Vadão diz ter sido alvo de 'mentiras' e 'críticas injustas' durante comando da Seleção feminina

Por Estadão Conteúdo

Distante dos holofotes há pouco mais de dois meses, quando deixou o comando da seleção feminina, Vadão está aproveitando o tempo livre em Campinas, no interior paulista, para desfrutar da família e descansar da série de viagens feitas durante a preparação para o Mundial da França, realizada em julho deste ano, e vencido pelos Estados Unidos.

Após ficar quase cinco anos no cargo, divididos em duas passagens entre 2014 e 2019, o treinador de 63 anos deu lugar à sueca Pia Sundhage depois de uma série de resultados negativos – incluindo uma sequência de nove derrotas seguidas – que culminaram na queda da equipe nas oitavas do Mundial para o time anfitrião.

Em entrevista ao Estado, Vadão disse ter sido injustiçado enquanto esteve no cargo após reassumir o time em 2017. O treinador também revelou o desejo de voltar a trabalhar na modalidade masculina em 2020.


Depois que você foi demitido, o que andou fazendo nesse tempo?

Na verdade, depois que saí da seleção descansei um pouco, até porque tinha sido muito puxada aquela fase de preparação para o Mundial. A gente ficou muito tempo fora de casa, fora do País, então foi um pouquinho desgastante. Agora estou me preparando para voltar para o masculino.

Nesse primeiro momento, como os campeonatos estão em andamento, existe sempre um receio 'pô, o Vadão estava fora do mercado, vai pegar o barco andando', sabe? É um momento em que a gente sabia que isso poderia acontecer. Então estou me preparando para o ano que vem. Estou assistindo a jogos de Série B, Série A, jogos internacionais…

Você também tem estudado?

Quando se fala em reciclagem, não é só estudar a teoria. O ideal é você ter a teoria, e depois a prática. Tive a oportunidade e o privilégio de trabalhar quase cinco anos na seleção. Tive uma reciclagem prática muito grande. Às vezes, vejo o pessoal falando 'ah, o cara foi estudar, ficou uma semana lá (na Europa)'. Fiquei cinco anos jogando contra essas equipes (europeias). Sempre estudei muito, mas o que mais ganhei foi na prática.

Acredita que existe muita diferença entre o futebol feminino e masculino?

Não é diferente. A França joga nos mesmos moldes que a equipe masculina, assim como Alemanha, EUA… Todos jogam um futebol muito moderno, aproximado. As únicas diferenças são a velocidade e a força do jogo. Mas, taticamente, é igual. No Mundial da França a gente viu equipes muito bem ajeitadas em campo.

Como você analisa a sua demissão? Acredita que houve um desgaste?

Na segunda passagem, sim. Depois que voltei para a seleção, paguei um preço que foi não meu. A saída da Emily [Lima] teve uma repercussão muito ruim, forte. Aquela coisa 'poxa, a mulher não teve a mesma oportunidade que os outros homens tiveram' respingou em mim o tempo todo. Passei quase dois anos sendo criticado injustamente, inclusive com mentiras. Chegaram a dizer que nunca me viram no estádio vendo um jogo feminino. Isso é um absurdo. Quantas vezes eu fui no Pacaembu, no Parque São Jorge?

Eu e meu auxiliar fomos até Manaus assistir a jogos da Libertadores. Quando você é contratado duas vezes pela mesma seleção, alguma coisa fez de bom. As pessoas não reconhecem que nas duas oportunidades que trabalhei no Mundial e na Olimpíada eu concorri como melhor treinador do mundo. Não é possível que o mundo todo enxergue o trabalho da gente e as pessoas não enxerguem. Foi uma coisa que me chateou muito. Quando a seleção não ia bem, o culpado era eu. Aí quando jogou bem contra a França, ninguém toca no meu nome.

Nesse desgaste, acho que a decisão do presidente (Rogério Caboclo) foi correta, porque não adiantaria esperar mais um pouco, tem Olimpíada ano que vem. A Pia precisa de tempo para conhecer a seleção.

Quem lhe informou que você não ia seguir no cargo?

Quando terminou a Copa, tive uma reunião com o Marco Aurélio Cunha e ele falou 'olha, o presidente tá pensando em trazer uma mulher, que seria a Pia'. Então, foi tudo feito às claras.

Tanto é que quando a Pia se apresentou, o Caboclo me ligou e pediu pra eu ir lá recebê-la e passar tudo que tinha visto das atletas no Mundial. Fiquei conversando com ela por uma hora, passando minha visão sobre a seleção brasileira. Meu relacionamento com a CBF é muito bom. Com a diretoria, não há desgaste nenhum.

Como era sua relação com as líderes da seleção, como Marta, Cristiane e Formiga?

A melhor possível! Criei amizade com algumas atletas, inclusive com a Marta. Visitei a Marta até na casa dela, em Maceió, para você ter ideia. O relacionamento profissional nosso também foi o melhor possível. A Marta é uma pessoa extraordinária em todos os sentidos. Muita gente só a conhece futebolisticamente, mas não conhece a pessoa. A Marta como líder, como pessoa, para ajudar as colegas, comissão técnica, ela é top de linha, assim como a Cris e a Formiga.

Acredita que a seleção precisa passar por uma renovação de elenco?

