Ana Flávia Cavalcanti fala sobre papel social da arte: ‘quero combater a lesbofobia’

Conversamos com a atriz, autora, diretora e protagonista do aclamado curta-metragem “Rã”

Por Eduardo Ribeiro - Metro

Ana Flavia Cavalcanti é diretora, roteirista, performer e atriz. Seu primeiro filme, intitulado “Rã”, no qual assina roteiro, dirige e atua, foi uma das produções brasileiras de destaque na Mostra Geração do Festival de Berlim 2020. O argumento é fruto de realidades que ela viveu na infância. Narra a história de uma mãe e duas filhas que têm uma relação precária com a comida na periferia e consomem itens vencidos, comercializados por um mercadinho. Certa noite, tudo muda com a chegada de uma nova carga de alimentos fora do prazo.

Natural de Diadema, região metropolitana de São Paulo, Ana é filha de empregada doméstica. Suas vivências foram também inspirações determinantes para a criação das performances A Babá Quer Passear e Serviçal, nas quais discute a condição atual do empregado doméstico no Brasil e os mecanismos abusivos adotados pelos “patrões”.

A carreira como atriz deu uma guinada em 2017, quando estrelou a 25a temporada de “Malhação: Viva a Diferença”, na pele da diretora Dóris. Recentemente, esteve no ar no papel de Miriam, na novela “Amor de Mãe”. Mesmo com o período de isolamento social devido à covid-19, Ana continua realizando discussões sobre temáticas sociais por meio da arte. Pelas redes sociais, ela segue ampliando esses diálogos e reforçando a importância da cultura em momentos como o que estamos enfrentando. Quando a situação se normalizar, pretende lançar o seu próximo curta-metragem, “Estação Bresser”, cujo roteiro, já finalizado, relata a conturbada história de amor entre duas jovens paulistanas.

Ana Flávia Cavalcanti Cena do curta "Rã", dirigido por Ana Flávia / Divulgação

Você estava em plena forma vivendo a inspetora de polícia Miriam, que investigava a morte do personagem Genilson em “Amor de Mãe”, e de repente as filmagens tiveram de ser interrompidas por conta da pandemia. Como esse breque repentino foi sentido e o que ficou acertado com o elenco? Existe a possibilidade de a história ser retomada do ponto onde parou no futuro, quando tudo se amenizar?
Sim, estávamos super dentro da história, vivendo esses personagens a fundo e fomos pegos de surpresa com a paralisação. A Globo foi uma das primeiras empresas que tomou a difícil e correta atitude de parar praticamente tudo. No primeiro momento, sentimos alívio e um senso de responsabilidade muito forte da emissora. Afinal, pra fazer uma novela são envolvidas muitas pessoas e a proximidade física é fundamental. Passados os primeiros dias, bateu muita saudade do trabalho, da rotina, dos colegas e sobretudo de ver a novela no ar, pois “Amor de Mãe” estava indo muito bem, com picos de audiência marcando 37 pontos. A Manuela Dias escreve de uma maneira muito ágil, surpreende, todos os personagens se encontram e a história tem muitas viradas. O que me consola por enquanto é a memória da última cena que fiz, muito forte, com Irandhir Santos e Maria, e dirigida pelo Zé Villamarim. Eu amei muito e ela ficou pra segunda parte da novela. Assim que tudo isso passar iremos retomar as gravações e tenho certeza que estaremos todos muito emocionados e isso vai impactar muito a trama.

A temporada de “Malhação” da qual você participou como a diretora Dóris foi sucesso de audiência em relação a temporadas anteriores nos últimos anos. Isto certamente se deve ao enfoque de celebração às diferenças. Por outro lado, vivemos em tempos estranhos em que parece que a diversidade ainda incomoda muita gente no Brasil, motivando atitudes intolerantes. Como você acha que essa temporada específica, agora sendo reprisada, pode ajudar na expansão de consciência da geração que é o público alvo do programa?
“Malhação: Viva a Diferença” foi muito bem aceita pelo público alvo e pelos pais, avós e professores. Todo mundo se emocionou com essa história, que fala de gravidez precoce, assédio sexual, homofobia, poliamor, Síndrome de Asperger, amor entre amigas, corrupção, educação pública de qualidade, valorização dos professores. São temas profundos, abordados de maneira consciente tanto pelo Cao Hamburger (que escreveu), quanto pelo Paulo Silvestrini (que dirigiu) e pelos atores também. No que depender dessa temporada, não faltarão aos jovens oportunidades para se pensar enquanto sujeito-ativo socialmente e, principalmente, pensar as diferenças e respeitá-las.

