Entrevista: José Padilha joga luz sobre terroristas hesitantes em ‘7 Dias em Entebbe’

Longa retrata sequestro real de avião liderado por grupo pró-Palestina em 1976

Por Amanda Queirós

Conhecido por conduzir filmes de ação com fortes tons políticos, como “Robocop” (2014) e “Tropa de Elite” (2007), o diretor brasileiro José Padilha resolveu se enveredar pelo conflito entre Israel e Palestina com “7 Dias em Entebbe”, que está nos cinemas. O longa revive um episódio real, ocorrido em 1976, quando um grupo ligado à Frente Popular para a Libertação da Palestina sequestrou um avião que fazia a rota entre Tel Aviv e Paris com o objetivo de trocar os reféns pela libertação de terroristas. Padilha busca compreender as motivações dos dois alemães que estavam ao lado sequestradores, Böse (Daniel Brühl) e Brigitte (Rosamund Pike). Na opinião dele, “se você não olhar para o terrorismo, não vai entender o que ele é”.

Você lida com uma questão muito passional e polarizada. O fato de ser brasileiro o ajudou a se distanciar disso?

Acho que sim. O fato de eu não estar envolvido diretamente com o conflito do Oriente Médio contribuiu para eu ter uma visão mais objetiva do que está acontecendo lá, o que não quer dizer que as pessoas que estão no meio do conflito não possam observá-lo objetivamente. Também não quer dizer que eu esteja certo.

Essa história tem vários pontos de vista, mas você se concentra no dos terroristas alemães. Por quê?

Na verdade temos dois focos: a relação dos terroristas com seus reféns e também o conflito entre o [primeiro-ministro de Israel, Yitzhak] Rabin e o [ministro da Defesa, Shimon] Peres. Você não entende a operação militar de resgate se não olhar para Böse e Brigitte. Ela só teve sucesso porque os terroristas resolveram não matar os reféns. Para narrar a história certa, você é obrigado a encarar esse fato. E como é que vou explicá-lo sem olhar para o arco emocional desses dois, dentro do terminal, durante aqueles sete dias? Os sequestrados também tiveram atuação importante no resultado da missão. Eles perceberam que Böse ficava chateado quando era acusado de nazismo e conseguiram criar uma dúvida nele. Acho isso interessante porque deve existir algum momento de dúvida na trajetória de qualquer terrorista. Ninguém nasce terrorista. Entender como isso acontece é importante.

Por que falar de terrorismo virou tabu nos dias de hoje?

É difícil se debruçar sobre um assunto como esse porque ele é muito violento e pessoas inocentes morrem. Estudar um terrorista significa estudar em que condições um ser humano perde a capacidade de pensar e se dispõe a fazer atos inaceitáveis. Não é fácil,  se envolver com esse tipo de estudo, mas ele é necessário se a gente quiser terminar, limitar ou diminuir a formação de pessoas que entram nisso. Se você não olhar para o terrorismo, não vai entender o que ele é.

Por que trazer a dança de Ohad Naharin para o filme?

Eu já conhecia o trabalho dele. Sempre achei essa dança particularmente bonita e metafórica sobre Israel e quis trazê-la para o filme. Criamos a personagem da bailarina que namora um dos soldados, e essa foi uma maneira de falar que Israel não se resume aos conflitos que tem vivido ao longo da historia. Israel tem uma cultura muito rica que transcende o militarismo.

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