"Perfis e notícias falsas deveriam ser banidos das redes sociais", diz Orkut

O engenheiro turco que apresentou aos brasileiros o conceito de mídia social defende que as redes sociais devem investir mais na checagem de fatos e priorizar fontes de informação 'de peso'.

Por Rafael Barifouse - Da BBC Brasil em São Paulo

Vale do Silício, temos um problema. Algumas das principais empresas de internet têm enfrentado transtornos nos últimos meses por causa da disseminação de informações falsas e o mau uso dos dados de seus usuários.

O WhatsApp foi acusado na Índia de ajudar a fomentar uma onda de linchamentos por causa de mentiras compartilhadas pela ferramenta. O Google anunciou mudanças em seus algoritmos para que notícias falsas não tenham mais destaque em suas buscas. E o presidente do Twitter veio a público pedir ajuda para solucionar problemas criados por "abusos, assédio, trolls e a manipulação por robôs e humanos". Mas nenhuma companhia está passando por uma crise tão grave quanto o Facebook.

A rede social perdeu US$ 100 bilhões (R$ 330 bilhões) em valor de mercado desde o início de fevereiro e está sendo investigada pela suposta influência que informações e perfis falsos na rede social tiveram sobre a eleição americana e a votação da saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit, com duras críticas pela forma como os dados de milhões de usuários foram coletados e usados pela consultoria política Cambridge Analytica.

Diante da dimensão que a crise das campanhas de desinformação vem tomando, Orkut Büyükkökten, criador de uma das redes sociais de maior sucesso, defende que "perfis e notícias falsas deveriam ser banidos". "Estamos chegando a um ponto em que não acreditamos em mais nada do que lemos", diz o engenheiro turco em entrevista à BBC Brasil.

"Na vida real, se você descobre que seu amigo mente o tempo todo, você vai querer continuar com essa amizade? Se você sabe que seu namorado está te traindo, você vai terminar o relacionamento. O mesmo vale para a internet. Não deveria ser permitido que alguém publique conteúdo falso e minta constantemente."

'Estamos criando uma geração infeliz'

Ele fala com a propriedade de quem criou o site que apresentou aos brasileiros o conceito de rede social. Nos dez anos em que o Orkut ficou no ar, o site chegou a ter 300 milhões de usuários em todo o mundo, grande parte deles no Brasil e na Índia, mas acabou perdendo relevância e membros até ser tirado do ar pelo Google em 2014.

O empresário avalia que sua primeira rede social não fracassou, mas acabou não resistindo a mudanças neste mercado. "Ela foi a primeira experiência social de muita gente, mas o acesso antes era principalmente pelo computador e, hoje, as novas gerações são multitarefa e fazem tudo pelo celular. O Orkut não foi ao encontro dessas necessidades", diz.

Desde 2016, o engenheiro está à frente de uma nova empreitada, a rede social Hello, que ele diz ser uma "continuação da jornada" que teve início com o Orkut.

facebook Reuters

Ele acredita estar fazendo isso com a Hello, que existe somente como um aplicativo por celular.

Uma das principais características da rede social é reunir os usuários em comunidades sobre interesses em comum, que tratam geralmente de temas mais leves e livres de polêmica, como "Amantes de Séries" e "Fãs dos Anos 80", tais quais as que existiam no Orkut. O site também coloca usuários em contato e indica conteúdos com base nas cinco principais características pessoais que o usuário escolhe ao se inscrever, como "fotógrafo", "nudista" ou "geek".

Mas a Hello ainda está bem distante do sucesso que teve o Orkut: o programa foi disponibilizado em 12 países e baixado mais de 1 milhão de vezes, e hoje tem a maioria dos usuários no Brasil. A empresa não divulga o número total de usuários ativos, uma métrica que dá a dimensão do sucesso de um serviço como esse.

A rede social também está longe do número de usuários de alguns dos seus principais concorrentes, como o Facebook, que tem 2,2 bilhões de usuários ativos, o Instagram, com 800 milhões, e o Twitter, com 3330 milhões, segundo o site Statista.

Nestes dois anos, o aplicativo obteve 10 mil avaliações na loja de aplicativos do Google, das quais 4 mil dão à rede social a nota máxima (cinco estrelas), mas 2,5 mil estão no outro extremo e conferem a ela a nota minima (uma estrela). Na média, o aplicativo tem 3,3 estrelas.

"Ótimo app, mas precisa de ajustes", diz um usuário.

"Chato e confuso. Tinha uma grande expectativa, mas não é nada como o bom e velho Orkut", afirma outro em uma avaliação recente.

Segundo a empresa, a maior parte das avaliações ruins se deu na época do lançamento, quando a repercussão acima das expectativas sobrecarregou seus servidores e criou problemas para os usuários. "Levamos quase duas semanas para corrigir a falha, e muitos usuários nos avaliaram mal. Desde então, nossas notas têm sido boas, mas leva um tempo para se recuperar na nota média da loja de aplicativos."

