Estagnação do aleitamento liga alerta em especialistas

Após altas desde a década de 1980, amamentação no país teve freio nos últimos anos. Especialistas veem falta de capilaridade nas políticas públicas

Por Rafael Neves - Metro Brasília
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Madeira, os 40 mil habitantes de Borba (AM) só têm acesso à capital, Manaus, distante 150 km, via barco. O isolamento e a pobreza (IDH baixo, de 0,560) não impediram, porém, que a cidade ganhasse, em 2013, o IV Prêmio Bibi Vogel, do Ministério da Saúde.

Batizado em homenagem à atriz carioca morta em 2004, que ganhou notoriedade pela militância em prol do aleitamento materno, o prêmio é um reconhecimento do governo a políticas municipais de apoio à prática.

Borba recebeu a honraria por seu arcabouço de incentivos materiais e de engajamento da comunidade em projetos para promover o aleitamento na cidade.

O exemplo amazonense, no entanto, ainda é exceção: segundo especialistas ouvidos pelo Metro Jornal, as ferramentas do governo federal são elogiadas dentro e fora do país, mas sua aplicação ainda é limitada no interior.

Avaliações sobre esta e outras travas à massificação da amamentação no Brasil foram colhidas para esta reportagem, a segunda da série “o melhor alimento do mundo”.

Os números preocupam as autoridades. Após terem altas seguidas desde a década de 1980, os índices de aleitamento no Brasil estagnaram na última medição da PNS (Pesquisa Nacional de Saúde), do IBGE, em 2013 – são os dados mais recentes disponíveis.

Segundo a PNS, a taxa de bebês  exclusivamente amamentados até os 6 meses saltou de 4,6% em 1986 para 37,1% em 2006. Em 2013, porém, teve uma leve queda e ficou em 36,6%.

“As políticas não estão instaladas em zonas mais afastadas com a mesma força que nas capitais”, reconhece a coordenadora de aleitamento do Ministério da Saúde, Fernanda Monteiro. “Isso deixa a gente em alerta”, afirma.

A falta de proteção às mulheres que habitam rincões distantes é uma impressão do pediatra Marconi Zadok. Hoje em Brasília, Zadok conta ter trabalhado em Tabatinga (AM) na década de 1990 e visto um ambiente de vulnerabilidade. “Nós víamos crianças, bebês indígenas chegando com quadros graves de desnutrição e diarreia, porque as mães estavam dando leite de vaca. Não a fórmula infantil, porque é cara, mas o leite líquido ou em pó, que para um bebezinho é altamente agressivo”, relembra.

amamentação

Estratégias

As principais lutas atuais do ministério para elevar os índices de amamentação têm como alvo a mulher moderna.

Realizada na primeira semana de agosto, a Campanha da Semana Mundial de Amamentação deste ano fez apelos, ao setor privado, por adesões ao programa Empresa Cidadã – que concede benefícios fiscais às empresas que adotam a licença-maternidade de seis meses, mesmo que a lei permita quatro meses.

Também se incentiva que empresas façam convênios com creches ou implementem as suas próprias, para facilitar a vida das mães nos locais de trabalho. Além disso o ministério tenta ampliar o número de salas de apoio à amamentação, locais onde as mulheres podem retirar seu leite e mantê-lo refrigerado, para incentivar o aleitamento após o fim da licença.

Licença de 20 dias para pais é comemorada

O lançamento da Campanha de Aleitamento Materno, no fim de julho, foi uma ocasião festiva. O luxuoso auditório circular da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), em Brasília, foi tomado por dezenas de mães e seus bebês.

Poucas das mulheres estavam acompanhadas dos parceiros. Uma delas era Sueli Medeiros, 31. Moradora de São Sebastião, no Distrito Federal, Sueli comemorava estar alimentando a filha de 5 meses exclusivamente no peito até então.

Mais radiante que ela estava o marido Alison, 25. Graças à ampliação da licença-paternidade de 5 para 20 dias, regulada por lei em 2016, ele participou ativamente das primeiras semanas de vida da criança.

“O mercado em que eu trabalho apoia a iniciativa, peguei a folga completa”, relembra Alison, se referindo ao programa Empresa Cidadã, pelo qual a empresa concede a licença ampliada em troca de benefícios fiscais.

Doação

Sueli e outras dezenas de mães estavam no auditório da Opas para serem homenageadas por serem também doadoras de leite humano.

Em 2017, segundo o Ministério da Saúde, 183 mil mulheres doaram 212,5 mil litros de leite. Toda a produção é destinada a bebês prematuros ou nascidos com menos de 2 kg nas maternidades. No ano passado, 197 mil crianças foram atendidas. O Brasil tem hoje 220 bancos de leite humano.


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