Substância psicodélica conhecida como Ecstasy pode virar remédio em breve

Por Carlos Minuano/Metro Jornal

A substância psicodélica conhecida como ecstasy pode virar remédio em breve. O MDMA (sigla de metilenodioximetanfetamina) está perto da legalização nos EUA. No Brasil, especialistas também estão de olho na substância, que será usada para tratamento de TEPT (transtorno de estresse pós-traumático).

Pesquisadores brasileiros estão selecionando pacientes para o primeiro estudo clínico da América Latina, previsto para iniciar ainda esse mês. A principal justificativa para a investigação do uso terapêutico do MDMA para TEPT são as dificuldades no tratamento do transtorno, explica o neurocientista Eduardo Schenberg, um dos especialistas à frente do estudo pioneiro.

“Atualmente não há nenhum remédio disponível, psiquiatras receitam antidepressivos, drogas para dormir e até antipsicóticos, mas apenas para controlar sintomas, como ataques de pânico, dificuldade para dormir, alterações de humor, nada para tratar o problema de fato”.

A principal característica do transtorno, segundo o neurocientista, é a incidência de uma memória aversiva muito intensa. Ou seja, o trauma. “É uma lembrança tão dolorosa e apavorante que a pessoa não consegue falar sobre o problema no consultório e não consegue resignificar o ocorrido, sentem culpa, vergonha e se escondem atrás de uma espécie de casulo psicológico para tentar seguir com a vida, mas o que aconteceu continua lá, doendo e provocando, em geral, muitas dificuldades afetivas e emocionais que impactam relações pessoais e de trabalho”.

Efeitos

O tratamento testado no Brasil será a psicoterapia assistida com MDMA, semelhante à pesquisa norte-americana. O efeito da substância facilita aos pacientes encararem o ocorrido, observa Schenberg. Segundo ele, estudos de neuroimagem mostram que o MDMA diminui a atividade da amígdala, região cerebral relacionada com as sensações de medo e estimula o córtex pré-frontal, mais ligada ao raciocínio e intelecto.

A reação observada nos estudos realizados nos EUA é de um mergulho profundo nos sentimentos do trauma, sensações de dor e medo, são comuns, bem como o choro. Por isso, a experiência só deve ser feita com a supervisão de terapeutas especializados nesse tipo de tratamento.

“A tendência é que esses efeitos assustem, parece que a pessoa está sofrendo”, argumenta o neurocientista. Mas, ele explica que o tratamento funciona dessa maneira, permitindo que a pessoa consiga romper bloqueios emocionais e lidar com seus sentimentos.

Apoio estrangeiro

A pesquisa brasileira tem o apoio da ONG americana Maps (Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies), que há mais de três décadas investiga o potencial terapêutico de substâncias psicodélicas e reivindica a legalização de usos em psicoterapia. “Pesquisadores internacionais estão se preparando para testes finais e a aprovação pelos órgãos FDA (Food and Drug Administration) e EMA (European Medicines Agency) deve acontecer até 2021”, diz Bryce Montgomery, diretor de comunicação do Maps. O estudo também está acontecendo no Canadá, Suiça e Israel.

Procuram-se pacientes

A pesquisa com MDMA no Brasil foi aprovada pela Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) e a importação da droga teve a autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Serão 15 sessões de psicoterapia, três com o uso do MDMA. Podem participar pessoas de todo o país, mas o estudo acontecerá em Goiás. Interessados precisam ter diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático há pelo menos seis meses e comprovar terem tentado outros tratamentos. Mais informações pelo e-mail: [email protected] ou pelo telefone: (11) 96846-6355.

Evento reuniu   pesquisadores no México

O potencial terapêutico de substâncias psicodélicas esteve no centro da conferência Plantas Sagradas nas Américas, realizada no mês passado em Ajijic, às margens do lago Chapala, no México. Mais de 140 palestrantes de duas dúzias de países, incluindo o Brasil, compartilharam avanços recente de pesquisas, estudos e experiências.

Médicos, químicos, biólogos, neurocientistas, psicoterapeutas, antropólogos, etnofarmacólogos, advogados, cineastas e uma variedade de outros profissionais deram um amplo panorama sobre o assunto.

“Depois de um hiato de quase quatro décadas em pesquisas, achados recentes sobre resultados clínicos favoráveis com algumas dessas substâncias (LSD, psilocibina, cetamina e ayahuasca, por exemplo) reacendeu o interesse científico, disse o pesquisador mexicano Rodrigo Pérez Esparza, um dos palestrantes da conferência.

A terapia com MDMA para TEPT foi abordado no evento. “Cerca de 35% de pacientes crônicos, que não respondem aos métodos convencionais, necessitam de novos tratamentos”, defendeu a psicóloga colombiana Marcela Otálora.

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