Clodoaldo Silva: ‘Ficou um grande largado olímpico’

Por Metro Jornal Rio

Aposentado desde os Jogos de 2016, o atleta paralímpico de natação Clodoaldo Silva, 39 anos, foi convidado para fazer uma das palestras da Brazil Conference at Harvard & MIT. O evento acontecerá em abril na Universidade de Havard e no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em Boston (EUA). Também foram convidados o ex-jogador Ronaldo Fenômeno e a cantora Anitta. A Brazil Conference está em sua 4a edição e tem como meta discutir e propor soluções para os principais problemas do país. A conferência visa, além de estudantes brasileiros, representantes do governo, do setor privado e outros formadores de opinião.

Com 14 medalhas paralímpicas (seis de ouro, seis de prata e duas de bronze) no currículo, o atleta também acumula a honra de ter acendido a pira nos Jogos Rio 2016. Clodoaldo sofreu uma paralisia cerebral por falta de oxigenação ao nascer, o que afetou a mobilidade de suas pernas e sua coordenação motora. Ele conheceu a natação como processo de reabilitação em 1996, em Natal (RN), cidade onde nasceu. Quatro anos depois, já conquistava suas primeiras medalhas nos Jogos Paralímpicos em Sydney, em 2000.

Em 2012, ele foi convidado para ser mentor do time Nissan (que tem 11 atletas olímpicos e paralímpicos) e, em 2016, após os Jogos, anunciou sua aposentadoria. Agora, assumiu de vez a missão de inspirar e incentivar pessoas com e sem deficiência a praticar esportes. Clodoaldo conta ao Metro Jornal o que mudou depois da Paralimpíada no que diz respeito à acessibilidade.

Como recebeu o convite de fazer palestra em Harvard?

Fui o único convidado com deficiência e vou dar uma palestra sobre inclusão social através do esporte. Fico muito feliz, porque se hoje eu sou conhecido no Brasil e no mundo para receber um convite desse, foi através do esporte e da minha história. Comecei na piscina como reabilitação, e aí o esporte apareceu na minha vida. E, 20 anos depois, já tinha participado de várias competições importantes, ganhei 14 medalhas e acendi a pira Paralímpica do Rio de Janeiro. Então, estou feliz não apenas por ir palestrar em Harvard, mas por poder ser escolhido por uma nação e pelo que eu represento no segmento da pessoa com deficiência.

O legado Olímpico que foi prometido ficou?

Depois dos Jogos, virou um grande “largado olímpico”. Em 2007, tivemos o Pan e Parapan-Americano e vimos que também não ficaram grandes legados. Passo todos os dias pelo Parque Olímpico da Barra da Tijuca e vejo que está totalmente abandonado. E ainda acontecem tragédias como ocorreu no velódromo [dois incêndios em julho e novembro de 2017 por conta de balões que caíram na cobertura do equipamento]. Em 2016, quando eu era perguntado sobre o legado, eu falava que esperava algo que ficasse além de complexos esportivos. Queria que fosse o aspecto cultural do brasileiro, para que a gente pudesse ter mais visibilidade, mais respeitabilidade.

E tiveram?

Os Jogos Paralímpicos bateram o recorde de público. Nem na Olimpíada teve tanta gente assistindo aos jogos num só dia. O Parque Aquático ficava lotado todos os dias. A população, tanto do Rio quanto do Brasil e do mundo, não foi ali para ver coitadinhos e deficientes, foi para ver atletas e campeões. O único legado que realmente ficou foi justamente o reconhecimento dos atletas. Hoje, toda a sociedade brasileira reconhece um atleta paralímpico, mesmo com a diferença de visibilidade entre os atletas olímpicos e paralímpicos. O legado de ver uma criança sem deficiência nos reconhecer como atletas, isso ficou. Mas o legado de complexos esportivos, infelizmente, não teve.

Você acha que melhorou o dia a dia de deficientes não-atletas?

Não melhorou! De 2016 para cá, não melhorou a acessibilidade. Claro que existe uma sensibilidade maior para ver isso, mas só na teoria, na prática nada. Eu, que sou de Natal, mas moro desde 2005 aqui no Rio de Janeiro, e ando por vários lugares, vejo que ainda falta muito em questão de acessibilidade. Não é só no Rio, é no Brasil inteiro. É claro que houve algumas melhoras da minha infância até agora. Já temos, por exemplo, o ônibus adaptado, mas o grande problema é: a rampa não funciona e, quando funciona, a pessoa responsável não sabe operar o equipamento. Outra dificuldade é a falta de respeito. Às vezes vou a um shopping ou qualquer outro lugar e tem lá uma vaga para deficiente. Aí, tem alguém estacionado que não tem nenhum tipo de deficiência. Então, essa cultura ainda tem que evoluir e melhorar.


Já pensou em virar treinador?

Em nenhum momento. Só sei nadar, ensinar eu não sei. Às vezes, estou com amigos na praia e eles dizem que vão nadar para longe e “tudo bem, o Clodoaldo salva”. Eu falo que não sou salva-vidas, “não inventa, não, que vai morrer afogado” [risos]. Eu até gosto dessa ideia de pegar um garoto que não sabe nadar, de iniciá-lo na natação, começar um treinamento, ver o crescimento pessoal e profissional. Acho tudo isso muito legal. Só que o Clodoaldo Silva tem um papel muito maior do que apenas ficar na beira da piscina formando atletas. Quero fazer alguma coisa para o segmento da pessoa com deficiência e não só para o segmento esportivo.

E tem conseguido fazer isso agora que está aposentado?

Já tenho alguns projetos que faço na prática. Viajar pelo Brasil realizando palestras motivacionais. Participando de projetos sociais. Ainda não tenho o projeto do Clodoaldo Silva, mas tem associações aqui em Niterói, em São Paulo e em Natal das quais eu sou padrinho, então, vez ou outra, vou lá fazer uma oficina de natação, entrar na água com pessoas com e sem deficiência, bater um papo com pessoas de outras modalidades para poder incentivar. E a mensagem é: “Se eu consegui, você também consegue.”

E isso deve inspirar novos paratletas…

Apesar de eu carregar essa bandeira do segmento da pessoa com deficiência, tento incentivar pessoas com e sem deficiência a praticar esportes. Eu vejo que muitas pessoas sem deficiência conhecem a mim e à minha história. Quando saio de uma palestra em que eu conto minha vida e minhas tragédias pessoais de forma bem-humorada, eles [não-deficientes] saem pensando em mudar seus conceitos de vida. Eu me sinto recompensado. Se eu consigo passar esse meu exemplo de uma forma bem leve, para que outras pessoas queiram mudar de vida, me sinto recompensado.

METRO rio

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