Como se formam as bolhas na economia? O megainvestidor Warren Buffett responde

A explicação faz parte de uma entrevista dada em 2010 pelo magnata à Comissão de Investigação da Crise Financeira dos Estados Unidos e tornada pública recentemente, quando o Arquivo Nacional americano retirou a confidencialidade de uma série de documentos referentes à crise imobiliária.

Por BBC Brasil

Praticamente todas as áreas do conhecimento recorrem aos jargões para sintetizar fenômenos e para facilitar a comunicação entre seus especialistas.

Alguns deles são curiosos. É o caso, por exemplo, das bolhas na economia.

O termo começou a ser usado no mundo financeiro no século 18, por causa da Companhia dos Mares do Sul (South Sea Company). Fundada em 1711 no Reino Unido, com uma perspectiva pouco realista de fazer fortuna com os direitos exclusivos que os britânicos haviam conquistado de fazer comércio com a América do Sul, a companhia atraiu investidores de todo o país.

Um deles foi o cientista Isaac Newton, que perdeu muito dinheiro quando, em 1720, o preço das ações disparou, por causa de forte especulação, e despencou no momento seguinte.

Antes da Companhia dos Mares do Sul, esses episódios eram chamados de "manias" – e a "tulipomania", protagonizada pelas flores que são símbolo dos Países Baixos, no século 17, é considerada a mais antiga bolha econômica registrada.

Ainda que seja um termo leve para identificar algo capaz de causar estragos tão sérios, a metáfora é apropriada: ela indica que os preços estão inflados e frágeis ao mesmo tempo, que existe uma valorização baseada em algo sem substância.

Como elas se forman?

Entre os documentos referentes à crise financeira de 2007 antes confidenciais e recentemente tornados públicos pelo Arquivo Nacional dos Estados Unidos há uma entrevista que a Comissão de Investigação da Crise Financeira (FCIC, na sigla em inglês) fez com o magnata Warren Buffett em 2010, para questioná-lo sobre o que pensava haver causado a bolha de crédito imobiliário que estourou no país anos antes.

A explicação dada por um dos investidores mais ricos do mundo é clara como água, ressalta Helena Holodny, jornalista do periódico Business Insider que escreveu sobre os documentos, e uma leitura importante para qualquer um interessado em economia comportamental ou em investir.

99471920gettyimages145775577-ffa13cbd6831131292f3270eb39d578a.jpg Buffett é a terceira pessoa mais rica do mundo, segundo a revista Forbes / Getty Images

"… Meu antigo chefe, Ben Graham, fez uma observação há mais ou menos 50 anos que ficou gravada na minha cabeça – e agora encontrei evidências concretas que a reforçam", diz Buffett durante a conversa com os membros da comissão.

"Ele me disse: 'Você pode ter muito mais problemas ao investir em uma premissa sólida do que em uma premissa falsa'".

Se alguém se depara com a premissa de que a Lua é recheada de queijo, exemplifica Buffett, percebe imediatamente que ela não faz sentido.

Mas foi o raciocínio lógico de que as ações vinham tendo desempenho melhor do que os títulos de dívida que criou a bolha de 1929, ele continua.

As pessoas pensaram que as ações seriam algo maravilhoso e se esqueceram das limitações da premissa original.

O mesmo aconteceu com o mercado imobiliário nos anos 2000.

A premissa de que os imóveis valeriam mais e mais com o tempo porque o dólar tendia a valer menos é totalmente sólida.

E diante do fato que 66% ou 67% das pessoas querem ter uma casa própria e podem pedir dinheiro emprestado para realizar esse desejo, alguém que sonhe em comprar um imóvel e acredite que ele aumentará de valor tentará adquiri-lo logo que for possível.

Essa é uma premissa muito sólida. Ela está ligada, no entanto, às circunstâncias em que os imóveis são vendidos pelos chamados preços de substituição, que não ultrapassam de maneira significativa a inflação.

Assim, o raciocínio lógico de que é uma boa ideia comprar uma casa neste ano porque provavelmente ela vai valer mais no próximo, acompanhado do fato de que se pode financiar esse imóvel, se distorce com o tempo se os preços passam a subir algo como 10% ao ano frente a uma inflação anual na casa dos 2%.

994947636fa04d8cec2446aea9fc3916901bbc62-f1614246a927b6b4987e4c585b220ec3.jpg Muitos imóveis ficaram nas mãos dos bancos por consequência da crise hipotecária | Foto: Joe Raedle/Getty Images / BBC

Em algum momento, a chamada "ação do preço" – termo técnico para o movimento muitas vezes aleatório desses valores – assume o controle e as pessoas passam a querer comprar três, cinco casas. Para isso, se submetem a condições de pagamento que não podem cumprir – mas isso não faz diferença, ressalta Buffett, já que, de qualquer maneira, as casas valerão mais no próximo ano.

Os credores, por sua vez, pensam o mesmo.

Quando esse movimento ganha impulso e é reforçado pela "ação do preço", a premissa original fica em segundo plano, como aconteceu em 1929.

Com a internet aconteceu a mesma coisa, acrescenta o bilionário. Ela ia mudar nossas vidas – mas isso não significava que todas as empresas que apareceriam por causa dela valeriam US$ 50 bilhões, ilustra o investidor.

A "ação do preço" se torna tão importante para as pessoas que assume o controle: ela toma conta de seus pensamentos.

No caso da crise das hipotecas, os imóveis era um ativo ainda maior, algo como US$ 22 trilhões, e algo extremamente compreensível para o grande público – que poderia não entender de ações, de bulbos de tulipa, mas que entendia o que significavam os imóveis e que queria comprá-los de qualquer maneira.

"E os financiamentos, que poderiam ser alavancados sem limites, tudo isso criou um bolha como nunca tínhamos visto antes".

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