O dia em que a Suíça eliminou o Brasil de Neymar e Coutinho para ser campeã mundial

Há nove anos, Seleção Brasileira foi desclassificada do sub-17 pelo time do mesmo país que enfrentará em seu primeiro jogo na Copa 2018.

Por Eliano Jorge - De Salvador para a BBC Brasil

A cobrança de escanteio vem do lado esquerdo da defesa. A cabeçada do suíço é forte, de cima para baixo, mas o goleiro Alisson consegue rebater. O volante Casemiro não alcança o rebote, e o adversário manda a bola para a rede aos 20 minutos.

O meia Philippe Coutinho cria grandes chances e atormenta quem vê pela frente, mas nada dá certo para o ataque brasileiro. A Suíça se salva em cima da linha de gol e, outras duas vezes, quase lá novamente. Neymar não consegue produzir nenhuma jogada perigosa e é substituído.

Um chute de fora da área trisca o travessão verde-amarelo. Alisson ainda evita que a derrota por 1 a 0 seja ampliada. E o Brasil, apesar de grande expectativa, acaba eliminado na primeira fase do Mundial. O time multiétnico da Suíça, com Haris Seferovic, Granit Xhaka e Ricardo Rodríguez, festeja a classificação, passa pela Alemanha de Ter Stegen, Götze e Plattenhardt, e sagra-se campeão ao final.

Não se trata de nenhuma previsão para as equipes que se enfrentam em sua estreia na Copa do Mundo de 2018, neste domingo (17), na Rússia. Tudo isso aconteceu mesmo. Foi quase nove anos antes, no Mundial Sub-17, na Nigéria.

Era a terceira rodada do Grupo B, em 30 de outubro de 2009, na cidade de Abuja. O Brasil não conseguiu nem a vaga como um dos dois melhores terceiros colocados para avançar às oitavas de final. Havia vencido o Japão por 3 a 2 e perdido para o México por 1 a 0.

O insucesso, porém, não impediu que ali se formasse um quarteto que agora integra o sistema defensivo, o meio-campo e o ataque do técnico Tite: Alisson, Casemiro, Coutinho e Neymar. Jamais tantas promessas que jogaram juntas num Mundial de categorias de base chegaram a uma Copa do Mundo como titulares da Seleção Brasileira. Nem mesmo as safras campeãs cinco vezes no sub-20 e três no sub-17.

102044634ac4b8eb09f114b53ada5d562e19b56fe-f2745a67387687a999bd0bbf03785625.jpg Depois de derrotar Brasil há nove anos, time da Suíça ganhou Mundial sub-17 / Arquivo pessoal/ Luís Guilherme

Volta por cima

"Todo mundo reclamou que era uma geração frustrada, que perdeu. Falei na época que iam chegar (ao sucesso)", afirma à BBC News Brasil Lucho Nizzo, 55, o treinador daquele time juvenil. Ele admite se sentir realizado por ser parte desse processo que culmina na Rússia. Orgulha-se de ter comandado, a partir do sub-15, outros três dos atuais convocados – o lateral esquerdo Marcelo e os meio-campistas Renato Augusto e Willian -, além de dois que ficaram na pré-lista – o meia Giuliano e o atacante Dudu.

"Fui o primeiro a convocá-los. Não sou o descobridor deles, mas tive oportunidade de participar do trabalho. Tenho certeza de que contribuí com esses meninos. Passamos dois anos em conversas, treinamentos e viagens", diz Nizzo. "A base não foi feita para formar vencedores, e sim profissionais que vão dar frutos lá na frente. Temos obrigação de formar o atleta e o homem", alega, defendendo-se das críticas pela campanha ruim na África.

"As realidades da base e do profissional são muito diferentes. Há muitas variáveis que interferem na carreira, por isso o jogador às vezes não vinga ou não atinge o que se esperava", avalia o goleiro Luís Guilherme, 26, herói na disputa de pênaltis que valeu o troféu sul-americano sub-17 de 2009 contra a Argentina. Depois, ele virou reserva de Alisson no Mundial da categoria.

