‘Racismo é problema mundial’, diz Chester Williams, que inspirou filme ‘Invictus’

Por fabiosaraiva
Chester Williams durante passagem por Santo André, na Grande SP | Tiago Silva/Metro ABC Chester Williams durante passagem por Santo André, na Grande SP | Tiago Silva/Metro ABC

Na África do Sul, Chester Williams, 44 anos, é um herói. Ex-ponta da Seleção Sul-Africana de rúgbi, foi o único jogador negro na histórica conquista da Copa do Mundo da modalidade em 1995, disputada em um país recém-saído do apartheid, política racial segregacionista. No Brasil desde a semana passada para divulgar o rúgbi, Williams, uma das inspirações do filme “Invictus”, falou com exclusividade ao Metro Jornal durante a visita a um centro de treinamento em Santo André, no ABC Paulista.

Metro: Em 1995, muitos falavam que a África do Sul não tinha chance de ser campeã da Copa do Mundo de Rúgbi. O mesmo falam do Brasil em relação aos Jogos Olímpicos em 2016. O que você acha da situação?
Chester Williams – Nós tínhamos a nação apoiando a equipe e acho que vai ser a mesma coisa que com o Brasil. Com o futebol é assim. Mas os Jogos Olímpicos são diferentes. Há várias modalidades, rúgbi, futebol, atletismo, natação… O Brasil tem chance de ganhar medalha em algumas dessas, mas, para o rúgbi, o mais importante é o desenvolvimento do esporte. O Brasil não tem chance contra África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, França, Inglaterra, que são equipes fortes e devem ganhar as três medalhas. Vejo que, para o Brasil, o mais importante é fazer parte de tudo, representar o país com honra e orgulho e aproveitar o aprendizado e divulgar o esporte.

Qual é diferença entre o rúgbi de 1995 e o de hoje?
– Agora o jogo é mais rápido, há mais tempo de jogo e os jogadores são mais atléticos. Não são tão grandes, mas mais atléticos, musculosos, rápidos e mais preparados, tanto fisicamente quanto mentalmente. É um esporte físico, mas as pessoas pensam que é um esporte duro. Mas se você joga conforme as regras, as chances de se machucar são as mesmas do futebol. Às vezes há má sorte, mas na maior parte dos casos, nada acontece.

Como era sua relação com Nelson Mandela, ex-presidente do país?
– Tenho boas lembranças de Mandela. Nos encontramos algumas vezes, conversamos, ficamos amigos. Tive uma relação muito boa com ele. Sobre o racismo e aparthaid, ele me dizia para ser tolerante e respeitar as outras pessoas que elas fariam a mesma coisa comigo.

Conte um pouco sobre o apartheid. Como foi ser o único jogador negro na equipe durante a Copa?
– Foram tempos difíceis, com as coisas segregadas apenas para brancos e apenas para negros. Não tive a oportunidade de jogar com pessoas brancas até o meu último ano na escola. Aí comecei a jogar com eles. E eu queria quebrar as barreiras. Queria ser normal, não branco ou negro. Ser um ser humano normal.

Mas quando você começou a jogar na Seleção houve muito preconceito, sofreu com o racismo?
– Sim, sim, eu fui vítima de racismo. Mas eu sabia que, se quisesse estar ali e ter sucesso na África do Sul, eu teria de persistir e ser tolerante.

Nos estádios quando a Seleção jogava, como era a relação entre você e a torcida?
– No início foi difícil, mas à medida que eu fui jogando, a torcida me aceitou. Eu era um bom jogador e fui me tornando amigo dos jogadores. Me aceitaram muito bem.

No Brasil há muito racismo no futebol. Recentemente um goleiro [Aranha] foi vítima de racismo em um estádio no Sul. E Pelé não achou boa a atitude de o goleiro reclamar.
– É um problema mundial. Acredito que temos de aceitar uns aos outros, quem somos, como somos. Acredito que temos de falar sobre isso, sim, mas é importante saber quando falar. É melhor falar depois das partidas em vez de falar durante.

Mas quando o maior atleta do Brasil diz algo do tipo “você não tem de reclamar quando você for vítima de racismo”…
– Eu não sei, talvez as pessoas tenham entendido de uma forma diferente. Talvez Pelé tenha dito que ele [Aranha] não deveria ter reclamado no campo, mas fora dele, com as autoridades esportivas. Talvez seja isso.

Você teve alguma dificuldade na Copa do Mundo, vontade de desistir?
– Não, nada disso. Nunca pensei em desistir em 1995. Eu era o cara (risos).

Durante a Copa do Mundo, você se machucou. O quão difícil foi acompanhar os primeiros jogos de fora?
– Foi muito difícil. Eu era o número 1 e me machuquei. Foi difícil assistir os companheiros jogar, mas eu estava torcendo muito. Voltei nas quartas de final contra Samoa.

E como foi a experiência de se ver na tela em “Invictus”?
– Foi um orgulho estar associado aos Springboks [apelido da Seleção da África do Sul do rúgbi] e com a África do Sul durante a Copa do Mundo e após toda a situação de apartheid. Fiquei muito feliz em mostrar a África do Sul ao mundo.

No filme, é possível ver que os negros deram apoio aos Springboks, mesmo que o rúgbi seja um esporte mais “dos brancos”. Em 2010 aconteceu a Copa do Mundo de futebol, que é um esporte mais associado aos negros na África do Sul. Como foi?
– Foi incrível. Fomos um só país em 1995 e na Copa de 2010 foi incrível. As pessoas sabiam que faziam parte da Copa do Mundo. Brancos e negros apoiaram junto o time de futebol. As pessoas viram do que a África é feita, foi incrível.

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