gerou enxurrada de críticas e motivou debate sobre o tema da edição genética.

Por BBC Brasil

O avanço da ciência permitiu a aplicação da engenharia genética em plantas, animais e até no próprio ser humano – ainda que a modificação genética de embriões seja uma linha que o homem até então não chegara de fato a cruzar.

Agora, um cientista chinês alega ter ajudado a criar os primeiros bebês geneticamente modificados – e tem recebido críticas questionando a ética de seu trabalho. Na última quinta-feira, ele disse ter orgulho do que tinha feito.

O professor He Jiankui removeu uma proteína do DNA dos embriões de duas irmãs gêmeas para impedir que elas contraíssem o vírus HIV. Segundo ele, as meninas nasceram saudáveis.

Ele disse que conduziu seu trabalho na proteína CCR5 sem o conhecimento da universidade em que leciona, a Southern University of Science and Technology, em Shenzen.

Seus estudos envolveram oito casais, cada um deles com um pai HIV positivo e uma mãe HIV negativo.

O pesquisador afirma haver ainda uma segunda gestação envolvendo um embrião geneticamente editado em fase inicial de desenvolvimento.

Ele ainda não providenciou evidência científica de seu achado, e sua universidade planeja investigá-lo por violações acadêmicas.

Mas, se os resultados divulgados pelo cientista forem confirmados, o experimento pode virar um marco científico – e provocar profundos debates éticos.

Gerações futuras

A esperança é que a edição genética de "linhagem germinativa" – a modificação do DNA de um embrião que pode virar uma pessoa – pode consertar mutações genéticas e impedir doenças debilitadoras antes que sejam passadas adiante.

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Mas a prática carrega um dilema ético: significa modificar o código genético de futuras gerações. Não é mais sobre o DNA de uma só pessoa, mas de potencialmente muitos de nós.

Muitos países banem a prática como um todo, permitindo que ferramentas de edição genética sejam usadas só em células adultas não reprodutivas.

No Reino Unido, por exemplo, cientistas podem fazer pesquisas de edição genética em embriões descartados de fertilização in vitro, mas é proibido permitir que se desenvolvam em um feto.

Regras mais relaxadas existem nos Estados Unidos e estão sob discussão no Japão, mas só relacionadas a pesquisa.

O governo na China pediu uma investigação para avaliar se He violou alguma regra ao colocar embriões geneticamente modificados de volta ao útero da mulher para se desenvolverem.

O Ministro de Ciência e Tecnologia da China diz acreditar que sim. Xu Nanping se disse "chocado" e contou à imprensa estatal que o experimento do professor He é proibido segundo leis chinesas.

Ele disse que, como outros países, a China permite pesquisas em células-tronco embrionárias por um período máximo de 14 dias.

'Prevenir sofrimento'

He, no entanto, se diz orgulhoso de ter editado o DNA das irmãs gêmeas para que – segundo ele – elas ficassem protegidas de contrair HIV até mesmo se entrarem em contato com o vírus.

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Mas, naquele momento, os embriões estavam saudáveis. Muitos questionam a decisão do professor porque seu trabalho pode trazer consequências desconhecidas.

Para Julian Savulescu, especialista em bioética na Universidade de Oxford, o experimento "expõe crianças normais e saudáveis aos riscos de edição genética em troca de nenhum benefício necessário".

Outros argumentam que hoje é possível viver com HIV no organismo e que o tratamento pode levar o vírus a níveis indetectáveis no corpo.

Alguns cientistas levantam questões especificamente sobre a remoção o gene CCR5 do corpo das gêmeas, já que isso pode aumentar o risco de suscetibilidade a outras doenças, como o vírus do oeste do Nilo e o da gripe.

"A edição genética é experimental e ainda é associada com mutações capazes de causar problemas genéticos no começo ou no fim da vida, incluindo o desenvolvimento de câncer", diz Savulescu.

"Sabemos muito pouco sobre os efeitos a longo prazo, e a maioria das pessoas concorda que experimentos em humanos que poderíamos evitar, conduzidos só com o objetivo de melhorar nosso conhecimento, é moralmente e eticamente inaceitável", diz Yalda Jamshidi, especialista em genética humana na Universidade St. George's, em Londres.

Bebês 'customizados'

He diz que seu trabalho é criação de crianças que não sofreriam com doenças, não criar bebês 'customizados', com determinada cor de olhos ou QI alto.

"Entendo que meu trabalho será controverso – mas acredito que famílias precisem dessa tecnologia e estou disposto a lidar com as críticas por elas", afirma.

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'Revolução'

Desde que a tecnologia de edição genética CRISPR ficou sob os holofotes em 2012, muitos se questionam se não veremos em breve humanos geneticamente modificados.

A CRISPR usa "tesouras moleculares" para alterar uma parte específica do DNA, por meio do corte, substituição ou modificação dos genes.

Considera-se que ela revolucionou a área porque nunca antes o código genético foi tão facilmente reescrito ou editado.

No começo do ano, cientistas nos Estados Unidos usaram a técnica para prevenir falência de fígado em ratos.

O tratamento tinha funcionado com os ratos depois de seu nascimento – e pesquisadores do Children's Hospital de Philadelphia, nos EUA, estavam mostrando que poderiam fazer essa modificação antes mesmo dos animais nascerem, editando seus genes.

Mas eles disseram que "qualquer tradução" de seu trabalho em humanos implicariam "desafios profundos". Ou seja, iria além de pioneirismo científico.

Nos obrigaria a chegar a acordos em relação a dilemas éticos muito complexos.


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