Hoje no São Gonçalo, da segunda divisão do Rio de Janeiro, e formado em Psicologia, ele fala com conhecimento de causa. Aos 16 anos, havia sido promovido ao elenco profissional do Botafogo. Realizou períodos de testes no Manchester City, no Arsenal e no Lyon, mas a carreira não deslanchou na Europa.

Outras daquelas apostas pareciam mais previsíveis. "O potencial era nítido. Alguns jogadores, a gente sabia que era questão de tempo (para ter sucesso)", garante Luís Guilherme.

De início, cabia desconfiança. A comissão técnica divertiu-se com a surpresa do supervisor que, imaginando encontrar um garoto de porte atlético, se deparou com o biotipo infantil de Neymar quando foi buscá-lo sozinho num aeroporto.

A 'covardia' de Neymar e Coutinho

Foi entrosamento à primeira vista. Rapidamente, os franzinos Neymar e Coutinho passaram a se entender muito bem em campo e se tornaram amigos.

"Eram unha e carne. Faziam chover. Tinha hora que nós, goleiros, só olhávamos e aplaudíamos junto com a torcida", relembra Luís Guilherme. "Só andavam juntos", confirma Nizzo. "O que eles dois faziam (em campo) era covardia. Muita qualidade e velocidade de pensamento."

O único gol de Neymar no Mundial Sub-17, aliás, surgiu de um passe em profundidade de Coutinho que o deixou diante do goleiro japonês.

"Isso que a gente vê Neymar fazer, ele já fazia com 15 anos", atesta Nizzo. "Até fundamentos dificílimos, como velocidade com mudança de direção, e a bola coladinha no pé", exemplifica o ex-jogador de times pequenos que trilhou carreira de técnico, principalmente, em divisões de base.

A coragem e a ousadia são antigas, destaca Nizzo, que não esquece a imagem de Neymar saindo carregado de uma partida por causa das faltas sofridas num torneio na Europa. "Como o árbitro não coibia a violência, eu falava para evitar driblar, mas ele era abusado e dizia: 'Pode me dar porrada. Quanto mais me baterem, mais eu vou para cima deles"", conta.

Coutinho já mostrava dotes de organizador. Articulava jogadas, derivava para os lados e aparecia para finalizar. "Um atleta raro. Muita inteligência, ótima movimentação. Ele antevê, pensa antes de outro jogador. Quando domina a bola, já sabe o que vai fazer", elogia Nizzo. Na sua opinião, mais do que técnica e taticamente, o meia evoluiu no ganho de confiança. "Na Europa a cultura é outra, tem mais liberdade para tentar uma jogada."

Parceiro desde a seleção sub-15 e adversário de clube, Luís Guilherme descreve Coutinho como "muito humilde, centrado, de não falar muito". Esse perfil explica um pouco sua falta de vaidade em ser goleador. "Dizia que gostava mais de deixar os colegas na cara do gol", relata Nizzo.

Broncas em Casemiro

Algumas rusgas caracterizavam o relacionamento de Nizzo com Casemiro, a quem ele ainda se refere como Carlão, o nome usado no início da carreira. "Achava que eu tinha algo contra ele porque dava muito esporro. Então, chamei para conversar e disse: 'Se eu não gostasse de você, não o convocava. Enquanto eu estiver falando, é porque me importo com você e sei que posso tirar mais de você. Não vim para falar o que você quer ouvir, mas o que precisa ouvir"", lembra o técnico.

A partir daí, o volante se entendeu melhor com ele, que enumera velhas qualidades: "Ótima impulsão, ótimo posicionamento defensivo e ofensivo para bola aérea, fazia muitos gols de cabeça. Excelente ocupação e domínio do espaço, inteligência tática."

O goleiro Alisson foi visto pelo treinador ao disputar, pelo Internacional, um torneio no interior paulista. Estatura e rapidez chamaram sua atenção. "Era pouco rodado, imaturo, faltava jogar. Muito inteligente, tranquilo, bom de grupo. Até pela postura, sempre acreditei que ia chegar (longe)", diz Nizzo.