Pela sua trajetória, é evidente o seu credo na arte como agente de transformações sociais. Nesse período de isolamento por causa do novo coronavírus, em que as pessoas estão usando mais os meios digitais para driblar o tédio, você acredita que é um bom momento para os artistas apostarem nesses canais não só para entreter, mas também propor ações e discussões pertinentes? Existe algum projeto ou iniciativa sua nesse sentido que possa comentar?
Nossas conexões são feitas majoritariamente pelos meios digitais e é um bom momento para nós propormos ideias que abracem essas plataformas. Porém, ao mesmo tempo, eu fico pensando em uma fala recente do Emicida, quando ele disse que parar é parar e às vezes a gente não consegue parar, tem sempre uma demanda muito forte por ação o tempo todo, ideias, planos, projetos, enfim. Eu tenho alguns desejos aqui e estou analisando como colocá-los em prática. Para adiantar um pouco a vocês, eu to pensando em alguma coisa que seja direcionada aos adolescentes, pois eu amo esse público.

Você é protagonista, roteirista e co-diretora de “Rã”, curta-metragem que foi destaque em Berlim e premiado em Brasília. Quais foram os elementos de sua vida pessoal trazidos para essa história?
O filme é muito autobiográfico, pois é uma história que eu vivi quando menina e, para ser ainda mais intenso, eu interpreto minha mãe! É um filme sobre o que eu vi quando menina, mas que só realizei no meu corpo e nas minhas ideias quando eu cresci. É uma homenagem aos afetos, à comida boa, às festas e aos vizinhos da favela onde eu cresci em Diadema.

Ana Flávia Cavalcanti Ana Flávia é autora, diretora e protagonista do curta "Rã" / Divulgação

Ouvi dizer que você tem outro curta a caminho, “Estação Bresser”, sobre a história de amor entre duas jovens. Em que pé está esse projeto e que tipo de nova abordagem você pretende dar ao diálogo sobre as mulheres jovens e lésbicas de uma grande cidade? Aproveitando o gancho: você assistiu “Meu Nome é Bagdá”? O que achou?
Sim, “Estação Bresser” é meu novo filme, acabei de terminar uma última versão. É a história sobre Kira e Samia, duas jovens mulheres que se apaixonam e resolvem viver esse amor e ao mesmo tempo são obrigadas a enfrentar a transfobia que começa na família de Samia e na sociedade de modo geral. O que mais me interessa nesse filme é abordar o amor e a descoberta sexual entre duas lésbicas jovens, quero apresentar essa relação de uma maneira bem realista e afetuosa, um filme para combater a lesbofobia. Em “Estação Bresser”, bom é quando elas ficam juntas e vão aprendendo mais sobre o amor e sobre si mesmas. Espero que esse filme se comunique com as mães e pais de mulheres lésbicas e jovens e que a partir dessa abordagem o diálogo se faça presente nessas casas. Eu vi “Meu Nome é Bagdá” em Berlim, na estreia, ele foi ovacionado, com uma sessão muito linda. Meu coração foi aquecido com uma história tão presentificada, sendo o filme moderno e parte do tempo em que vivemos.

"Acho cafona ter que falar sobre orientação sexual”, você disse em entrevista recente à Marie Claire. Isso me fez pensar que também é muito comum, em entrevistas ou conversas do cotidiano, perguntarem às mulheres, negras e negros de destaque em qualquer área, como é estar naquela posição. Exemplo: “Como é ser mulher e DJ?”, “Como é ser mulher e skatista?”, “Como é ser mulher negra no meio artístico?"… Em sua opinião, estamos longe de nos livrar desse tipo de "cafonice", que falsamente se propõe a questionar algo que na verdade endossa?
Acho super importante debatermos todas as questões que surgem em nossa sociedade. Acredito muito no diálogo, na escuta sobretudo. Agora, quando a pergunta é na direção do sensacionalismo, quando a vocação da pergunta é “causar” aí me dá preguiça e falávamos justamente sobre isso nessa entrevista à Marie Claire, que foi uma entrevista muito legal e profunda. Por vezes, a proposta de debater algo é falsa, mas a gente dá um jeito de virar o jogo. Para mim, o mais importante na pauta sobre orientação sexual é ser feliz, amar e ser amado, com responsabilidade, sinceridade e respeito, e termos políticas públicas que protejam as comunidades mais vulneráveis. O Brasil é o país que mais mata LGBTQI+.

