Bill Cosby: como "paizão americano" virou "predador sexual" condenado e preso

Considerado no passado uma espécie de 'patrimônio nacional' dos Estados Unidos e capaz de atrair milhões de telespectadores, premiado ator americano foi condenado esta semana, aos 81 anos, por crime cometido há pouco mais de uma década.

Por BBC Brasil

O comediante Bill Cosby já foi conhecido por milhões de pessoas como o "pai da América".

Seu papel na TV como o simpático doutor Cliff Huxtable, na série The Cosby Show, popular nos anos 80, fez dele uma espécie de "patrimônio nacional" nos Estados Unidos.

Uma fama, porém, que mudou em meio a denúncias de estupro e assédio sexual – e de sua condenação, em abril, sob a acusação de ter drogado e molestado a ex-jogadora de basquete Andrea Constand em 2004. A sentença saiu nesta terça-feira: entre três e 10 anos de prisão.

Dezenas de mulheres acusam o ator, hoje com 81 anos, de má conduta sexual, mas apenas o caso de Andrea foi levado a julgamento.

As demais denúncias, mais antigas, não chegaram a ir a tribunal porque prescreveram.

Mas como o comediante americano foi do auge ao declínio?

Carreira

Nascido em 1937, William Henry Cosby Jr viveu a infância em um conjunto habitacional na Filadélfia e teve, ainda jovem, de engraxar sapatos e trabalhar em um supermercado para ajudar a pagar as contas em casa.

Com a tragédia da morte de um dos quatro irmãos, ele, o mais velho, acabou se tornando uma figura paterna na família.

Relatos sobre seus anos como estudante o retratam como brincalhão e um contador de histórias que adorava entreter os colegas de classe.

Depois da escola, ele entrou na Marinha dos EUA.

Foi para a universidade e teve um emprego de meio período como garçom.

Essa foi na época em que deu os primeiros passos na comédia, cobrindo ausências de um comediante do clube em que trabalhava e abrindo caminho para sua futura carreira e fama.

Sua estreia no The Tonight Show, da NBC, em 1963, rendeu-lhe um contrato de gravação com a Warner Brothers e o lançamento de uma série de álbuns de comédia premiados.

Em um deles, de 1968, intitulado To Russell, My Brother, Whom I Slept With (Para Russell, Meu Irmão, Com Quem eu Dormi, em tradução literal), Cosby consagrou os temas que definiriam seu trabalho – o pai como um disciplinador amoroso, irmãos que poderiam conspirar discretamente e, no minuto seguinte, fazer algazarra, e a confiança nos laços de família.

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A capa do álbum registrava: "Enquanto esteve no palco, Cosby não contou uma piada. Ele não cantou, não dançou ou fez truques. Tudo o que fez foi falar" – e, ainda assim, hipnotizou a plateia de 10 mil pessoas que assistia à gravação no Cleveland Public Auditorium.

Na época em que o álbum foi lançado, o comediante já era uma estrela de TV.

Quebrando barreiras

Em 1965, ele se tornou o primeiro ator negro a estrelar uma série de drama, quando foi escalado para I Spy, chamada em português de Os Destemidos.

Ele interpretava o papel do agente secreto Alexander Scott, em dupla com o ator Robert Culp, que vivia o também agente Kelly Robinson. Ambos atuavam disfarçados de tenistas.

Cosby não se enquadrava, porém, no perfil inicial do personagem.

O papel havia sido originalmente escrito para um ator mais velho, mas o produtor Sheldon Leonard ficou impressionado com um número de stand-up do comediante e decidiu reescrever a série como uma buddy comedy – ou comédia de amigos, em tradução literal -, um gênero em que duas pessoas, muitas vezes homens com personalidades contrastantes, são colocadas juntas em cena.

A estreia ocorreu em um período de grande agitação relacionada a questões raciais nos Estados Unidos e, com isso, a série chegou a ser banida em algumas emissoras em Estados do sul do país.

Ainda assim, Cosby ganhou três Emmys seguidos como melhor ator pelo papel, um recorde que ainda permanece no que é considerado o prêmio de maior prestígio para programas e profissionais de televisão.

Apesar de seu destaque na TV, Cosby tomou deliberadamente a decisão de não abordar diretamente o tema das relações raciais em seu trabalho, preferindo expor essa questão de forma mais sutil.

"Uma pessoa branca me ouve em cena, ri e pensa: 'Sim, também é dessa maneira que eu penso"", disse ele certa vez.

"OK. Ele é branco. Eu sou negro. E nós dois vemos as coisas do mesmo jeito. Isso deve significar que somos iguais. Certo?"

"Então eu penso dessa forma, estou fazendo tanto em prol das boas relações raciais quanto os outros."

O The Cosby Show, que foi lançado pela NBC em 1984 e transmitido por oito temporadas, foi seu maior sucesso e o consolidou junto ao público.

Baseado em seus números de stand-up, o retrato de Cosby como um médico rico e educado – o doutor Heathcliff "Cliff" Huxtable – e suas experiências como pai de cinco filhos pequenos traçavam paralelos com sua própria vida.

Sua mulher na TV, Claire, era em certa medida baseada em sua própria esposa, Camille, com quem se casou em 1964.

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Um dos programas mais populares da década de 1980, a série era assistida por cerca de 30 milhões de telespectadores por semana. Em 1989, o ator ganhava US$ 4 milhões por mês apenas em direitos de distribuição.