Outros convocados de Tite exigiram atenção especial. Nizzo conta ter sido bastante criticado na Confederação Brasileira de Futebol pela convocação do meia Willian. E, por identificar talento em Marcelo, acreditou na sua adapatação quando o lateral chegou do futsal.

Como um problema de adenoide levava Renato Augusto a se cansar prematuramente, Nizzo recomendou à mãe que apressasse a cirurgia que o curou. O treinador lembra de o meia ter tomado a iniciativa de ser improvisado como segundo volante para suprir um desfalque durante uma partida. "Quando Tite o colocou nessa posição, eu sabia que daria certo porque ele já tinha feito isso muito bem com 17 anos. Era muito inteligente e culto para a idade, muito técnico, com muito boa leitura de jogo."

A seleção tinha também o atacante Wellington Nem, hoje no ucraniano Shakhtar Donetsk, o lateral esquerdo Dodô, agora no Santos, o meia Zezinho, que está no Paraná, e o atacante Wellington Silva, atualmente no Internacional.

Luís Guilherme mantém contato com alguns daqueles colegas: "É mais por redes sociais". As provocações são inesquecíveis. Neymar, ainda chamado de Magrelo por Nizzo, também tinha o apelido de Pelinha por causa da magreza. Casemiro respondia por Biscoitão do Shrek devido à suposta semelhança com um personagem de desenho animado. A expressão "Nada a ver" substituía o nome de Coutinho porque era usada para comentar suas jogadas espantosas e inesperadas.

Trio importante na Suíça

Aquela foi a única vez que os suíços disputaram um Mundial de juvenis. Quatro dos jogadores passaram a defender outros países, como Albânia, Tailândia, República Democrática do Congo e Bósnia-Herzegovina. Nassim Ben Khalifa, que fez o gol sobre o Brasil, quase foi à Copa de 2010, aos 18 anos, mas teve passagem curta pelas convocações.

Os três remanescentes são frequentes titulares: Xhaka é peça-chave no meio-campo; o lateral esquerdo Rodríguez cobra os pênaltis, como o que rendeu a vaga nesta Copa; e Seferovic, autor do gol do título sub-17, é a referência no ataque.

"Era um time de muita qualidade. Muito bem treinado, dinâmico, de movimentação rápida", valoriza Nizzo. "Fizemos um grande jogo também", pondera.

"Grandes times têm problema em lidar com eles mesmos. Perdemos para nós mesmos", opina Luís Guilherme.

Clubes dificultaram a liberação de jogadores, como Neymar no Santos e Coutinho no Vasco, que já eram escalados na equipe principal. Parte da preparação ocorreu com desfalques, e alguns dos substitutos que tinham se entrosado com a seleção não continuaram para o Mundial. A equipe também não treinou em grama sintética, que foi o piso encontrado na Nigéria. "A bola corria muito, e os jogadores sentiam dificuldade", recorda Nizzo, que, no entanto, não usa os contratempos como desculpa.

Mais reencontros

Na primeira fase da Copa de 2018, outros jogadores brasileiros reencontrarão adversários de Mundiais das categorias de base.

O atacante Gabriel Jesus perdeu por 2 a 1, na prorrogação, o título sub-20 de 2015 para a Sérvia do goleiro Predrag Rajković e dos meio-campistas Andrija Živković, Marko Grujić e Sergej Milinković-Savić, na Nova Zelândia.

Douglas Costa era meia reserva da seleção também vice-campeã sub-20 em 2009, no Egito, que venceu por duas vezes a Costa Rica do lateral direito Cristian Gamboa, do lateral esquerdo Bryan Oviedo, do volante David Guzmán e do atacante Marco Ureña. Na estreia, por 5 a 0. Na semifinal, por 1 a 0.

Resta à torcida esperar que a "revanche" dos brasileiros contra os suíços seja bem sucedida.

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