Marina Abramovic completa 50 anos de carreira; leia entrevista

Por Paola Rizzi – Metro Internacional

Marina Abramovic sorri ao revelar: “Eu adoro piadas de duplo sentido”. Ela define a si mesma como a avó da arte performática, uma linguagem que ela começou a investigar em 1969, quando era uma estudante de artes plásticas em Zagreb, capital da Croácia. A trajetória da artista sérvia neste universo está sendo recontada em uma retrospectiva no Palazzo Strozzi, em Florença, que fica em cartaz até 20 de janeiro e contou, em seus primeiros 87 dias de exposição, com 115 mil visitantes, destes 70% mulheres. Foi da cidade italiana em que a artista plástica conversou com o Metro Jornal sobre seus 50 anos de carreira.

Como você explicaria seu sucesso?
Nunca me rendi, por isso tive êxito. Eu sou real. Amo muito o que eu faço e quero seguir fazendo até morrer.
É isso o que eu gosto.

Essa exposição no Palazzo Strozzi tem inspirado muitos jovens com o histórico de suas performances sendo recriado.
Essa não é uma exposição normal. É uma mostra viva, em que 32 artistas se inspiram em meus trabalhos marcantes, em um processo em que o público participa, em que se cria uma comunidade. Eu passei 50 anos da minha vida tentando levar a arte performática aos museus. Nos anos 1970, te pediam para fazer as performances durante as vernissages, enquanto o público tomava um vinho. Eu lutei para dar seriedade à performance.

Você acha que a arte tem uma missão política? Eu penso em sua performance “Balkan Baroque”, na Bienal de Veneza de 1997, durante a guerra na antiga Iugoslávia, quando você limpou uma pilha de ossos ensanguentados, ou mesmo performances mais recentes como “The House with the Ocean View” em que você passou 12 dias sem comer, vivendo dentro da mostra, sob os olhos do público e convidando-os à purificação.
Eu não acredito em um viés político na arte: a política muda diariamente e o que vale hoje já não vale mais amanhã. As sociedades podem ter necessidades diversas: políticas, sociais, espirituais. Assim, meu trabalho tem muitas camadas. House with the Ocean View, por exemplo, é um trabalho simples, que nos põe em contato com a existência, a vida em si mesma.

Qual a relação que você tem com a tecnologia?
Não devemos demonizá-la, temos que estar em sintonia com o espírito do nosso tempo. O problema é que dependemos dela, agora já não podemos viver sem um smartphone.

Você também?
O meu está desligado. Havia um artista, George Brecht (1926-2008), que dizia que estava disponível para falar só às quartas, das 15h às 17h. Neste ano eu farei algo neste sentido com meu e-mail.

Você já pensou em usar técnicas de realidade virtual ou as redes sociais em seu trabalho?
Existe a arte boa e a arte ruim. Muito da arte ruim está vinculada a estas novas ferramentas e ainda não tive nenhuma ideia para fazer arte boa com elas.

Você começou sua carreira na Itália e agora alcança a consagração Florença…
Nos anos 1970, a performance estava na moda, mas logo foi abandonada. Eu segui adiante. Me lembro que naquela época fiz um trabalho em Florença em que 12 pessoas foram me ver. Eu não tinha dinheiro, então tive que usar os lençóis da pousada que estava. Pensando bem, eu deveria devolvê-los. Eu vivi em uma caminhonete, ordenhei ovelha na Sardenha e aprendi a fazer um bom queijo de ovelha. Aprendi também a fazer casacos com a lã, mesmo se ela estivesse áspera. Agora, olhe para mim: 50 anos depois eu estou hospedada no Hotel Savoy (estabelecimento de luxo da cidade italiana).

Marina, a avó da arte performática

Abramovic não fazia arte sem sujar as mãos, usando seu corpo como um instrumento de arte e, muitas vezes, ferindo ela mesma neste processo, principalmente nos primeiros anos de sua atuação. Atualmente, sua arte tem um aspecto mais meditativo.

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