Quando o show foi cancelado, em 1992, Cosby embarcou em vários outros projetos, incluindo papéis no cinema, mas nunca foi capaz de repetir o sucesso.

Em 2013, ele chegou a receber boas críticas pelo primeiro programa de stand-up que fizera na TV depois de 30 anos e começou uma turnê nacional.

Sua volta por cima, no entanto, caiu por terra em meio a várias acusações de abuso sexual supostamente cometidas quase três décadas antes.

Quais eram as acusações?

As acusações surgiram pela primeira vez em 2005, quando Andrea Constand, funcionária da Temple University, onde Cosby cursou o ensino superior, disse que havia sido drogada e molestada pela estrela da TV na casa dele um ano antes.

Os promotores decidiram não apresentar acusação contra o ator, alegando falta de provas, mas Constand entrou com uma ação civil contra o comediante.

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Treze mulheres, 12 das quais permaneceram anônimas, concordaram em ser testemunhas, cada uma com um relato semelhante de agressão sexual.

Cosby negou as acusações, que seu advogado chamou de "absurdas", e o caso foi resolvido fora do tribunal em 2006 por uma quantia não revelada.

Nos anos seguintes, algumas das testemunhas de Constand se apresentaram e contaram suas histórias à mídia. As acusações não tiveram grande repercussão, contudo, até o momento em que Cosby ensaiou um retorno à TV e voltou aos holofotes.

Mais de 50 mulheres acusaram a estrela de abuso sexual ou estupro, mas devido aos prazos vigentes na legislação americana para a prescrição de crimes, apenas uma – Andrea Constand – conseguiu levar a história aos tribunais.

Os advogados de Cosby negaram as acusações de forma contundente, chamando-as de "frenesi midiático" e questionando por que as mulheres não haviam feito denúncias legais na época em que disseram que foram atacadas.

Em 2014, Cosby disse que não havia abordado as acusações em público porque "um cara não precisa responder a insinuações".

Mas, logo em seguida, documentos judiciais inéditos datados de 2005 vieram à tona e mostraram que ele havia admitido ter adquirido sedativos para dar a mulheres jovens com quem queria ter relações sexuais.

Os sedativos, chamados Quaalude, deixam as pessoas incapazes de se mover.

As acusações interromperam suas esperanças de retornar ao show business.

O canal de TV a cabo TV Land retirou da programação as reprises do The Cosby Show, alguns de seus shows de stand-up foram cancelados e os que foram mantidos atraíram diversos manifestantes.

Sua estátua foi removida do parque MGM Hollywood Studios, na Flórida, e várias faculdades retiraram graus honorários que haviam concedido a ele.

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Seus retratos foram retirados das paredes da universidade em que se formou, a Temple University, na Filadélfia, e ele renunciou ao cargo que ocupava no conselho de administração da instituição.

O que aconteceu quando o caso chegou aos tribunais?

A princípio, parecia improvável que alguma ação criminal contra Cosby fosse adiante, em parte porque o chamado "estatuto de limitações" – a lei que estabelece o prazo máximo depois do suposto crime para que a vítima ou qualquer outra parte dê início ao processo judicial – se aplica a casos de estupro e agressão sexual na maioria dos Estados dos EUA.

Isso significa que há um limite de tempo para que os casos possam ser julgados ou serem considerados prescritos.

O caso de Andrea Constand, entretanto, estava dentro desse limite e foi a julgamento.

O caso foi visto como um dos maiores julgamentos envolvendo uma celebridade nos Estados Unidos desde as audiências em 1995 do ex-jogador de futebol americano OJ Simpson, acusado de assassinato.

Em junho de 2017, Constand contou sua história no tribunal pela primeira vez, tendo anteriormente sido impedida de fazer isso devido a um acordo fechado em 2006.

Ela disse que Cosby havia dado-lhe pílulas, alegando que eram feitas de ervas e a deixariam "relaxada" – elas, na verdade, teriam-na deixado "paralisada".

"Na minha cabeça, eu estava tentando fazer minhas mãos ou minhas pernas se mexerem, mas não conseguia", disse ela.

Cerca de 20 minutos depois, disse ela, ele colocou a mão em sua genitália.

"Eu não conseguia lutar, resistir de nenhuma forma", disse ela ao tribunal. "Eu queria que aquilo parasse."

Cosby continuou a negar as acusações. Ele não apresentou provas de sua suposta inocência, mas teve uma testemunha.

No final, com Cosby possivelmente enfrentando o resto de sua vida na prisão se considerado culpado, o júri ficou num impasse, e um julgamento acabou anulado em junho de 2017.

Como foi o novo julgamento?

O novo julgamento, que teve início a 9 de abril de 2018, aconteceu em meio a um novo contexto.

Uma enxurrada de acusações de assédio sexual havia vindo a público – desde outubro do ano anterior -, desencadeando o surgimento de um movimento chamado #MeToo – que levantou o debate sobre crimes sexuais cometidos por homens poderosos da indústria do entretenimento, entre eles o produtor cinematográfico Harvey Weinstein e o ator Kevin Spacey.

O julgamento de Cosby se tornou um dos primeiros de celebridades da era #MeToo, e a decisão do juiz de permitir que mais cinco mulheres testemunhassem contra ele foi vista como um avanço importante.

Desta vez, o júri formado por cinco mulheres e sete homens levou dois dias para considerar o comediante culpado por três acusações de agressão sexual. Meses depois, ele foi condenado a cumprir uma pena total de três a 10 anos em uma prisão estadual. A sentença saiu nesta terça-feira.

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