As Bahias e a Cozinha Mineira celebra nova fase da banda: ‘a liberdade se conquista’

Por Fred Lopes - Metro São Paulo

Há oito anos, os estudantes Assucena Assucena, Rafael Acerbi e Raquel Virginia se reuniam pela primeira vez para formar a banda Preto por Preto, em homenagem à canção “Back to Black”, da britânica Amy Winehouse. De 2011 para cá, a banda trocou de nome – passou a se chamar As Bahias e a Cozinha Mineira – lançou dois álbuns e se prepara para o terceiro, agora pela Universal Music.

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Para começar essa nova fase, a primeira música promocional foi lançada nesta sexta-feira (25), “Das Estrelas”, junto com um clipe. O vídeo, que conta a história de uma mulher trans agredida pelo namorado, conta com a participação da atriz Renata Carvalho, da peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”.  Ele vem na esteira do Dia da Visibilidade Trans, comemorado no dia 29 de janeiro.

O Metro Jornal conversou com a vocalista Assucena Assucena e o guitarrista Rafael Acerbi sobre as expectativas da banda para o próximo álbum.

Conforme vocês já falaram várias vezes, sabemos que o termo “As Bahias” do nome da banda vem do fato de que ambas vocalistas, Assucena e Raquel, são conhecidas pelo mesmo apelido, “bahia”. Mas por que “a Cozinha Mineira”?

Rafael: Eu sou de Minas Gerais e já tinha um histórico de tocar em bandas; lá a gente tinha o costume de usar o termo ‘a cozinha’, entre os músicos, para se referir ao baixo e à bateria. Mas só falamos assim quando os músicos já se conhecem e têm uma sintonia interessante. Quando começamos essa banda, eu resolvi chamar músicos que já conhecia para tocar, todos mineiros. E foi daí que veio a parte ‘a cozinha mineira’ – embora hoje em dia só tenha restado eu de mineiro.

O clipe de “Das Estrelas” conta a história de uma mulher trans que é agredida pelo namorado. Vocês acham que essas mulheres sofrem mais para ter um relacionamento amoroso?

Assucena: Com certeza! A música tem uma letra mais universal, mas o clipe direciona para essa pauta da transgeneridade. Faz pouco tempo que pessoas trans têm sido aceitas nos meios sociais, após muita luta do movimento LGBT. E é preciso mesmo “colocar a cara no sol”, como diz o ditado. Antes, era muito difícil conseguir um afeto, porque as pessoas encaravam as trans dentro de uma visão de feitiche ou hipersexualização, entre quatro paredes, mas nunca para um relacionamento público, como se não fôssemos capazes de amar. E o que queremos provar nesse clipe é que somos sim capazes de amar

A música de vocês é bem politizada. Qual a importância disso para a banda? E como está a expectativa de vocês para os próximos anos, considerando que a banda tem duas mulheres trans e que as pessoas LGBTs deixaram de ser prioridade do novo Ministério dos Direitos Humanos?

A: As conquistas são tímidas, ainda estamos na pauta da visibilidade. A Paolla Carosella, por exemplo, promoveu um curso de gastronomia voltado para mulheres trans. Precisamos de políticas assim, sejam feitas pelo Estado ou pelo setor privado. Não é uma questão de ter privilégios, mas de ter os mesmos direitos que todo mundo. A nossa expectativa para os próximos anos é de muita luta; nunca foi fácil e não vai ser mesmo. A liberdade não é algo que se espera. Se você espera que a liberdade venha do outro, já não é mais liberdade. A liberdade se conquista e é o que vamos fazer com nossos direitos, não tem outro caminho.

Vocês têm dois álbuns gravados, “Mulher” e “Bixa”. Rafael, como é para você falar desses temas, considerando a questão do lugar de fala?

R: Essa foi uma questão muito complexa desde o início. Levou um tempo para eu entender onde me encaixava ao lado das duas. Em um primeiro momento, eu caí até num processo de me anular mesmo, por não entender bem o que significa lugar de fala, até amadurecer e entender que não é uma questão de deixar de falar, mas de saber dos meus privilégios e o quanto estou ‘do outro lado’. O clipe vem bem dentro dessa proposta, de como a gente pode estar dentro de um movimento e agregar. E, claro, ficar atento às nuances de preconceito que ainda podemos ter.

Considerando que vocês acabaram de fechar contrato com uma gravadora maior e estão com uma proposta “mais pop e abrangente”, como estão os planos para 2019? Alguma parceria em vista?

R: No nosso primeiro disco optamos fazer um álbum sem parcerias, por escolha estética mesmo. Mas estamos indo para uma nova fase e tem todo um processo que vai começar agora, então muito em breve vamos ter algumas surpresas aí.

A: Já fizemos show com a Mel [ex-vocalista da Banda Uó], com a Pabllo Vittar, já fizemos parceria com a Linn da Quebrada, na música em “Absolutas”, estivemos no disco de Liniker… Acho que as parcerias acontecem naturalmente. E os planos para 2019 são megalomaníacos. Ter uma gravadora grande por trás é muito bom, porque nos permite tentar coisas em um nível diferente de quando éramos independentes. Estamos felizes de estar nessa nova casa, a Universal Music é o lar de muitos artistas que a gente admira.

Assista ao clipe de “Das Estrelas”:

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