Itaú Cultural abre mostra para celebrar 40 anos da arte de Laerte

Por fabiosaraiva

Uma homenagem a Laerte pauta a 20ª edição do projeto Ocupação, que abre nesta semana no Itaú Cultural.

Organizada por seu filho, o também cartunista Rafael Coutinho, a exposição apresenta cerca de 500 trabalhos que representam uma trajetória de 40 anos. O número de obras pode parecer alto, mas é ínfimo perto da produção da artista durante o período, que pode chegar a 100 mil ilustrações. Ou seja, a seleção é o puro ouro da ilustração brasileira.

“Me chamaram [para ser curador] exatamente por ser filho e quadrinista”, explica. “Aos poucos, fui lapidando o perfil do que seria apresentado. E foi muito difícil e surpreendente, pois é um grande volume de material de qualidade”, conta. Rafael decidiu que a Ocupação não teria foco nos acontecimentos recentes na vida de Laerte, quando se assumiu transexual. “O meu interesse é mostrar a força e o volume de alguém que não parou de produzir desde os 20 anos. Arte e vida se misturam muito e isso é difícil de ver por aí”, reflete.

“É estranho ver uma retrospectiva sua”, comenta Laerte. “Uma vez que publiquei um trabalho, ele passa a ser uma coisa estranha. Evidente que reconheço o que fiz, mas não tenho uma relação de afeto como quando eu estava criando, que é o meu momento máximo de aproximação. Então essa mostra me deixa com sentimentos ambíguos”, analisa.

Na Ocupação Laerte será possível ver desenhos dela quando criança, a resistência à ditadura, sua participação na revista “Piratas do Tietê”, seu trabalho com figuras como Overman e Homem-Catraca e até sua fase mais experimental, sem personagens. “Os temas são quase sempre os mesmos, da minha relação com o mundo, minhas inquietações. Hoje estou mais ‘senhora da situação’, mais no controle do que sinto, e isso se reflete no meu trabalho, deixando-o mais consciente.”

Por fim, Laerte comenta sobre a produção feminina no meio e se mostra empolgada com o surgimento de bons nomes na arte, mas não hesita em dizer que ainda há machismo. “Cartunista é visto como masculino. Stanislaw Ponte Preta se divertia elegendo ‘gostosinhas’ do mês, reduzindo a mulher a um monte de carne. Como ela vai se aventurar em mundo onde se vigora esse tipo de ideia?”, questiona. Porém, a homenageada enxerga esperanças: “vejo um mundo em transformação. Ainda bem.”

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