Jorge Furtado trata do papel dos jornalistas em ‘O Mercado de Notícias’

Por lyafichmann
Jorge Furtado (à esquerda) dirige atores na peça que ilustra o documentário | Fabio Rebelo/Divulgação Jorge Furtado (à esquerda) dirige atores na peça que ilustra o documentário | Fabio Rebelo/Divulgação

O cineasta Jorge Furtado uniu dois temas de seu interesse – o teatro elizabetano e o jornalismo diário – para construir “O Mercado de Notícias”, seu novo longa-metragem. O documentário, que estreia nesta quinta-feira após ter integrado a competição oficial do festival “É Tudo Verdade”, convida o espectador a refletir sobre a construção da informação. Pode parecer um assunto árido, mas é inegável a consequência dos noticiários no ânimo dos governos, dos mercados e na nossa percepção do dia a dia. (Confira o trailer no final do texto)

“Gosto de jornalismo. Só não fui jornalista porque optei pelo cinema”, diz o diretor de “Meu Tio Matou um Cara” (2004). Com uma posição assumida de esquerda, ele conta que a ideia de fazer o filme surgiu da percepção de que todos os grandes jornais são de oposição ao governo do PT.  “Ao mesmo tempo, com o avanço da internet, o que era a imprensa alternativa dos anos 1970 passou a ser digital”, comenta.

O cineasta convidou alguns dos principais jornalistas para falarem sobre o tema e também sobre escolha de fontes, ética, publicidade oficial e desafios profissionais. Há entrevistas com profissionais como Bob Fernandes, Cristiana Lôbo, Geneton Moraes Neto, Janio de Freitas, José Roberto de Toledo, Luis Nassif e Renata Lo Prete.

Entre um depoimento e outro, um grupo de atores encena a peça “O Mercado de Notícias”, escrita pelo inglês Ben Jonson em 1625.  Contemporâneo de Shakespeare, o dramaturgo esbanja ironia com a possibilidade de fabricar uma informação que esteja ao gosto do freguês. Lançada apenas três anos depois da publicação do primeiro jornal inglês, a peça diverte e impressiona pela atualidade da discussão colocada em cenas por 14 atores.

Jorge Furtado ainda se lança na investigação jornalística mostrando episódios que colocaram em xeque a credibilidade da imprensa, como o caso que ele batizou de “Picasso do INSS”. Trata-se do pôster de uma gravura que decora uma repartição pública em Brasília e que foi tratada como verdadeira pela Folha de S.Paulo. “Descobri que esta reprodução foi entregue como pagamento de uma dívida, enquanto o original está no Metropolitan, de Nova York. Um jornalista não poderia ter cometido um erro de apuração destes”, critica.

Confira a entrevista com o cineasta:

Que critérios você usou para selecionar os entrevistados?
Foi bem pessoal. Claro que o meu recorte é mais de esquerda, mas tentei ter um leque amplo de opiniões. Todos são jornalistas que eu leio e acompanho no dia a dia. Também convidei o Elio Gaspari, mas ele não dá entrevistas. E o Caco Barcellos confirmou, mas houve um problema de agenda.

Há alguma possibilidade de a peça ganhar algum palco?
Por mim, não (risos). Os atores gostariam, mas acho que eu não sobreviveria com eles todos os dias, não sou um cara de teatro. O texto está traduzido no site (omercadodenoticias.com.br), se alguém  quiser montar será ótimo.

Qual é a sua expectativa com o documentário? 
Espero que atraia pessoas que, como eu, gostam de se informar. Quis fazer esta ponte entre a revolução que foi o surgimento da imprensa, por volta de 1500, e o advento da internet, nos anos 2000. Acho que será um bom filme para o debate, para levantar as questões básicas da imprensa. Ele continua no site, é um projeto que nasceu conjunto.

Qual é a sua opinião sobre o futuro do jornalismo? 
Acho que este é um momento de ouro do jornalismo, de valorização da profissão. Com esta confusão que virou a informação na internet, precisamos recorrer aos jornalistas que nos deem credibilidade.

E como anda “Beleza”, seu próximo longa? 
Deve estrear no início do ano que vem. Vamos deixar passar Natal, Oscar, essas coisas.

Confira o trailer:

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