‘Racismo e pandemia se combatem com educação’, diz Cafu; leia entrevista

Capitão do penta fala ao Metro Jornal sobre os grandes temas de 2020

Por Fernando Valeika de Barros - Especial para o Metro

Capitão do penta e embaixador da Copa do Mundo do Qatar fala ao Metro Jornal sobre os grandes temas de 2020; ex-lateral, hoje com 50 anos, também é contrário à ideia de retomar o futebol neste momento.

Gostaríamos todos que estivéssemos falando sobre futebol, sobre a próxima Copa do Mundo, no Qatar, em 2022. Mas, durante a pandemia do novo coronavírus, tudo parou. Como estão sendo os seus dias?
Estou em minha casa, em Alphaville. Tenho o privilégio de ter um campo de futebol e uma academia. Moro em um condomínio que permite caminhar, correr ao ar livre. Estou com parte da minha família, somos  dez pessoas aqui. Vivemos em isolamento social, cada um se adaptando da melhor forma possível a essa situação.

Em alguns países europeus o futebol já voltou. Outras ligas, como a francesa e a holandesa, decretaram como campeões os times que estavam em primeiro e pararam seus campeonatos. Qual seria a melhor solução para o Brasil neste momento?
É muito difícil achar uma solução para o Brasil até que a gente tenha condições de dizer que a pandemia está controlada também por aqui. Há uma incerteza muito grande. Primeiro, temos que cumprir as recomendações da Organização Mundial da Saúde. Os treinamentos deverão começar a ser feitos com distanciamento e regras de proteção à saúde. E é fundamental que eles aconteçam. A maior parte dos jogadores está sem jogar desde março, sem ritmo. Eu voltaria a treinar aos poucos. Mas, para entrar em campo e disputar partidas oficiais, na minha opinião, só quando tivermos resolvido todos os outros setores antes.

Por quê?
Não acho boa a ideia de fazer jogos de futebol sem torcida, sem que nem mesmo os gols possam ser comemorados. Futebol e distanciamento social não combinam muito. Como é que você faz para marcar um adversário com distanciamento? E na cobrança de um escanteio? Futebol é um esporte de contato físico. Volta de uma vez ou faz apenas treinos físicos. Quando liberar o resto, aí libera geral.

O que você sente quando vê um estádio como o Pacaembu, hoje transformado em hospital de campanha?
Preocupação. Não é uma situação normal que o gramado onde joguei tantas vezes tenha se transformado em um hospital. Mostra que essa situação é muito grave e que as pessoas precisam respeitar, não descuidarem e se acomodarem.

Além da covid-19, outro assunto que repercute em 2020 foi a morte de George Floyd, que reabriu uma discussão sobre racismo. Você já sofreu preconceito racial?
Eu pessoalmente não. Talvez porque sei me conduzir e me comportar. Acho que a melhor maneira de combater o racismo é com a educação.

Faixas e pedidos, como acontece há anos em jogos de futebol, resolvem ou é preciso fazer algo mais?
Estamos combatendo o preconceito racial há muito tempo. Os jogadores têm feito a sua parte. Na minha opinião, o futebol é uma das mais poderosas ferramentas de inclusão social do mundo. Dentro de campo, não tem cor, não tem rico ou pobre… Quanto ao racismo por parte da torcida, a atitude a ser tomada é a tolerância zero por parte das autoridades. Tem que identificar quem ofende com gestos ou palavras e punir essas pessoas com rigor. Com punição, começamos a inibir estas atitudes. E com cada vez menos gestos assim, isso pode ir se dissipando.

No Brasil, os jogadores fazem tudo o que podem para combater esse preconceito racial? Nos Estados Unidos, por exemplo, atletas não têm uma mobilização maior para se posicionar contra o preconceito?
Tudo nos Estados Unidos tem mais repercussão, inclusive o esporte. O que acontece lá acaba se refletindo em outros países, como está acontecendo agora com as manifestações. Mas acho que em um assunto importante como esse nós, atletas, temos que nos impor, sim. Termos a voz ativa. Mas acho que a chave de tudo é a educação. É com ela que venceremos o racismo, a ignorância e todas as discriminações.

Nesse cenário todo, como dá para imaginar a Copa do Mundo de 2022, da qual você é embaixador?
Acho que vai ser um grande evento. Sou um otimista por natureza, né? Há muita gente trabalhando para que o quanto antes tenha remédio, vacina, para o coronavírus. O Qatar está fazendo a parte dele: belos estádios, estrutura de transportes com um metrô moderno e eficiente, grandes hotéis, centros comerciais e lugares para as pessoas se divertirem…  Espero que o mundo saia dessa situação o quanto antes.

Por fim, nestes dias de isolamento social, do que você sente mais falta?
Ah, de muita coisa. Sinto falta de andar de moto, abraçar a minha neta Yasmin, de sete anos. Abraçar só, não, beijar, morder … Faz quatro meses que não nos vemos e estou morrendo de saudade. Estamos afastados, mas é para o nosso bem. Se nós no Brasil fizermos tudo certo, vai passar. Mas é preciso que todos tenham essa conscientização.

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