As perigosas doenças escondidas dentro de cavernas

O mundo acompanhou de perto resgate de 12 meninos tailandeses e de seu técnico de futebol, mas a quais doenças eles ficaram expostos? E quão perigosas elas são?

Por Zaria Gorvett - Da BBC Capital

O mundo acompanhou, em julho deste ano, com um misto de ansiedade e alívio o resgate de 12 meninos e de seu técnico de futebol de uma caverna da Tailândia.

Logo após serem resgatados, eles foram imediatamente colocados em uma sala de isolamento, onde o único contato permitido com o mundo exterior era através de uma barreira de vidro.

Na ocasião, suas famílias foram informadas de que abraços e toques estavam terminantemente proibidos enquanto os meninos eram submetidos a testes. Durante o primeiro encontro, os pais tiveram que usar roupas de proteção.

Mas por que os médicos tomaram essas precauções, aparentemente exageradas?

Embora milhares de pessoas entrem no complexo de cavernas Tham Luang todos os anos, maravilhados com as estalactites que brotam do teto e com raios de sol que iluminam uma estátua gigante de Buda, é provável que essa curiosidade desapareça à medida em que se avance pelo seu interior.

Isso porque as cavernas, especialmente em países tropicais, abrigam infecções potencialmente mortais.

Além da abundância de vida selvagem, de pássaros a ratos, passando por morcegos, aranhas e escorpiões, esses locais possuem uma série de micro-organismos prejudiciais à saúde, como o vírus de Marburg, que causa a febre hemorrágica de mesmo nome. Já os carrapatos que se alimentam de alguns desses animais transmitem a chamada "febre da caverna", uma doença rara que às vezes também pode ser contraída em prédios abandonados.

Abelhas assassinas

"Sim, vemos muitas criaturas", diz Rick Murcar, que é presidente da Associação Nacional de Mergulho em Cavernas, organização com sede nos EUA dedicada a melhorar a segurança da exploração submarina em cavernas.

"No México, por exemplo, exploramos cavernas que tinham abelhas assassinas fazendo suas colmeias. Havia também morcegos, escorpiões e outros animais – e isso logo na entrada."

Além disso, a umidade, que em algumas cavernas chega a 100%, gera o ambiente ideal para a proliferação de bactérias e parasitas.

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Finalmente, as cavernas são escuras – a tal ponto que algumas criaturas que ali habitam são totalmente cegas. Não é à toa que esses locais servem às vezes de treinamento para astronautas, para ajudá-los a se preparar para a vida no espaço.

Hazel Barton, especialista em microbiologia de cavernas e mergulhadora, diz que é alta a possibilidade de os meninos tailandeses – presos em uma caverna tropical com morcegos – terem contraído histoplasmose, doença causada por um fungo encontrado nos excrementos de aves e morcegos, principalmente em áreas úmidas.

Geralmente, pode ser tratada com medicamentos, que devem ser tomados por até um ano. A doença mata, em média, uma em cada 20 crianças e oito em cada 100 adultos infectados. Pode gerar complicações especialmente em quem tem um sistema imunológico fraco ou debilitado.

No início deste ano, foi registrada a morte de um homem de 53 anos que chegou a um hospital na Flórida com febre, falta de ar e tosse. Ele morava na Costa Rica e passou por uma bateria de testes, o que surpreendeu os médicos. Ocasionalmente, no entanto, eles descobriram sua paixão por "espeleologia" (exploração de cavernas) e mergulho em cavernas. Suspeitaram, então, de histoplasmose. Infelizmente, ele morreu em seu quarto dia internado, pouco antes dos resultados confirmarem o diagnóstico.

Fezes de morcego

A histoplasmose é extremamente fácil de se contrair, como Barton descobriu no ano passado, quando levou seu marido para mergulhar em uma caverna nos EUA.

"Tão logo entramos na caverna, senti um cheiro forte de fezes de morcego e imediatamente pensei 'Oh não, estamos em uma caverna de histoplasmose'. Meu marido reagiu: 'histo, o quê?'. Acabamos colocando um lenço em volta da boca dele para que não inalasse nada, mas ele acabou contraindo a doença dez dias depois".

Outro micro-organismo que muitas vezes habita cavernas é a bactéria Leptospira. Encontrada em fluidos corporais como a urina de roedores, é geralmente transmitida após o contato com água contaminada, já que pode entrar sorrateiramente no corpo através de cortes na pele, ou pela boca, nariz, olhos e pulmões.

A Leptospira causa a chamada doença de Weil (ou leptospirose), que se assemelha inicialmente à gripe. Em 5% a 15% dos casos, evolui para algo mais grave, com sintomas que incluem hemorragia interna e falência dos órgãos. Se não for tratada a tempo, pode levar à morte. Muitos espeleólogos já contraíram a doença. Em 2005, um homem foi infectado em Sarawak, na Malásia, apesar de já estar tomando antibióticos.

Outra doença comum em cavernas é a melioidose, encontrada nos trópicos, do sudeste da Ásia ao norte da Austrália. Acredita-se que afeta cerca de 165 mil pessoas a cada ano, com uma taxa de mortalidade de 50% (89 mil).

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A melioidose é causada por uma bactéria que vive no solo e pode ser contraída, por exemplo, durante a colheita do arroz. O diagnóstico é normalmente complicado, uma vez que a doença pode se manifestar por meio de uma ampla gama de sintomas – de tosses a febres, que também estão presentes em infecções causadas por muitos outros micro-organismos. Também é naturalmente resistente a muitos antibióticos.

Para quem pensa em explorar uma caverna, no entanto, existem precauções simples que podem ser tomadas para se proteger contra infecções perigosas que se escondem dentro dela.

Usar botas de borracha, por exemplo, impede que bactérias entrem em sua pele enquanto você caminha pela água repleta de fezes de morcegos ou aves.

"Depois de um mergulho, o problema é como tirar a roupa", diz Murcar. "Talvez você precise que alguém o desinfete."

Barton destaca, contudo, que nem todas as cavernas são armadilhas repletas de micróbios. Tudo depende de onde elas estão localizadas e que tipo de micro-organismos vivem dentro delas.

"A maioria das cavernas que nós (o grupo Cave Science na Universidade de Akron, Ohio) estuda são alguns dos ambientes mais limpos da Terra", diz ela.

"Algumas têm menos seres vivos do que o antigo gelo encontrado na Antártida. Os meninos tailandeses estavam em uma caverna parcialmente submersa em uma região tropical, onde o potencial de doenças é muito maior."

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