10 anos após a morte de Serginho, caso é tido como fatalidade

Morte de Serginho chocou a todos no mundo do futebol  | Fernando Donasci/Folhapress Morte de Serginho chocou a todos no mundo do futebol
| Fernando Donasci/Folhapress

O dia 27 de outubro de 2004 entrou para a história do futebol brasileiro de uma maneira muito negativa. São Paulo e São Caetano jogavam no Morumbi pelo Campeonato Brasileiro, quando aos 15 minutos do segundo tempo o zagueiro do Azulão Serginho caiu desacordado em campo. Ele teve uma parada cardiorrespiratória. Era a primeira vez que um jogador de alto nível morria durante uma partida no Brasil. Dez anos se passaram e muitas pessoas envolvidas nesse trágico episódio ainda o consideram como uma fatalidade.

Os jogadores que faziam parte do elenco do São Caetano, que tinha sido campeão paulista, sua maior glória até hoje, há pouco tempo, garantem que ninguém sabia se o zagueiro tinha ou não algum problema cardíaco já conhecido. Nairo Ferreira de Souza, que segue como presidente do clube do ABC, no entanto, revela uma mágoa com o Incor (Instituto do Coração), e diz que o órgão fugiu de suas responsabilidades no assunto.

“Foi um dia muito triste e que lembramos todos os anos, mas que julgo como uma fatalidade. O São Caetano cumpriu todas suas obrigações em relação aos exames necessários. Isso não era uma novidade para o clube, já fazíamos todos os exames necessários nos jogadores há alguns anos e estava tudo em ordem. O que fica apenas é uma mágoa com o Incor, que não assumiu sua responsabilidade sobre o assunto”, revela o mandatário do clube em entrevista ao Portal da Band.

De acordo com Nairo, era o Incor o responsável pelo acompanhamento do atleta após os exames de pré-temporada. No início daquele ano, foi apontado que Serginho tinha uma leve arritmia, mas o instituto nunca chegou a proibir o zagueiro de praticar atividades físicas. A constatação aconteceu oito meses antes da morte do jogador.

“Tenho certeza de que se o São Caetano soubesse de alguma coisa que impedisse o atleta de exercer sua função, nunca que o Departamento Médico do clube iria permitir que ele jogasse”, garante.

Desespero

Um dos primeiros jogadores a se aproximar de Serginho, assim que o zagueiro caiu em campo, foi seu companheiro de time Anderson Lima. O desespero do ex-lateral-direito no momento foi um dos fatos mais marcantes daquele trágico momento.

“Foi uma grande fatalidade. Algo muito triste, que nunca imaginávamos passar. Realmente não sei se ele tinha consciência de que tinha algum problema. É difícil falar se alguém tem culpa sobre o que aconteceu”, opina ele, atualmente auxiliar técnico na Chapecoense.

Anderson, no entanto, lembra que Serginho chegou a ficar uma semana sem treinar, aparentemente sem nenhum motivo, e que chegou a questionar o porquê da ausência do zagueiro.

“Teve uma semana que ele não treinou e ai voltou a treinar, mas voltou a ficar ausente por mais um curto período. Eu já tinha passado por uma experiência com o Narciso, que teve um problema diagnosticado no coração, e fui questionar, mas me disseram que estava tudo bem, que ele só tinha ido fazer um exames de rotina”, relembrou.

Filme na cabeça

Quem também estava em campo naquele 27 de outubro era o atacante Fabrício Carvalho. Ele ainda se lembra com muito choque do que aconteceu no estádio do Morumbi. E ele tem motivos a mais para isso. Cerca de um ano após a morte de seu companheiro, foi a vez do próprio jogador ter um problema no coração diagnosticado, que o fez dar uma pausa de dois anos na carreira.

“Era mais do que natural eu me lembrar do Serginho quando me falaram que eu tinha um problema no coração. Lembro de todo desespero que teve no gramado. A gente vivia um grande momento, tinha sido campeão paulista e foi muito chocante aquilo tudo. O tempo passa e aquilo ainda fica na memória, mas a gente não sabe se ele tinha ciência do problema dele”, disse ele.

Em 2005, Fabrício Carvalho passava por seu melhor momento na carreira e era cobiçado por grandes clubes do futebol brasileiro. Após a pausa na carreira, nunca mais conseguiu voltar aos holofotes e seguiu jogando por clubes menores. Segundo ele, seu caso foi muito associado ao do zagueiro Serginho.

“Nunca me passaram um diagnóstico preciso e por isso fui procurar um especialista. Achava meio estranho ter que parar, porque nunca senti nada de anormal. Foi uma experiência dolorosa. Meu caso foi muito associado ao do Serginho e ficou em evidência. Quando voltei, os clubes ainda tinham certo receio de me contratar pelo histórico, mas graças a Deus consegui superar o meu problema”, relata o jogador, que ainda lamenta a forma como seu caso foi tratado pelo hospital em que foi internado e pela mídia.

Consenso

Algo que os três ouvidos pela reportagem do Portal da Band concordaram é que a situação melhorou no futebol após o episódio de Serginho, mesmo que às custas da vida de um atleta e que a partida nunca deveria ter sido retomada, mesmo que uma semana depois, já com a morte do jogador constatada.

“A ambulância estava fechada e sem médico. Os clubes e estádios não estavam preparados para isso. Precisou acontecer uma tragédia para apender. Desfibrilador era algo que ninguém via antes”, fala Anderson.

“Tivemos que esperar acontecer algo muito grave para tomarem as providências. Essa partida nunca deveria ter sido retomada, foi algo desnecessário. No campo estava só o nosso corpo, porque a mente estava longe”, opina Fabrício.

O presidente do São Caetano ainda lembra com carinho daquele jogador que foi buscar no Araçatuba para entrar para a história do clube. Nairo Ferreira diz que o Azulão pagou o salário de Serginho até o final de seu contrato para sua viúva e que sempre esteve à disposição da família do jogador.

Após a morte de Cabeção, como era chamado no Azulão, o clube foi punido com a perda de 24 pontos, que quase resultou no rebaixamento no Brasileirão, e uma multa de R$ 50 mil. O médico Paulo Forte, que todos os ouvidos foram unânimes ao dizer que ele não permitiria alguém jogar se soubesse de uma doença cardíaca, foi suspenso por um ano e meio. Ele também segue no São Caetano na mesma função e na seleção brasileira sub-21. Criminalmente, ninguém nunca foi responsabilizado pela morte de Serginho.

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