Martinho da Vila fala sobre Bandeira da Fé, o 48º e último disco da carreira

O sambista recebeu o Metro Jornal em seu apartamento para falar do novo disco, o 48º da carreira

Por Metro Rio
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Quando a porta do apartamento na Barra da Tijuca se abre, lá está Martinho da Vila, com uma taça de vinho tinto na mão e um largo sorriso no rosto, à espera do Metro Jornal. Talvez seja um exercício inócuo tentar decifrar o sorriso do cantor que, há quase cinco décadas, convida o público a cantar por ter a certeza de “que a vida vai melhorar”. Mas esse, em específico, deve ser o sorriso do artista que, no auge dos 80 anos, lança, o 48º álbum em 50 anos de carreira.

Em “Bandeira da Fé”, o sambista atualiza temas recorrentes em sua trajetória para traçar um panorama da sociedade contemporânea. A faixa-título, escrita no contexto da campanha das Diretas Já, em 1984, suscitou o desejo de fazer um álbum completo.

“Essa música foi feita há muito tempo, em parceria com o compositor Zé Katimba. Mas eu nunca a gravei. Aí eu fiquei pensando no momento atual brasileiro, em que a gente precisa acreditar, e decidi dar uns pequenos toques e gravá-la. O disco todo foi nessa linha”, revela Martinho.

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A desilusão com as peripécias políticas do Brasil contemporâneo é temperada pela confiança de que, sem esmorecer, é possível superar qualquer crise.

Mas o bamba que, em agosto, visitou o ex-presidente Lula (PT) na prisão, em Curitiba, assegura que não há a defesa de uma proposta partidária. “O artista não pode fazer um panfleto, porque isso não é arte”, opina.

No lugar disso, o que se ouve é um canto que exalta a mulher, o Carnaval e a negritude, com estruturas melódicas diversificadas e conteúdo lírico singular.

Samba de breque

Já na abertura, com “O Rei dos Carnavais”, Martinho se arrisca em um samba de breque – marcado pela pausa rítmica que chega a lembrar o rap. “Eu nunca tinha feito samba de breque e esse é o samba que mais gosto do disco, porque ele conta toda a história do gênero”, revela.

História essa, aliás, que está profundamente entrelaçada à memória do movimento negro. “Zumbi dos Palmares, Zumbi” faz uma ode ao legado do ícone da resistência contra a escravidão. “Ele é um símbolo brasileiro de liberdade e de luta. E essa música eu fiz para o ‘Concerto Negro’, espetáculo que estreou no Theatro Municipal, em 2000, em que eu falava do negro na música erudita”, relembra.

Último disco

Em “Ser Mulher”, Martinho ganha companhia da jornalista Glória Maria, que recita alguns versos da canção. “Eu escrevi como se fosse uma mulher falando. Pensei então na Glória Maria, porque ela se encaixa no poema”, afirma.

Com tantos temas pairando na cabeça desse bamba, a aposentadoria não aparece nem no horizonte. No entanto, Martinho garante que “Bandeira da Fé” será o último disco da carreira. “O tempo hoje não é mais o do CD. O ideal, agora, é gravar uma música ou duas e botá-las no ar”, crava.

Martinho da Vila Sambista de 80 anos promete que este é seu último álbum / Ricardo Borges/Folhapress
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