Fabrício Boliveira sobre Simonal: 'Sua história perpassa pela questão racial'

Por Amanda Queirós

Após a parceria protagonista de “Faroeste Caboclo”, Fabrício Boliveira e Ísis Valverde sem reencontram em mais uma parceria, “Simonal”, filme sobre o ícone artístico Wilson Simonal, que estreia nesta quinta-feira (8) nos cinemas.

A produção, dirigida por Leonardo Domingues, conta a história do cantor interpretado por Boliveira, que saiu da pobreza para o topo do sucesso, mas que passa a ser questionado por escolhas que marcaram sua carreira e vida pessoal.

Como você definiria a “pilantragem” da qual Simonal se dizia rei?

Tenho a impressão que era uma espécie de ironia ou fuga da pressão exercida pela censura no período de ditadura na década de 1970 em cima da arte. A pornochanchada também é criada nesse período e, coincidentemente, o Carlos Imperial também é o criador.

Como foi o processo para encontrar o suingue do Simonal?

Acho que é dos meus pontos de intersecção com o Simonal: o suingue negro. Tem uma palavra no inglês que se chama “sweggar”, que entre os negros norte-americanos representa um jeito particular, carisma. Em português a tradução é arrogância. Acho que isso fala muito de como trataram o Simonal.

Ísis Valverde interpreta a mulher do cantor Simonal, Tereza Ísis Valverde interpreta a mulher do cantor, Tereza / Paprica Fotografia/Divulgação

Tudo indica que, se tivesse vindo ao mundo de hoje, Simonal estaria enquadrado naquela categoria de “isentão”. Por que o público cobra tanto o posicionamento de artistas em relação a tudo?

A gente pode começar pelo mito da construção do Herói e os Mitos que [Joseph] Campbell [autor de O Herói de Mil Faces] define em seus estudos. A “necessidade” de uma sociedade em ter pessoas que vivam e sejam representantes do exemplo social, nos erros e nos acertos, provoca o que Aristoteles chamava de catarse do público. Talvez bastante aprisionador pra ambos. Sinto falta de ver o público/agente virtual se colocar com mais profundidade e escolhas.

Vivemos um tempo de valorização da representatividade negra, mas a questão racial é marginal à história apresentada. Como Simonal lidava com isso?

Acho que a história do Simonal perpassa bastante pela questão racial. O [Ronaldo] Bôscoli, em um livro de memória, define o caso do Simonal como um dos maiores casos de racismo na história da música brasileira até então.

Você crê no potencial do filme de reabilitar Simonal do linchamento moral que ele viveu?

No mínimo reabrir a questão e dar a oportunidade dos brasileiros ver o que Wilson Simonal e sua família sofreram com a fake news que destruiu sua vida.


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