HQ 'Cumbe', de Marcelo D'Salete, recebe prêmio Eisner

Por FABIANE GUIMARÃES/ METRO BRASÍLIA

Era madrugada do último dia 20 quando o quadrinista paulista Marcelo D’Salete acordou com ligações entusiasmadas dos amigos. Surpreso, ele descobriu que a sua HQ “Cumbe” (“Run For It”, pela editora Fantagraphics) – Uma Jornada pelo Brasil Colonial Escravagista – havia ganhado o prêmio Eisner de melhor edição americada para uma publicação estrangeira. O troféu é considerado o “Oscar” dos quadrinhos.

“Eu realmente não imaginava, embora soubesse que estava concorrendo”, conta o autor. “Cumbe” foi publicada no Brasil em 2014, pela editora Veneta. O quadrinista admite que, nessa época, avaliava se continuaria a produzir do mesmo jeito, uma vez que seus livros anteriores não haviam atingido o público como o esperado. “Cumbe” se tornou, então, o ponto de virada de sua história. A HQ traz quatro narrativas sobre escravos no período colonial.

Alguns conflitos abordados são individuais, outros mais coletivos. Uma das questões presentes nas histórias, por exemplo, é a formação dos quilombos, espaços de resistência que, à época, eram chamados de mocambos. “Em cada história, tentamos abordar de certa forma os dilemas daqueles personagens, o ser negro naquele período”, conta D’Salete. O processo de produção da HQ envolveu muita pesquisa sobre o Brasil do século 17, as revoltas ocorridas no período e a própria cultura do povo Banto, trazido da África para trabalhar à força nas plantações brasileiras.

No dialeto africano, inclusive, o título da HQ quer dizer “sol, chama, fogo”. O livro faz parte de uma série desenvolvida por D’Salete, com todas as histórias envolvendo a cultura e trajetória do povo negro de alguma forma. Já foram publicadas “Noite Luz”, “Encruzilhada” e “Angola Janga”. “Cumbe” também foi publicado em Portugal, na França e na Alemanha. Resgate da história D’Salete explica que, embora a escravidão seja um dos contextos maiores de seu trabalho, “Cumbe” vai além disso.

“O meu foco não é falar apenas de escravidão, embora tenha parte desse contexto, mas falar das possibilidades dessas pessoas de terem autonomia em suas ações para confrontarem o sistema”, explica. Agora, D’Salete trabalha em outra obra, que deve refletir o Brasil contemporâneo.

“Ainda lutamos pelo reconhecimento simbólico, cultural, econômico e político no Brasil dos remanescentes quilombolas, dos territórios indígenas e do simples direito à vida de cada jovem de periferia. Os quadrinhos, a literatura, as artes são componentes essenciais para uma mudança estrutural”, avalia.

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