Laerte fala sobre preconceito e defende a criminalização da homofobia

Por Carolina Santos

A cartunista Laerte Coutinho, de 63 anos, endossa o coro que pede uma legislação que criminalize a homofobia. Para ela – que nasceu do sexo masculino, mas se define como feminina – é essencial tornar legalmente visíveis casos de preconceito por conta da orientação sexual de um indivíduo.

“Crimes específicos devem receber atenção específica da legislação – foi assim com o racismo, com a violência doméstica contra a mulher e deve ser também no caso da homo e transfobia. Senão esses episódios acabam invisibilizados, que é a tática da direita, já expressa por aí por Felicianos e Gentilis variados”, afirmou a artista em entrevista ao Portal da Band.

Nesta semana, o incêndio de um local no Rio Grande do Sul onde ocorreria um casamento coletivo, com 28 casais heterossexuais e uma só união homoafetiva entre mulheres, evidenciou que a questão está longe de estar resolvida. Entre 2013 e 2014 foram documentados 312 assassinatos de gays, travestis e lésbicas no Brasil, de acordo com relatório divulgado pelo Grupo Gay da Bahia. Os números representam um assassinato a cada 28 horas.

tirinha laerte

Como já contou diversas vezes desde que apareceu vestida como mulher, em 2010, Laerte, cuja primeira relação foi homossexual, demorou quatro décadas para assumir publicamente sua figura feminina. Apesar disso, o medo de agredida pela sua orientação não foi um fator determinante para não ter se revelado na adolescência

“Tive pânico por ter percebido em mim o desejo por homens, um desejo sob forte estigma. Não me passou pela cabeça a ideia de ser agredida… Talvez porque, naquela época – dado o relativo enrustimento social da população homossexual – não eram muito comuns os ataques homofóbicos em público”, explicou. “Pode ser que fosse só desinformação da minha parte.”

Criador de personagens marcantes como Hugo (que se tornou Muriel), os Gatos e Overman, a cartunista receberá uma homenagem com a exposição “Ocupação Laerte”, que será inaugurada no dia 20 de setembro no Itaú Cultural, em São Paulo, com cerca de dois mil trabalhos da artista.

A exposição, multifacetada como Laerte, também mostra indiretamente a transformação na figura da artista. “Acho que é um movimento que está contemplado na mostra, de alguma forma. Como não se trata do único eixo da vida de uma pessoa, vem misturada com tudo mais”, explica.

Sobre o riso muitas vezes provocados por suas tirinhas, Laerte diz que ele pode servir para combater o preconceito em algumas situações, mas não em todas.

“Rir, o breve verbo rir. É um palíndromo, mas não é a solução para os momentos duros. Esses momentos precisam de ações mais decisivas – que podem conviver com o riso, claro”, filosofa.

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