Atração da próxima Flip, Leïla Slimani fala sobre culpa feminina, filhos e trabalho

Por Amanda Queirós/Metro São Paulo
canção de ninar

Aos 36 anos, a marroquina Leïla Slimani representa a nova cara da literatura francesa. Radicada no país desde a adolescência e apontada pelo presidente Emmanuel Macron como embaixatriz da francofonia, ela ganhou o mais prestigiado prêmio literário francês, o Goncourt, com o romance “Canção de Ninar”, que acaba de ser publicado no Brasil.

O livro lida de forma muito direta com sentimentos complexos das mulheres em relação à dicotomia entre a criação dos filhos e o trabalho a partir da história de Myriam, que vê seus piores medos se tornarem reais quando os dois filhos pequenos são assassinados pela própria babá.

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Leïla estará na próxima Feira Literária Internacional de Paraty, entre 25 a 29 de julho. Mãe de duas crianças, ela confessa ao Metro Jornal que escreveu o livro para expurgar seus próprios temores.

Quão difícil foi para você abordar esses assuntos?
O medo de perder os filhos é muito universal, mas não podemos falar sobre ele porque seria impossível viver assim. Temos que nos esquecer dele e, ao mesmo tempo, fazer de tudo para proteger nossos filhos. Fiquei interessada em explorar esse paradoxo, mostrando quão difícil é para uma mãe sentir esse medo e, ao mesmo tempo, uma certa solidão por não poder expressar esse sentimento. Tentei confrontar meus próprios temores e dizer realmente o que eu sentia todos os dias enquanto mãe. Esse medo esteve presente desde o início da minha relação com meu primeiro filho, então queria falar sobre isso e ser bastante honesta a respeito.

Por que ainda é tão difícil para as mulheres serem mães e trabalharem da mesma forma como os homens já estão acostumados?
Nunca perguntamos aos homens como eles fazem para ter tudo, porque parece natural que eles possam ser pais e profissionais ao mesmo tempo, mas a gente sempre pergunta isso às mulheres. Todo mundo me pergunta como faço com os filhos, já que viajo muito por causa do trabalho. Tento administrar a rotina para compartilhar todos os fardos de ter numa família, mas é muito difícil para as mulheres, porque somos acometidas de muita culpa, um sentimento de que nunca fazemos bem o que estamos fazendo. Sempre temos uma sensação de incompletude. Talvez as mulheres devam aceitar o fato de não serem perfeitas. Apenas tentaremos fazer o nosso melhor.

Li que você abandonou seu primeiro romance, que abordava políticas de identidade. Mas “Canção de Ninar” acaba tocando nisso ao inverter papéis e apresentar uma mãe marroquina e uma babá francesa, não?
Claro, mas acho que, no meu primeiro romance, eu tratava isso de forma muito literal e até um pouco clichê. Era como uma caricatura, e eu precisava contar a história de outro personagem, diferente de mim, para falar de políticas de identidade. Eu tinha a sensação de que perdia a objetividade quando falava apenas de meu próprio ponto de vista. Então quis falar a partir de outros personagens que não eu.

Você entende “Canção de Ninar” como um thriller?
Não acho que seja, porque o thriller tem seus próprios códigos e eu já começo contando o final. Então não existe suspense, você já sabe o que vai acontecer. Acho que ele se parece mais com uma tragédia moderna. Você sabe o fim já de partida: as crianças vão morrer. A questão não é quem vai fazer aquilo, mas o porquê, a psicologia de cada personagem e como algo assim poderia acontecer a uma família comum, de pessoas como eu ou você.

O livro fala bastante sobre intimidade compartilhada…
A questão da intimidade é muito importante nos meus livros. Para mim, ela é um paradoxo em qualquer tipo de relação. Quando você mora com alguém, você tem a sensação de que a pessoa conhece você, mas a intimidade nos deixa cegos. O fato é que não conhecemos as pessoas nem quando dividimos o mesmo teto com elas. O que se mostra nas redes sociais é apenas a superfície, não é real, pois, na verdade, sempre há algo impossível de falar sobre nós mesmos. Então sempre vai haver algo do outro que eu nunca saberei.

A cineasta Maïwenn (“Meu Rei”) vai adaptar o livro para o cinema. Era importante para você ter uma mulher dirigindo essa história?
Não posso dizer que tenha sido eu quem escolheu ter mulheres diretoras, mas o contrário. Muitas cineastas me procuraram querendo fazer o filme. Acho que o tema mexeu mais com as mulheres do que com os homens. Confio completamente em Maïwenn e acho que ela fará um trabalho incrível.

Seus filhos têm uma babá. Ela leu o livro?
Sim, ela leu. Disse que eu era louca. Ela acha muito sombrio o fato de eu ter contado essa história, mas, no fundo, ela disse ter adorado.

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