'A Vida Invisível': Irmãs tem sonhos frustrados pelo machismo em filme brasileiro candidato ao Oscar

Por Mônica Kanitz - Metro Porto Alegre

“A Vida Invisível” chega hoje aos cinemas respaldada por uma trajetória impecável, que começou com o prêmio principal da mostra Um Certo Olhar, no Festival de Cannes, e culminou com a indicação do Brasil ao Oscar de melhor filme internacional (a lista com os dez finalistas sai no início de dezembro). Em meio a isso, só elogios da crítica e do público e o reconhecimento internacional – o filme já foi vendido para mais de 30 países.

Em seu novo filme, o diretor pernambucano Karim Aïnouz nos brinda com mais um leque de personagens intensos e bem construídos. Vem sendo assim em sua filmografia, que inclui filmes como “Madame Satã” (2002), “O Céu de Suely” (2006) ou “Praia do Futuro” (2014), e agora a história tristíssima de duas irmãs. Inspirado no livro “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” (2016), de Martha Batalha, o cineasta de 53 anos quis fazer uma homenagem a sua mãe, já falecida, e a mulheres da mesma geração, principalmente àquelas que não sucumbiram às convenções de uma sociedade conservadora e ao machismo dominante.

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Porque é exatamente isso que acontece com as irmãs Guida e Eurídice (as atrizes Julia Stockler e Carol Duarte). De personalidades diferentes, mas muito unidas, as duas são filhas de um casal de portugueses e vivem os desejos da sua juventude no Rio de Janeiro dos anos 1950. Guida é intempestiva e decide ir embora com o grande amor da sua vida; já Eurídice sonha em ser pianista e estudar em Viena.

Só que a cartilha da época não dita sonhos e Eurídice logo se casa com um “homem trabalhador e bom”, interpretado por um inesperado Gregorio Duvivier. Enquanto isso, Guida volta, grávida, e o pai a expulsa de casa. A mentira que o patriarca conta neste momento de raiva vai separar as duas irmãs para sempre, ao mesmo tempo em que mostra seu caráter de macho dominador e intransigente.

Com uma opção pelo naturalismo e cenários que destacam a divisão social da época, Aïnouz assume que seu filme é um melodrama, desses carregados de momentos exagerados e injustos. Para ele, a década de 1950 contribui para o tom da trama e é muito importante para o tema central. “É interessante perceber como as mulheres conseguiram conquistar tantas coisas entre 1950 e agora e como os homens mudaram muito pouco neste mesmo período”, diz o diretor.

‘É um filme uterino’, diz Fernanda Montenegro

Fernanda Montenegro é a cereja do bolo de “A Vida Invisível”, uma espécie de “gran finale” para uma produção construída com capricho e atenção aos detalhes. O diretor Karim Aïnouz revela que sempre quis trabalhar com a atriz e que mudou o final do livro para tê-la em cena.

A grande dama do teatro brasileiro aparece nos 15 minutos finais da trama, vivendo uma conformada Eurídice na velhice. É o momento de revelações comoventes e, de uma certa forma, de acertar as contas com o passado.  Na coletiva de divulgação do filme, Fernanda elogiou a intensidade do roteiro e do elenco. “Este é um filme uterino, vaginal. É um filme que não é muito fácil de se ver no cinema brasileiro”.

Além da campanha para a inclusão de “A Vida Invisível” entre os finalistas ao Oscar de Filme Internacional, há uma grande mobilização dos produtores para ter Fernanda entre as indicadas a atriz coadjuvante. O Brasil, claro, fica na torcida.

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