Premiado na França, Marcello Quintanilha discute cultura do abuso em nova HQ

Por admin

Screen Shot 2016-05-02 at 17.55.23Em vez do forte colorido de seu “Tungstênio” (2014), trabalho premiado no Festival de Angoulême no início do ano, o recém-lançado “Hinário Nacional” apresenta um Marcello Quintanilha mais sóbrio, apostando na combinação de preto e branco. O quadrinista, porém, mantém a crueza da narrativa e a riqueza das metáforas para provar que história em quadrinhos está longe de ser um entretenimento só para crianças e pode ser uma porrada literária para adultos.

Assim como toda a obra de Quintanilha, “Hinário Nacional” reflete um aspecto da sociedade brasileira que todos resistem em enxergar. A brutalidade da violência cotidiana é registrada sem acobertamentos: os agressores e as vítimas, na visão do autor, formam todos um sistema que tem o objetivo de esconder sua própria sujeira.

“Será que ninguém enxerga, minha gente, que não adianta vestir fanatasias se por baixo só existe a mesma pele imunda?”, questiona o autor em um dos seis contos que compõem o livro.

Leia também:
Tribunal de Minnesota inicia processo de avaliação da fortuna de Prince
Princesa Charlotte completa um ano e, para celebrar, família real divulga fotos

A metáfora bem encaixada é o segredo de todas as histórias da publicação. A primeira delas, “Ave Maria” mostra a fragilidade de um casamento a partir da associação dele com uma partida de futebol na qual todos se movimentam, mas ninguém saber exatamente para onde está indo.

O segundo dos contos, que dá título ao livro, é o mais impressionante. De forma pertubadora, Quintanilha cria a metáfora de uma vespa que violenta uma lagarta para narrar o drama de uma menina vítima de pedofilia.

Ainda compõem o livro outras histórias chocantes, como a de um homem que decide violentar uma mulher para provar sua masculinidade a si mesmo, e outras mais sutis e – infelizmente – rotineiras, como a do taxista que vai além dos limites no “elogio” a uma passageira.

Não é só na narrativa, porém, que Quintanilha encanta seus leitores. O projeto editorial de “Hinário Nacional” é igualmente impressionante: a ausência de cor é o primeiro aspecto notado, contrastando com as páginas amarelas do livro.

O traço ora duro, ora incompleto, mas sempre envolto em um denso sombreamento, é um paralelo claro com as formas com que os personagens lidam com as violências que eles cometem ou das quais são vítimas. A única razão aceitável para não se gostar do trabalho de Quintanilha, portanto, é falta de estômago. Talento ele tem de sobra.

O quadrinista brasileiro mora na Espanha há quase dez anos, mas volta ao Brasil para participar de eventos como a Comic Con Experience. Ele já está confirmado na próxima edição da festa, que ocorre de 1º a 4 de dezembro no São Paulo Expo.

Conteúdo Patrocinado
Loading...
Revisa el siguiente artículo