Longa 'Una' é uma espécie de 'Lolita' para a época da pós-verdade

Por admin

Publicado em meados dos anos de 1950, “Lolita”, de Vladimir Nabokov, causou controvérsia – na verdade, causa até hoje – ao contar a história de um abuso sexual disfarçado de história de amor. O que muitos leitores da época – talvez até no presente – não perceberam é que o romance explora o quão vil e doente era seu protagonista, Hubert H. Hubert.

Ao narrar pelo ponto de vista deste personagem, o autor cria uma voz ridícula, mas sedutora, a ponto de quase nos convencer de sua paixão pela sua enteada. Quase. Nabokov era um mestre. A escolha das palavras, as digressões apaixonadas, tudo servia ao propósito de mostrar como eram patológicos esse sujeito e seu “amor”.

Leia mais:
Relações perigosas tornam oitavo ‘Velozes e Furiosos’ o mais sombrio da franquia
‘Chegou a hora de partir’, diz Peter Capaldi às vésperas de deixar ‘Doctor Who’

O filme “Una”, que estreou nesta última quinta-feira (13), adaptado de uma peça premiada de David Harrower, que também assina o roteiro, pode ser chamado de “Lolita da era da pós-verdade”. O principal problema da obra já se revela no plano formal, quando substitui o ponto de vista do homem-abusador pelo da vítima, de forma a torná-la, praticamente, senão culpada, no mínimo, digamos, quase contente com o abuso que sofreu na adolescência.

Rooney Mara é Una, uma jovem misteriosa, vivendo num subúrbio qualquer da Inglaterra com sua mãe. Já na primeira cena a vemos numa balada, onde acaba transando com um desconhecido no banheiro. O filme, logo de cara, mostra o pouco apreço que ela tem pelo sexo. Para ela, é mais um instinto, uma necessidade fisiológica do que qualquer outra coisa. Quando a narrativa retrocede, vemos a personagem-título ainda aos 13 anos (Ruby Stokes) dizendo seriamente para uma câmera: “Ray, por que me abandonou?”. Trata-se do julgamento do homem que a molestou (Ben Mendelsohn) e, sem que ela tenha acesso à sala onde a audiência acontece – preservada num outro recinto longe do olhar do criminoso –, desesperada, ela confessa seu amor.

Esse sentimento durará por mais de uma década, quando, agora adulta, independente, mas emocionalmente instável, ela procura esse homem no seu trabalho não para o confrontar, mas para dizer que ainda o ama. Ao menos, é assim que a personagem se sai nas mãos de Rooney. A obsessão dela por Ray é tão forte e sufocante que o público quase sente pena dele. E esse não parece ser o melhor ângulo para abordar um caso de pedofilia.

Os flashbacks mostram de maneira crua como era doentia essa relação – ele a levava para uma moita no parque para a apalpar, enquanto ela o masturbava, até terminar, num hotel, depois de uma fuga, às vias de fato. Os floreios visuais do diretor australiano Benedict Andrews também pouco ajudam a filtrar o que há de tóxico nesse filme, que ultrapassa os limites sem muita responsabilidade.

Stanley Kubrick adaptou o romance de Nabokov em 1962 – Adrian Line também o fez em 1999, mas isso é melhor esquecer – e o cartaz do filme dizia: “Como ousaram fazer um filme de Lolita?” Pois é, ousaram mais de meio século atrás, e Andrews e seu filme não avançam agora numa discussão na questão do abuso – apenas perpetuam um clichê fetichizado da adolescente que se apaixona pelo homem que podia ser seu pai.

O drama francês “Elle”, do ano passado, levantou altas discussões sobre a representação do estupro e o olhar masculino. O filme de Paul Verhoeven era bastante bom e essa problematização não foi nada gratuita. “Una” não tem esse potencial, pois cozinha em fogo brando seu assunto explosivo e toma decisões pouco acertadas quanto à sua condução.

 

Assista ao trailer do filme:

Loading...
Revisa el siguiente artículo