Machado de Assis morreu há 110 anos, deixando um estilo textual irônico e legado imortal

Por Metro Rio

A máxima do escritor francês George Leclerc, o conde de Buffon (1707–1788), de que o ‘gênio nada mais é do que uma grande paciência’ aplica-se perfeitamente à obra de Machado de Assis. Se 110 anos após a sua morte – que se completam neste sábado (29) – ele é considerado o maior romancista da literatura brasileira, é porque pacientemente burilou a técnica das palavras e, sobretudo, o estilo irônico e a filosofia mordaz que o imortalizaram.

“Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes” – ‘Memórias póstumas de Bras Cubas’

Afinal, na rígida hierarquia social do século 19, era improvável que, um dia, Joaquim Maria Machado de Assis pudesse ser reconhecido para além das terras do Morro do Livramento, no Centro do Rio, onde nasceu.

Machado de Assis em foto de perfil de 1904 Machado em foto de perfil de 1904 / Divulgação

Filho de lavadeira portuguesa e neto de escravos, negro e epilético, cresceu em meio à pobreza que contrastava com o luxo da sociedade imperial. No entanto, a influência da madrinha — patroa dos pais — e o gosto pela leitura fizeram com que ele construísse um arcabouço de referências: do inglês William Shakeaspere ao contemporâneo José de Alencar. Aos 21 anos, com trânsito nos círculos intelectuais, foi repórter e escreveu contos.

Essa experiência seria fundamental para que, em 1872, publicasse o 1o romance: “Ressurreição”. Apesar de bem recebido pela crítica, o escritor Silviano Santiago, especialista em Machado, diz que ele ainda não exibia as qualidades que o popularizariam. “No prefácio de ‘Ressurreição’, Machado se chama de ‘operário das letras’, um dos que não foram beneficiados pelos dons dos deuses, mas que aprendem pelo trabalho, esforço, curiosidade e ambição”, analisa Santiago, autor de “Machado” (Cia. das Letras).

“A loucura era até agora uma ilha perdida no oceano razão; começo a suspeitar que é um continente” – ‘O AlienMeista’

Romântico à realista

Na 1a fase da carreira, as obras de Machado eram marcadas pela influência do romantismo corrente. São do período “Helena” e “A Mão e a Luva”. À medida que envelhece, no entanto, pessimismo e ironia passam a dominar seu estilo. Até que, em 1881, ele publica o romance que mudaria a forma como, no futuro, seria estudado: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Narrado por um “defunto-autor” – que escreve sobre sua vida após a morte –, o livro indica seu caráter iconoclasta na dedicatória: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver.”

O crítico literário Domício Proença Filho, imortal da ABL (Academia Brasileira de Letras), diz que a obra não representa ruptura com anteriores, mas amadurecimento. “Ele insere modernidade no romance brasileiro. O Machado usou a técnica da digressão. O que importa não é a ação, mas as reflexões do narrador”, explica Domício.

Traiu?

A estética definiu a fase final da carreira de Machado, no realismo de “Dom Casmurro”. O livro é narrado pela ótica de Bentinho, que, na velhice, conta sua história de amor com Capitu, a dos “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. “Bentinho raramente dá a palavra a Capitu e, com isso, Machado cria uma personagem que é um enigma”, afirma o acadêmico. Apesar do casamento de 35 anos com Carolina Augusta Xavier, Machado morreu aos 69 anos sem herdeiros – espelho das derradeiras linhas de “Memórias Póstumas”: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado danossa miséria.”

Avenida Central com rua do Ouvidor em 1906 Avenida Central com rua do Ouvidor em 1906 / Marc Ferrez / Coleção Gilberto Ferrez / Acervo Instituto Moreira Salles

‘Bruxo do Cosme Velho’ retratou capital de um país em mudança

Em uma crônica publicada em 1939, o escritor Mário de Andrade elogiava a técnica narrativa de Machado de Assis, mas fazia uma ressalva: “Me parece indiscutível que ele, nos seus livros, não ‘sentiu’ o Rio de Janeiro”. Não é tarefa fácil questionar o escritor modernista. Mas é inegável que uma folheada pelos contos e romances machadianos funciona como passeio pela capital federal do século 19.

“A questão do Machado com o Rio ultrapassa geografia ou desenho e entra na parte subjetiva e humana”, afirma o doutor em literatura pela PUC-Rio Henrique Rodrigues, autor do livro “Machado de Assis: o Rio de Janeiro de seus personagens” (Pinakotheke).

O autor explora cenários frequentados pela elite imperial carioca, como Glória, Flamengo e rua do Ouvidor, no Centro. Esses endereços estão no app “Rio de Machado”, disponível para iOS e Android. Com mapas e sinopses, apresenta um roteiro pela cidade.

No entanto, mais do que endereços, Machado retratou a metamorfose da sociedade, da Monarquia à República. Mas o Bruxo do Cosme Velho, como ficou conhecido, por causa do endereço onde viveu com a mulher Carolina Augusta, não teve sua relação com o Rio valorizada. O casarão em que morou, em Laranjeiras, foi demolido.

Estátua de Machado em frente à ABL, que autor fundou Estátua de Machado em frente à ABL, que autor fundou / Dhavid Normando/Futura Pres

Textos já foram criticados por serem ‘simples demais’

Mais de um século após a morte de Machado de Assis, a língua portuguesa atravessou transformações. Por isso, uma ideia comum é a de que o texto machadiano é de difícil compreensão. “O engraçado é que ele, no seu tempo, era criticado por escrever um português tido como fácil demais”, observa o escritor Luiz Antonio Aguiar, que fez o livro “Almanaque Machado de Assis”, para descomplicar o autor.

A preocupação pela língua levou o autor a participar da fundação e presidir a ABL (Academia Brasileira de Letras). “O vosso desejo é conservar, no meio da federação política, a unidade literária”, discursou na posse, em 1897. Conhecido pela prosa, também escreveu poemas. Na semana passada, Aguiar descobriu um deles, para Dom Pedro II do jornal “O Mercantil”. “Esse texto se soma à devoção que o autor tinha pelo monarca”, diz.


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