Guitarrista do Titãs fala sobre novo livro e falta de investimentos na área cultural

Por Metro Rio

A história de Humbardt e Lolita, contada pelo russo Vladmir Nabokov no livro “Lolita” (1955), é conhecida mundialmente. A trama acompanha as tentativas do padrasto de manter relações sexuais com a enteada, de apenas 12 anos.

Em seu 10o livro, “Lô”, o guitarrista Tony Bellotto inverte a relação: desta vez é a adolescente Jú, de 15 anos, que transforma o ex-surfista Lourenço Barclay, em objeto de desejo. O autor faz um estudo satírico das relações de poder e demonstra uma habilidade para desenvolver personagens complexos.

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Bellotto, 58, é integrante dos Titãs há 36 anos e pai de dois filhos, de seu casamento com a atriz Malu Mader, 52. A vida do casal já se cruzou no âmbito profissional, quando ela fez uma personagem de Tony no longa adaptado do livro homônimo “Bellini e a Esfinge” (2001), parte de sua quadrilogia de romances de detetive.

Como a experiência de músico se diferencia da de escritor?

Todas as formas de criação vêm daquela inquietação essencial do fazer artístico. A diferença fundamental para mim é que a banda é uma coisa coletiva, e a literatura é um ato solitário. Na música, eu levo minhas ideias para a banda e trabalhamos coletivamente. Quando levamos isso para o palco, vemos a resposta de maneira instantânea, e é muito prazeroso. A escrita é solitária. Você toma as decisões sozinho e segue o caminho sozinho porque não vê a reação de quem está lendo. A satisfação da literatura é mais introspectiva.

Qual é a maior dificuldade de escrever ficção de nicho, como seus romances de detetive?

De certa forma, as histórias do Bellini seguem um padrão, onde acontece um crime e o detetive, como narrador, vai tentar desvendar o enigma e é levado ao longo da história. Nos meus outros romances, eu tento fazer coisa diferentes. Alguns são até policiais, onde acontece algum crime, mas a forma da narrativa é diferente. Nos romances não policiais, sinto que posso me expressar mais.

De onde veio a inspiração para “Lô”?

A fagulha da inspiração veio de reflexão sobre “Lolita”, de como aquele livro foi escandaloso. Me perguntei: o que poderia causar um escândalo tão grande hoje em dia? Nada. Hoje, quem seria a Lolita seria o próprio homem mais velho, e eu queria fazer do cara vaidoso um homem ingênuo, infantilizado. Criei essa história como uma sátira social.

Muitos consideram que o livro de Nabokov normaliza o comportamento predatório de Humbardt.

Nabokov foi muito feliz em fazer o livro narrado pelo Humbardt, o cara que, ao seduzir Lolita, mostra um cinismo, uma terrível frieza da alma humana. A beleza da arte é mostrar esses personagens, que são terrivelmente vis, mas que nos fazem pensar sobre a nossa natureza. Não adianta aplicar uma análise do politicamente correto por dentro de como funciona a cabeça de um cínico. Não concordo com a ideia de que estimula um comportamento errado, porque o Nabokov mostra justamente essa coisa incontrolável da alma.

Tivemos recentemente a tragédia anunciada do incêndio do Museu Nacional. O que a cultura representa para o brasileiro?

A importância da cultura é enorme, mas ela é subvalorizada e desvalorizada. Os governos não investem e não levam a sério. As grandes preocupações são economia, transportes… A educação e a cultura ficam em segundo plano. Tem pouca verba, as pessoas ainda têm dificuldade em reconhecer a importância da cultura como uma função básica. E o reflexo disso a gente vê no descaso com os museus… Perdemos algo irreparável, foi um patrimônio consumido pelas chamas.


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