A gente participou de uma renovação. Levei a Letícia, a Camilinha, a Andressinha, uma série de atletas jovens. Acontece que as mais experientes continuam na ativa. Acredito que após a Olimpíada vai ter de ser modificado um pouco mais, e essa renovação passará a se fazer necessária.

Essa renovação é mais difícil de fazer no futebol brasileiro, uma vez que a modalidade feminina recebe menos atenção aqui do que em países como EUA, Inglaterra e França?

Acho que sim. O grande problema é que temos um país enorme, com um monte de menina querendo jogar futebol e não tem onde. Agora que começamos a ter uma Série B com 30 clubes. Aumentando o número de times, aumenta o leque de opções para você escolher. Olha os resultados do Campeonato Carioca, que o Flamengo ganhou de 56 a 0.

A treinadora da seleção, que mora no Rio, vai no estádio assistir ao campeonato regional e o que ela pode tirar dali? É algo que ainda estamos engatinhando. Equipes com um poder aquisitivo maior, como Flamengo, Corinthians, Santos, contratam as melhores atletas e o campeonato fica restrito entre quatro, cinco clubes. Ainda é assim, mas vai ter um momento que vai ter um número maior de clubes em condições de disputar o campeonato, e um número maior de atletas pra gente analisar. Países como França e Inglaterra não são maiores do que os nossos, mas tem mais gente praticando futebol e em condições melhores. A disparidade é grande, mas o Brasil está melhorando.

Você acredita que o calendário é um problema hoje no Brasil?

O Tite tem o mesmo problema que eu tive. Eu vejo essa polêmica agora, da seleção convocando jogador que tá disputando o Brasileiro, mas quando o Tite põe o time dentro do campo, ninguém quer saber se elevou o pior, o melhor ou o mais ou menos.

Quer saber que ele tem de acertar o time. Daí a seleção viaja e não leva ninguém, chega lá, toma pau e o cara tem que aguentar crítica um mês seguido.

O que você pensa sobre a obrigatoriedade das equipes manterem uma equipe feminina para que os clubes possam disputar as grandes competições?

Sempre se apelou para que a mídia ajudasse, para que os clubes investissem e nunca houve investimento. É o melhor caminho? Óbvio que não, mas as pessoas têm que pensar também na parte social, que teria mais meninas praticando esporte. Para início, não é de todo mal.

Você deixou algum legado para o futebol feminino do Brasil?

O grande passo que demos foi a criação da seleção permanente. Mostramos que hoje a seleção precisa estar bem treinada. Se a atleta entende que não tem o treinamento adequado no clube, a atleta tinha de se virar. Quando tinha a seleção permanente, a gente cuidava disso. Como dificilmente a gente vai ter daqui pra frente, agora a atleta tem que entender que ela tem que se cuidar para chegar na seleção numa situação melhor.

Como você vê o sucesso de técnicos estrangeiros no Brasil?

Isso é um negócio polêmico. Está havendo uma desvalorização tão grande do treinador que parece que ninguém sabe nada aqui. Flamengo hoje é o melhor time, tem os melhores jogadores. Qual o mérito do Jorge Jesus? Ele pegou esses jogadores e encaixou bem dentro do que ele queria.

Não tem elenco melhor do que o Flamengo, então a tendência de ser campeão é maior. Você pega o Tiago Nunes no Athletico-PR e foi campeão da Copa do Brasil, então quer dizer que não sabemos mais nada? Um treinamento você pega na internet, não precisa nem fazer curso. O que tem que se discutir é filosofia de jogo.

Mas acredita que este intercâmbio é importante para o futebol brasileiro?

O Brasil sempre teve estrangeiros trabalhando aqui. O que está aborrecendo hoje o treinador brasileiro é que para entrar e trabalhar no Brasil é a coisa mais tranquila do mundo, e nosso curso da CBF ainda não é reconhecido lá fora. Você chega lá com sua carteira profissional de um curso de um país que mais ganhou título mundial, mas você tem que fazer curso provisório. Mas é saudável a troca de experiência, de cultura, sempre tem algo de diferente.

Você, que está visando um retorno ao futebol brasileiro, já recebeu alguma sondagem de algum time?

Sim, da Série B. Mas naquele momento eu estava querendo descansar um pouco, sem me precipitar. Por isso que eu tô me preparando mais para o ano que vem.

Cogita trabalhar um dia como diretor ou coordenador de futebol?

Por enquanto, não. Para eu trabalhar como coordenador, me preparar para ser um gestor, eu precisaria estudar, fazer um curso. Pretendo seguir treinando até os 70 anos (tem 63 atualmente).

E virar comentarista? Está em pauta?

Nossa senhora! É a coisa que eu mais quero (risos). Já comentei jogos, escrevi algumas coisas. A gente não tem dificuldade porque enxergava o jogo de dentro do campo, mas lá as coisas são muito mais difíceis, muito diferentes.

Com 28 anos de carreira, o que não realizou no futebol que ainda tem o desejo de alcançar?

Eu me sinto realizado. A única coisa que me frustrou nesse período todo foi a Olimpíada. Essa é uma coisa que não vou esquecer para o resto da minha vida. Se tivesse um dia que pedir a Deus alguma coisa, pediria a oportunidade de mais uma Olimpíada. Ela ficou tão próxima da gente, nos preparamos um ano inteiro para jogar aquilo lá. Se faltou alguma coisa, faltou isso.

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