Equilíbrio

Quanto à disseminação de informações falsas, Orkut defende que as redes sociais devem se esforçar mais para checar fatos e priorizar fontes de informação "de peso". Para isso, devem buscar um meio termo entre a tecnologia e os esforços humanos.

"Antes, confiávamos nos jornais e revistas, porque eles faziam pesquisas antes de publicar alguma coisa. Mas checar fatos leva tempo", diz Orkut, que conta usar Facebook, Instagram, WhatsApp e outras redes sociais para ver o que falta nestes serviços e descobrir como tornar o seu melhor.

"Hoje, as notícias acontecem tão rápido que a decisão sobre o que é exibido para os usuários de rede social é feita de forma automatizada, com base em algoritmos e inteligência artificial. Não há pessoas de verdade checando, e isso faz com que o público seja exposto a notícias falsas. É preciso um equilíbrio."

Mas como a própria Hello lida com esse problema? Orkut diz que os usuários conquistam uma reputação com base nas interações positivas e negativas com os outros membros da rede social. Todos os posts são públicos, e os líderes das comunidades do site podem sinalizar um conteúdo que consideram irrelevante ou falso, o que faz com que ele seja analisado pela equipe do site e apagado quando for avaliado que isso é devido.

Quando há uma violação grave, como um post que dissemina ódio ou com pornografia, o usuário tem seu perfil analisado e sofre punições, que vai desde receber um simples alerta a ter sua conta silenciada temporariamente ou apagada.

Segundo Orkut, essas medidas impediriam que informações falsas se espalhem sem controle. "Garantir que uma publicação seja vista por pessoas com formações e opiniões diferentes dificulta que uma mentira se espalhe", diz Orkut, que explica ainda que o site tem funcionários para moderar conteúdo.

No entanto, a Hello esteve até agora menos vulnerável a esse tipo de problema, não apenas por não ser tão popular quanto outras redes, mas também porque só era possível publicar posts com textos e fotos.

100641015picteam-c520aaebcf675d58cd841f5d8c72f4c8.jpg Se um anúncio é feito para mudar visões políticas ou afetar uma eleição, "um limite foi ultrapassado", diz Orkut / Divulgação

Mas, daqui em diante, permitirá que sejam compartilhados links para outros sites e conteúdo externo, aumentando as chances de informações falsas serem publicadas na rede social, o que deve colocar sob pressão os mecanismos destacados por Orkut.

Impacto na eleição

Sobre o escândalo da Cambridge Analytica, o engenheiro diz preferir não comentar especificamente sobre a forma como o Facebook usa os dados de seus usuários. "Empresas têm políticas sobre isso, e, neste caso, essas políticas não foram respeitadas", afirma.

"Mas, se informações assim são repassadas a um terceiro, é de se esperar que quem as compartilha tenha a obrigação moral de monitorar e garantir que elas sejam usadas da forma correta. Uma boa solução seria impedir que empresas compartilhem dados sem o consentimento explícito do usuário."

Em seus termos de uso, o Facebook afirma não vender informações de usuários para outras empresas, mas compartilha dados brutos – sempre como amostragens, sem revelar a identidade real dos usuários e somente as informações postadas no site de forma pública – com serviços de publicidade, medição e análise, além de parceiros envolvidos em serviços de "infraestrutura técnica, medição de eficácia de anúncios e ferramentas, atendimento ao cliente, pagamentos e pesquisas acadêmicas", os quais "devem aderir a obrigações de sigilo absoluto".

A empresa diz estar trabalhando nos últimos anos para detectar, combater e prevenir violações de suas regras e para dar mais controle ao usuário sobre as informações que são compartilhadas e como elas são usadas.

Questionado sobre como sua própria rede social lida com os dados dos usuários, Orkut explica que a Hello não usa algoritmos para monitorar e identificar os hábitos e preferências de seus usuários. "Pedimos diretamente que os usuários nos digam quais são seus interesses."

Ele afirma também que o site não compartilha essas informações com outras companhias, explicando que elas são analisadas somente pela própria empresa, para melhorar o site.

Orkut defende que uso de dados de usuários para criar propaganda personalizada pode ser algo positivo, mas diz que, se um anúncio é feito para mudar visões políticas ou afetar uma eleição, "um limite foi ultrapassado".

"Com certeza as redes sociais têm poder para impactar uma eleição, mas não podemos dizer cientificamente se já conseguiram mudar seu rumo. Não é porque vê o anúncio sobre um político que você vai votar nele", afirma.

"Não é garantido que vá afetar o resultado, mas com certeza as redes sociais terão influência sobre a eleição neste ano no Brasil."

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