Convidado da 31ª Bienal de SP, romeno Dan Perjovschi fala ao Metro

Por Nadia
O artista Dan Perjovschi desenhando para capa especial da bienal de arte | André Porto O artista Dan Perjovschi desenhando para capa especial da Bienal de Arte | André Porto/ Metro

Por meio de ironia e traços aparentemente simples, o romeno Dan Perjovschi faz comentários ácidos e politizados sobre nossa condição em um mundo de extrema desigualdade. Ele é um dos cem convidados da 31ª Bienal de São Paulo, que abre no sábado no parque Ibirapuera.

De impacto imediato, seu trabalho estará nos vidros que recobrem o pavilhão da Bienal. O Metro Jornal adianta o que ele traz em sua primeira passagem pelo Brasil e retoma as origens do artista, que, antes de frequentar museus e bienais – como a de Veneza – publicava em jornais.

Como você descobriu que poderia se valer da ironia na arte?

O humor sempre esteve comigo, mas levei 12 anos de instrução acadêmica em arte e outros 10 para esquecer o que aprendi e voltar a essa habilidade. Inicialmente, comecei a usá-la em jornais logo após o colapso do comunismo. Depois de praticá-la por anos dentro do mundo sociopolítico, eu a transferi para o cubo branco da arte, e isso foi algo muito bem sucedido. Mas uso humor e ironia não para destruir ou zombar, mas para entender, para criar uma distância das coisas e vê-las melhor. Minha intenção é empática e nunca cínica.

Como você compreende a mídia, especialmente após a Primavera Árabe e o modo como as redes sociais têm sido usadas como ferramentas para o noticiário?

O noticiário, a grande imprensa e, mais recentemente, a mídia alternativa são a principal fonte de temas da minha arte. Eu desenho estereótipos e questões globais com as quais as pessoas podem se identificar. A Primavera Árabe foi um evento enorme e eu o acompanhei pelas lentes da mídia, alternando pela primeira vez as fontes de notícias. Tive essa sensação quando derrotamos o regime ditatorial [na Romênia]. Eu conhecia o poder provocado pela sensação de liberdade e o desespero que vem a seguir.

Você trabalha em paredes, mas tem desenhado para murais do Facebook. O que esse espaço oferece a você enquanto artista?

Caderno de rascunhos de Perjovschi  | fotos: André porto/metro Caderno de rascunhos de Perjovschi
| fotos: André porto/metro

Desenho em paredes, pisos, janelas e escadas. As pessoas me dão lugares estranhos e que estão sobrando, e sou feliz porque, neles, meus desenhos podem conservar sua força.

Nos últimos quatro anos, eu me envolvi mais com mídias sociais e, de alguma forma, tenho traduzido [os desenhos] das paredes do museu para o mural do Facebook. Fiz muitos desenhos sobre a resistência no parque Gezi em Istambul [em 2013] e os postei na minha página do Facebook. Para minha surpresa, as pessoas os compartilharam e usaram como suas ilustrações de capa. Foi emocionante, porque meus amigos estavam lá nas ruas lutando e o único jeito que eu tinha para ajudar era por meio dos meus desenhos. Agora isso se tornou uma prática. Tenho me envolvido em algumas questões ambientais em meu país. Meus desenhos foram baixados e as pessoas saíram às ruas de todo o planeta protestando com eles. Foi incrível. Nenhum museu oferece isso.

Mesmo assim, nunca esqueço da mídia impressa. Um jornal é um espaço público colecionável. A relação entre texto e imagem e o ato de folhear as páginas é uma experiência única. Amo jornais. Para mim eles significam liberdade. Foi após a ditadura na Romênia que conheci essa sensação incrível de liberdade de se poder publicar algo sem censura. Fui parte disso e nunca me esquecerei.

Como você chegou ao desenho?

Sempre gostei de desenhar e, quando criança, fazia cartuns de meus professores que faziam bastante sucesso entre meus colegas. Não havia grafite na Romênia comunista porque o espaço público era totalmente controlado. Após estudar pintura por muitos anos, percebi que não gostava daquilo nem era bom, então eu precisava de uma linguagem própria. Algo direto. Comecei a fazer desenhos para ilustrar jornais políticos no momento em que o comunismo entrou em colapso. Isso mudou minha forma de desenhar e a velocidade com que passei a responder a eventos sociais. Foi uma decisão conceitual usar preto e branco e começar a inserir desenhos de imprensa em espaços de arte. Quando comecei a fazer isso, entre 1995 e 1997, o grafite não era tão popular e desenhos que pareciam cartuns não eram encontrados em exposições de arte. Artistas de grafite tinham que pintar telas para entrar em museus. Fui um dos primeiros a fazer isso diretamente. Na Bienal de Veneza de 1999, desenhei por todo o piso do Pavilhão Romeno e meu trabalho foi muito bem recebido pelo mundo da arte. Não sou grafiteiro nem cartunista. Tenho 12 anos de instrução acadêmica. Escolhi essa linguagem como um manifesto e uma crítica ao mundo de arte. Há 15 anos faço uma ponte entre o mundo fechado e elitizado das artes com o mundo popular e “normal”. Tem dado certo.

Seu trabalho tem um impacto muito imediato no público. Essa é uma preocupação sua?

Sim e não. Por muitos anos, no jornal em que trabalhava, eu fazia testes com meus colegas: se eles rissem, eu sabia que era um bom desenho. Agora já sei um pouco qual será a reação ou qual desenho fará mais “sucesso”. Misturo trabalhos mais abstratos com desenhos mais engraçados. Também repito desenhos. Cada projeto tem 50% de imagens de projetos anteriores, de outras paredes. E esses são os desenhos “testados”. O “best of”. As pessoas podem se lembrar deles do Facebook ou do Google Images ou, talvez, os tenham visto em outras exposições. Mas são desenhos que funcionam como canções famosas que os fãs de uma banda pedem para ela tocar durante uma turnê. Faz dez anos que sou como uma banda em turnê pelo mundo.

Você cresceu em um ambiente ditatorial. Como isso o afetou?

Bastante. Conheci o poder da ironia e do humor (você consegue derrotar ditadores com isso). Minha forma de pensar e reagir é fruto da ditadura e do período de transição.

A Romênia ainda é um país muito distante para nós. Você vê seu trabalho como uma espécie de “embaixador” de seu país?

Quando você vem de uma cultura pequena e desconhecida, querendo ou não você representa seu país – seja lá o que isso signifique. Mas, dessa vez aqui no Brasil, isso é algo ainda mais forte, porque minha mulher, Lia Perjovschi, também foi convidada para a Bienal e vai mostrar uma instalação diferente, mais analítica. Então, se representamos nossa cultura, nós estamos fazendo isso de uma maneira muito diversificada e abrangente: eu com o humor, ela com o cérebro.

Nunca vou representar o governo romeno. Como artistas do lado crítico, nunca tivemos uma relação extraordinária com nossas instituições estatais, pelo menos até agora, mas representamos uma parte da nossa cultura… O movimento Dada… O revolucionário movimento que transformou o jeito de a cultura e a sociedade europeia existirem após a Primeira Guerra Mundial.

Arte e ativismo estão bastante conectados em seu trabalho. Você entende que essa mistura é uma missão que você deve cumprir enquanto artista?

Sim. Tenho que contribuir, ajuda e ser parceiro de ideias que busquem uma sociedade melhor e um planeta saudável. Farei o que for preciso para isso. Por enquanto meus desenhos são o que posso fazer de melhor.

 

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