Como foi o seu processo de formação teatral?
Eu me formei no Indac (Instituto de Arte e Ciência) e era exatamente essa escola que eu queria fazer. Tive ótimas mestras (Inês Aranha, Flávia Pucci, Kiko Marques, Maucir Campanholi, entre outros) e tenho muita saudade de lá. Eu adoro trabalhar na Globo e desde o primeiro teste até agora em “Amor de Mãe”, sou muito respeitada e querida pelas pessoas com quem trabalhei e trabalho. Eu costumo dizer, sobretudo para as jovens que querem ser atrizes e atores, que a Globo é um lugar para se trabalhar sim, mas existem outros e que às vezes a trajetória do ator não passará pela TV e que essa escolha precisará ser feita pelo desejo de atuar e não o de atuar exclusivamente lá. Sinto que as coisas vão caminhando mais naturalmente e uma hora ou outra trabalhar em uma emissora vai acontecer, sendo muito bom o reconhecimento pelo trabalho. Acho que nem podemos nos deslumbrar muito com os elogios, nem sofrermos demais com as críticas.

Ana Flávia Cavalcanti Ana Flávia em "A Babá Quer Passear" / Divulgação

Uma coisa que marcou seu nome nas redes sociais foi a performance #ababaquerpassear. De fato, a vida profissional e pessoal dessas mulheres tem muitos dramas velados que nunca haviam sido postos em discussão. Gostaria que discorresse um pouco a respeito das suas motivações para levantar essa questão.
A Babá Quer Passear é uma performance que eu criei pra discutir o trabalho doméstico no Brasil, um projeto intenso e muito pessoal. Nele, eu aproveito pra colocar em voz alta minha indignação em relação às condições de trabalho, salário e o significado de uma trabalhadora doméstica ainda nos dias de hoje. A repercussão da “Babá” é muito potente pelo fato de que esse tema é mal resolvido, a vida dessas mulheres é muito precária em termos de direitos sociais. Minha luta é por melhorias na vida da população mais pobre.

Além de A Babá Quer Passear e Serviçal, há novas performances que você gostaria ou pretende colocar em prática?
Quero fazer uma performance que coloque uma lupa no comportamento dos homens em relação aos corpos das mulheres, pois vivemos em uma sociedade que cultua o estupro. Para nós mulheres, uma simples caminhada na rua muita vezes é uma batalha. Para nos defendermos do assédio, temos que nos preocupar com a roupa, o decote, o comprimento e mesmo assim o assédio acontece. Eu acho muito louco viver em uma cidade como o Rio De Janeiro, em que temos uma vagão no metrô só para mulheres usarem no horário de pico, porque todos sabemos que os homens ali podem nos estuprar, nos assediar. Isso é normatizado e acho que ter o vagão é uma medida de proteção, mas antes disso precisamos discutir essa condição criminosa em que estamos inseridas.

Ana Flávia Cavalcanti Ana Flávia em "A Babá Quer Passear" / Divulgação

Na série “Sob Pressão” você encarnou a Diana, personagem que teve problemas com drogas. Como essa experiência lhe impactou pessoalmente e o que você pensa sobre as razões que fazem as pessoas seguirem por esse caminho do vício?
Eu amei fazer essa série e estamos ansiosos pela 4ª temporada, pois a Diana volta com tudo. Eu quero muito saber o que aconteceu com a Diana depois de ter voltado para o interior e em breve saberemos. É delicado resumir as razões pelas quais as pessoas seguem nesse caminho e não acho que seja uma escolha de caminho, mas sim uma questão de saúde pública, uma doença mesmo, que precisa ser tratada sem preconceitos e com todo o amor possível. Dependência química é um assunto de interesse público e eu acredito muito que, enquanto sociedade, um problema que afeta uma pessoa em algum momento afetará a todos. Por isso temos que pensar saídas juntos. O Narcóticos Anônimos tem um belo trabalho na recuperação e no apoio aos dependentes químicos, mas de toda forma, o poder público precisa se implicar mais.

Ana Flávia Cavalcanti Atriz em cena de "Sob Pressão" / TV Globo

Muito obrigado pela conversa! Deixo aqui o espaço aberto para divulgar ou comentar qualquer outro tópico que deseje compartilhar com os leitores.
Eu agradeço o espaço, pois é sempre bom poder falar o que a gente sente. O Metro Jornal é um jornal que eu adoro e sempre leio quando estou em São Paulo. Quero aproveitar para desejar saúde e fé pro nosso povo. Esse momento vai passar e espero ver todos com saúde boa.

Ana Flávia Cavalcanti Ana Flávia Cavalcanti / Divulgação
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